A Arte Sincera: Daniel Johnston

23 de março de 2015

Quando apareceu na cena musical norte americana no início dos anos 80, aos 22 anos, Daniel Johnston chegou a ser chamado de Bob Dylan de uma nova geração indie. Suas canções eram carregadas de inocência e de uma visão pessimista do mundo, ele cantava sobre amores que não deram certo e frustrações da vida adulta. Letras simples, cruas e dolorosas surgiram após uma paixão não correspondida. Laura, uma amiga dos tempos de colégio, era a sua obsessão e musa mas nunca retribuiu o sentimento. Quando Laura começou um namoro com um outro rapaz do colégio, Daniel foi se consolar no violão, traduzindo sua dor em arte.

Compôs suas primeiras músicas em um teclado montado em um estúdio improvisado na garagem. As fitas cassetes que ele entregava a amigos e jornalistas foram gravadas ao vivo nessa garagem, faixa por faixa, na sequência em que apareciam. Sua fama cresceu de forma viral em uma época onde a internet não era uma ferramenta de auto promoção para artistas, suas fitas eram passadas de mão em mão, e fãs foram aparecendo nos pequenos shows que ele fazia nas folgas do seu trabalho como funcionário do McDonald`s. Acabou influenciando gerações de músicos que vieram em seguida, como Nirvana, Sonic Youth, Flaming Lips, Beck.

A vida de Daniel foi retratada em 2006 no documentário The Devil and Daniel Johnston, dirigido por Jeff Feuerzeig — vencedor como melhor diretor no festival de Sundance. O filme mostra a trajetória de Daniel desde a sua adolescência altamente criativa até a sua precoce degradação mental. Ainda jovem, Daniel foi internado diversas vezes em clínicas psiquiátricas e diagnosticado como esquizofrênico após uma série de casos que colocaram em jogo a sua sanidade: acertou um amigo com um cano, disse que estava sendo perseguido por demônios, desligou um avião monomotor em pleno voo — que quase causou a sua morte e a do pai, piloto do avião. No início dos anos 90, a gravadora Elektra lhe ofereceu um contrato milionário, mas Daniel não aceitou por achar que a banda Metallica, integrante do selo, era demoníaca e queria matá-lo.


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Um dos seus sonhos era aparecer na MTV. Este vídeo foi gravado pela emissora no auge do seu sucesso:

Durante a sua infância e adolescência em Austin, Texas, Daniel usava um gravador para registrar momentos privados da sua rotina, como discussões com sua mãe, conversas com amigos, declarações de amor. Feuerzeig descobriu essas fitas em uma caixa na casa dos pais de Johnston, além de vários cadernos cheios de desenhos e rolos e mais rolos de filmes Super-8 com imagens de Daniel com seus amigos.

Entre esses rolos há um vídeo hipnótico que ele fez de Laura, a garota dos seus sonhos, em que Daniel demonstra a sua paixão e pede diversas vezes para que ela diga “Eu te amo, Danny”. Daniel não sabia, mas Laura estava comprometida com um outro rapaz, e se casou ainda jovem. A paixão não correspondida foi a matéria prima para o despertar da sua criatividade musical. Logo no início do documentário vemos Daniel sentado em seu sofá, mais velho e marcado pelo uso de remédios psiquiátricos, assistindo a fita com um olhar cravado e um sorriso que parece estar prestes a se transformar em choro, e chega a ser possível ver o que se passa em sua cabeça, “Ela foi a inspiração para milhares de minhas canções. E então eu soube que eu era um artista”, ele comenta.

“O cinema de documentário pode ser muito mais poderoso que o de ficção”, disse Feuerzeig em entrevista, “Porque é sobre a verdade e não há regras na busca pela verdade profunda.” O filme é tocante porque retrata a vida de um artista inquieto e apaixonante, um gênio criativo da lucidez à loucura. Acredito que seja interessante até mesmo para quem nunca ouviu falar em Daniel Johnston.

Agora você nunca mais vai esquecer.

Links:

Assista o filme no Youtube (com legendas em espanhol)

Ouça “True Love Will Find You in The End