Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância

14 de maio de 2015

Em seu quarto filme produzido nos EUA o diretor mexicano Alejandro González Iñárritu expõe sua opinião sobre a indústria do cinema americano, muito provavelmente a partir da sua experiência por lá. Birdman conta a história de Riggan Thomson, um ator que no passado fez muito sucesso no papel do personagem título, um super-herói que se tornou ícone cultural e comercial em todo o mundo. Desde que ele recusou a filmar o quarto filme da franquia, sua carreira começou a cair. Em busca de refazer sua fama como ator, ele decide dirigir, roteirizar e estrelar a adaptação de um conto do Raymond Carver no teatro da Broadway.

Acontece que a poucos dias da estreia a produção vem enfrentando alguns problemas. Um dos atores se acidentou e foi substituído pelo talentoso e problemático Mike Shiner (Edward Norton); uma outra atriz do elenco, Laura (Andrea Riseborough), revela que pode estar grávida dele; Lesley (Naomi Watts), outra atriz, está insegura na sua estreia na Broadway; seu agente e amigo Jake (Zach Galifianakis) está desesperado com o possível fracasso financeiro do espetáculo; sua filha Sam (Emma Stone), recém saída de uma clínica de recuperação de drogas, sente a falta do afeto paterno e parece estar próxima de uma recaída; e a maior crítica de teatro (Lindsay Duncan) do maior jornal americano mostra-se determinada a escrever uma péssima resenha. Junto à isso, Thomson é constantemente atormentado pela voz de Birdman, que após ter sido abandonado pelo interprete, permanece presente em sua cabeça, lhe atormentando, provocando sua auto-estima, tentando lhe rebaixar.

Há tempos que alguns cineastas americanos vêm se mostrando preocupados com o rumo que suas produções tomaram. Essa preocupação também passa pelos realizadores daqui, já que nosso modelo de produção e exibição é chupado do deles. A internet fez com que os estúdios perdessem dinheiro ao disponibilizar cópias piratas de graça para download. Para não perder dinheiro os estúdios acabaram privilegiando produções que não tivesse risco de lucro como continuações de filmes de herói, filmes 3D, desenhos animados, fazendo de tudo para prender os espectadores na telona. Graças à isso, um outro tipo de filme, considerado mais “artístico”, sofreu junto com seus realizadores e público.

Se antigamente um ator se gabava por nunca ter feito um trabalho taxado de comercial, hoje não é o que acontece. Nem os considerados grandes atores da arte performática escaparam, Ian Mckellen, Cate Blanchet, Jeremy Irons, Samuel L. Jackson, Tilda Swinton, Michael Fassbender, Robert Downey Jr, Philip Seymour Hoffman — assim como também Michael Keaton, Edward Norton e Emma Stone (que estão no elenco de Birdman).

O filme de Iñárritu é uma crônica sobre isso. Não a toa que o seu protagonista é o Michael Keaton, que há duas décadas atrás se eternizou no papel de Batman e que após ter recusado participar de suas continuações deixou de ser convidado para papéis relevantes no cinema. Keaton faz Thomson, ator que não quer ser eternamente conhecido por usar a máscara de um herói, que sente que suas ambições artísticas vislumbram outros trabalhos e, portanto, decide correr atrás disso. É um filme que fala sobre existência, sobre a busca por um lugar e um objetivo na vida — e em como nos enxergamos em nossas próprias vidas.

O objetivo de Iñarritu é discutir a questão Arte versus Entretenimento. Existe mesmo esta divisão? Todos os personagens estão marcados pela dualidade, parecem estar divididos entre duas direções. Mike Shiner é um ator do Método, não quer que o gin seja substituído por água no palco e sugere que usem uma arma de verdade em cena, para dar mais realidade. Em um momento do filme Shiner diz que se sente como que interpretando na vida real enquanto no palco ele é mais livre. Lesley, Sam, Jake e outros também parecem desconfortáveis em suas personas, dando a impressão de que tudo pode despedaçar de uma hora para outra. O filme nos faz acompanhar Thomson no esforço para se reerguer através do prestígio concedido pelo teatro, se relacionando com os outros que buscam a mesma vitória prometida pelo sonho americano.

O desejo de ser amado, inerente ao ser humano, pode ser um elemento auto-destrutivo para o artista embora também possa ser um combustível para a realização de seus trabalhos mais ambiciosos. É a necessidade em ser admirado que move todos os personagens do filme. E no caso de Thomson, através da sua peça ele almeja o reconhecimento ao invés da fama. Não é a peça que lhe interessa, nem o seu conteúdo ou o que ela comunica, mas sim ele mesmo. Na sociedade do espetáculo em que estamos inseridos a imagem é o grande valor e a vida passa a ser um jogo no qual só o que importa é a construção dessa imagem e a transformação do nome de alguém em grife. O avatar se torna mais importante do que a pessoa.

A fama se relaciona com o avatar. Já o reconhecimento, com a pessoa. O famoso é conhecido mas não necessariamente reconhecido. Reconhecer é poder conhecer-se no outro, é se colocar no seu lugar, é aceitá-lo e defender seu direito de existência. Não é simplesmente aceitar, mas compreender e respeitar. Para isso é preciso enxergar no outro algo que seja digno de compreensão e de respeito. Daí existe mesmo a diferença entre Celebridade e Artista. Não são a mesma coisa. O desejo de ser famoso é um fim em si e acaba se tornando um negócio. A imagem é mercadoria e é dela que vivem as celebridades — pessoas para as quais o ser não está em jogo, mas apenas o aparecer.

