Aquarius — algumas ideias

15 de setembro de 2016

Há no mínimo umas dez cenas que me impressionaram em Aquarius, novo filme do Kleber Mendonça Filho. Entre elas a que considero a mais importante é um plano único que começa mostrando um casal trepando na praia à noite e em seguida a câmera se move para a esquerda mostrando uma partida de futebol na quadra da orla e depois a câmera recua o zoom atravessando a janela do apartamento de Clara, personagem de Sonia Braga, revelando-a dormindo na rede. Essa sequência, ao meu ver, é uma boa síntese da estética do cinema de Kleber e do que seu filme discute.

Assisti o filme numa tarde de sábado e a plateia estava praticamente lotada. Ao sair da sala no fim do filme a fila que se formava para a sessão seguinte era ainda maior. Assisti o filme tardiamente porque todos os meus amigos já tinham visto — inclusive alguns que nunca mais tinham ido ao cinema — e vinham discutindo-o fervorosamente.

Na sala de cinema após a exibição algo raro aconteceu. As pessoas aplaudiram. É muito comum aplaudir filmes em festivais, afinal de contas a equipe está presente e o aplauso é uma resposta à eles. Um filme ser aplaudido em uma sessão ordinária de um cinema qualquer é diferente de quando acontece nos festivais, nos teatros e, principalmente, a cada pôr do sol no Arpoador. Revela uma necessidade autêntica de expressar para si e para os companheiros de sala (de viagem), a sua aprovação. Pensei que ainda nos tempos de hoje o cinema continua sendo um programa de arte — acho muito difícil imaginar alguém sozinho aplaudindo um episódio de novela. Achei bonito e também aplaudi.

Digo isso porque quando o filme estreou algumas pessoas, influenciadas por um colunistas da revista Veja, decidiram boicotar Aquarius. No entanto, o tiro dado pelo colunista saiu pela culatra, pois tudo o que vem acontecendo em torno do filme — o protesto da equipe contra o golpe em Cannes, a exclusão na seleção para concorrer ao Oscar, a classificação etária imposta — acabou lhe trazendo mais visibilidade, despertando mais curiosidade e lhe dando uma dimensão política ainda maior do que a já impressa em seu roteiro.

Como escreveu o Matheus Pichonelli, “Basta lembrar que a trama aborda o modus operandi da expansão imobiliária em um momento em que o modus operandi das grandes empreiteiras é desnudado por operações policiais a detonarem crises políticas.”


O Filme

Sinopse: o filme acompanha a vida de Clara que mora há décadas em um edifício antigo de frente para a praia de Boa Viagem, no Recife. O prédio, que se chama Aquarius, está basicamente todo comprado por uma construtora que pretende derrubá-lo para construir um condomínio de luxo. A empresa, representada por Diego (interpretado com firmeza pelo Humberto Carrão) encontra em Clara um obstáculo pois ela se recusa a vender seu apartamento.

De início fica claro a construção de forças opostas e a ideia do quanto é difícil fazer resistência contra algo que não se quer enquanto lhe são colocadas dificuldades para lhe convencer da desistência. Qual foi a última vez que você passou por isso ou soube de uma situação dessas?

Ouvi interpretações do filme como metáfora para o impeachment. Dilma seria representada pela personagem Clara, na resistência contra àqueles que querem lhe tirar de sua casa. Pode ser interessante vê-lo assim, mas o filme foi feito antes de todo o processo que retirou a presidenta do governo. De qualquer modo, tudo sobre o que o filme fala, e inclusive o golpe, diz muito sobre um problema raiz do nosso país — que também havia sido discutido no O Som ao Redor.

O embate entre duas forças existentes no Brasil desde a sua fundação. Mais do que oposições esquerda e direita, arcaico e moderno, é o confronto da existência entre duas formas de pensar o Brasil.

Novamente vemos o registro naturalista de interpretação usado no O Som ao Redor. Mesmo conhecendo parte dos atores, a criação dos personagens, do roteiro à atuação, é tão real que parecem pessoas que realmente existem e conhecemos. Até participações menores se tornam inesquecíveis, como por exemplo a cena em que Julia (sempre excelente Julia Bernat) coloca a música "Pai e Mãe" do Gil para tocar, criando assim um instante de sintonia com Clara. A cena dura poucos segundos capturando os olhares trocados entre as atrizes, e é um daqueles bons momentos do cinema em que a habilidade da equipe e do elenco preenche a tela de sentimentos. Os trabalhos de Maeve Jinkings, Carla Ribas, Irandhir Santos, Barbara Colen, o elenco todo aparece com um mix de preciso e espontâneo. Mas é claro que é no vigor com que Sonia Braga aparece em cena e na postura cínica e fria do ótimo Humberto Carrão que as emoções brotam na tela de Aquarius.


Ficção e realidade

Meus olhos de leitor de poesia encontraram muitos simbolismos no filme. A começar pelo título que pode ser entendido como uma referência à Era de Aquarius; a música tema é do compositor e cantor índio brasileiro (nascido uruguaio) Taiguara, se chama Hoje e sua letra começa “Trago em meu corpo as marcas do meu tempo”; a presença de Sônia Braga carregando o filme como uma personagem escritora, afetuosa, sensível à arte e ao humano, apaixonada por Heitor Villa-Lobos; como escreveu o crítico José Geraldo Couto, o filme está o tempo todo nos mostrando “um corpo num prédio numa cidade”, onde há um “confronto entre o horizontal e o vertical”. O horizontal significa a igualdade, as relações, e está presente no formato do prédio que é mais largo do que alto, na orla da praia, no salão de baile. O vertical significa a hierarquia, o poder, presente nos grandes prédios modernos que circundam o edifício título.

E é aqui que eu volto à cena que mais me impressionou. Em uma tomada única Kleber mostra o casal trepando entre coqueiros na praia, a partida de futebol e Clara dormindo em seu apartamento. Coloca assim três acontecimentos diferentes no mesmo horizonte, lado a lado, evidenciando que tudo está e faz parte do mesmo mundo.

Enquanto você lê esse texto o porteiro do seu prédio carrega o lixo para a rua. Na rua o guardador de carros conversa com o pipoqueiro. O pipoqueiro dá o troco para uma menina com o cachorro. A menina com o cachorro é olhada pelo homem checando o celular. O homem esconde o celular quando avista um mendigo vindo em sua direção. O mendigo passa rápido falando sozinho, brinca com o cachorro da menina, cumprimenta o guardador de carro, pega algumas pipocas do carrinho do pipoqueiro e se aproxima do lixo deixado pelo porteiro, catando o que encontra de útil. E de repente ele olha pra cima e consegue te ver, sob a luz da tela do computador, enquanto você lê este texto.

O pensamento representado no personagem do Diego, fechado em apartamentos refrigerados, protegido por câmeras de segurança, não quer contato com seus vizinhos mas faz questão de que eles pertençam à mesma classe social. Não quer estar no mesmo prédio, no mesmo bairro, na mesma cidade, no mesmo país daqueles que julgam diferentes. A modernização cafona que transforma moradia em Residence é o desejado lifestyle de comunidade almejado por Diegos.

A resistência de Clara está em negar a fazer parte de um padrão de modernização que impõe um estilo de vida à todos, e que considera os que não o aceitam como inválidos. Na relação estabelecida entre os arquivos e a memória do país vemos um descaso generalizado por parte das esferas públicas e privadas que cedem às exigências da especulação imobiliária. O que Clara quer não é voltar ao passado como quem diz "no meu tempo era melhor", mas é reconhecer que certas direções com verniz de novo não se configuram como uma evolução assertiva para o crescimento do país. Compreender isso é necessário para pensarmos que projeto de futuro podemos ter. Um futuro que inclua o seu passado, que se concilie com o presente. A memória do Brasil é fundamental para que o Brasil continue existindo.