Em uma cena do filme, Shiner fala para Thomson “A popularidade é a prima promíscua do prestígio”. São dois personagens diferentes mas ambos arrogantes e movidos pelo ego, pela vontade de serem mais importantes do que os outros. O que Shiner tem (prestígio artístico reconhecido por críticos), Thomson não tem e quer. O que Thomson tem (popularidade e poder), Shine não tem e quer. O detalhe precioso é que mesmo com toda arrogância, eles são inseguros. O primeiro é impotente sexual e o segundo frágil em suas convicções artísticas.

O filme escrito por Iñarritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris e Armando Bo não é uma sátira. Em outras mãos poderia ser uma comédia debochada cheia de ironia que acabaria resultando nos mesmos filmes a que critica. Birdman é um filme necessário e não foi feito unicamente para divertir, é um filme que emite uma opinião de assuntos contemporâneos. Um filme para artistas e também para consumidores de arte.

Em um diálogo estupendo Thomson discute com sua filha no salão do teatro. Ele diz que está tentando construir algo importante e ela rebate que o que ele faz não é importante. Thomson reage, “É importante para mim. Talvez não para você ou para seus amigos cínicos cuja única ambição é produzir um viral, mas para mim, para mim é Deus. Essa é a minha carreira, essa é a minha chance de fazer um trabalho que é realmente significante”. A resposta de Sam ao pai é um dos melhores momentos de Emma Stone no cinema: “Significante para quem? Você teve uma carreira antes do terceiro filme do herói dos quadrinhos, antes das pessoas começarem a esquecer quem estava dentro da fantasia de pássaro. Agora você está fazendo uma peça baseada em um livro que foi escrito há 60 anos atrás para umas centenas de ricos e brancos que só estão mesmo preocupados em onde eles vão comer depois. E encare, pai, não é pela arte, é porque você quer se sentir relevante de novo. Tem um mundo inteiro aí fora onde as pessoas lutam para serem relevantes todos os dias e você age como se ele não existisse! (…) Você detesta os blogueiros, você detesta o Twitter e você nem tem um perfil no Facebook! Você não existe. Você faz isso porque tem medo de morrer. Como todos nós. E você quer saber? Você está certo. Nada é importante. Você não é importante. Se acostume com isso.”

Outra cena marcante é da discussão entre Thomson e Tabitha, a crítica de teatro que quer conservar a pureza na arte — parecida com algumas que vemos por aí. Mesmo sem ainda ter assistido a peça, ela diz que vai escrever uma péssima resenha e vai destruir seu trabalho, justificando que Thomson está ocupando o espaço de alguém que poderia ter algo importante para dizer. “Eu vou escrever a pior crítica que alguém já leu e vou acabar com sua peça. Sabe por quê? Porque eu odeio você e todos que você representa. Egoístas, crianças mimadas, despreparados para exercer a verdadeira arte. Entregando uns aos outros prêmios por desenhos e pornografias. Bom, aqui é o teatro e você não pode vir aqui e fingir que sabe escrever, dirigir e atuar na sua própria propaganda sem passar primeiro por mim.” Embora tenha alguns pontos interessantes, a opinião de Tabitha é ultrapassada. Por isso a resposta de Thomson é mais violenta e contundente. Ele a acusa de ser preguiçosa e produzir apenas rótulos. “Você não consegue ver uma coisa se não rotular ela antes. (…) Não há nada sobre técnica, sobre estrutura, sobre intenção! É apenas um monte de opinião de merda. Você apenas escreve uns parágrafos que não lhe custam nada. Seu risco é zero. É nada. Eu sou um ator e nessa peça arrisco tudo!” Ao que ela rebate “Você não é um ator. Você é uma celebridade.” Boa discussão.

A cinematografia concebida por Iñarritu e pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (Gravidade, A Árvore da Vida) é espetacular. Filmado para parecer um único plano-sequência, evoca uma continuidade temporal característica do teatro. Aliás, ele é quase que inteiramente filmado num teatro, nos mostrando seus bastidores, coxias, camarins, sala de máquinas, justamente revelando o que há por trás de produções para discutir as produções. Colocando em contraste o Cinema e o Teatro. A trilha sonora do Antonio Sanchez parece improvisada e executada ao vivo. Os atores estão insuperáveis. Edward Norton faz o seu melhor trabalho desde “Clube da Luta”. Emma Stone em uma carreira ainda curta faz seu melhor papel até agora. Zach Galifianakis faz um personagem diferente de tudo o que Zach Galifianakis já fez.

Mas o filme é mesmo de Michael Keaton, corajoso ao usar sua biografia e seu envelhecimento para construir Thomson, se expõe como em uma das cenas em que remove a peruca que esconde sua calvície e fala sobre seu medo de ser esquecido “Você sabia que Farah Fawcett morreu no mesmo dia que Michael Jackson?”. Keaton interpreta parecendo que foi mordido por um mosquito e passa o filme inteiro atrás desse mosquito. Mas não é só ele que está atrás deste mosquito, como também Riggan Thomson. Este mosquito é um pássaro, que é ele mesmo. E todos temos esse pássaro super-herói que pode nos destruir ou nos levar aos céus.