Histórias curtas adaptadas para o cinema

27 de abril de 2017

História curta ou conto é o formato de narrativa que mais gosto de ler. Uma coletânea de contos para mim alude à vasta imagem do universo. A minha entrada na literatura se deu pelas leituras das histórias de Cortázar, Kafka, Clarice, Rubem Fonseca e Machado de Assis. Há um prazer em começar a leitura de uma história e acabá-la algumas páginas depois.

Borges dizia que a virtude do conto está no fato de que dura o tempo que dura uma história contada numa mesa, numa sala, pelos amigos e pela família. É mais natural para nós a extensão dessas histórias curtas do que de um romance de quinhentas páginas.

Uma outra comparação possível é com o cinema. Sempre achei que a leitura de um conto desse muito mais a sensação de assistir um filme do que um romance cheio de cenas, pensamentos, descrições e enxertos. E o próprio cinema deve muito à concisão do conto.

Abaixo eu separei alguns exemplos de contos que foram adaptados para o cinema, com breves informações sobre os enredos, curiosidades e qualquer coisa mais.


A Chegada

"A Chegada" (Arrival), filme de ficção científica de 2016, dirigido por Denis Villeneuve, foi baseado no conto “História da Sua Vida” (Story of Your Life) escrito em 1999 por Ted Chiang.

Atualmente Ted Chiang é um dos autores de mais destaque no cenário da literatura de ficção científica. Com quinze trabalhos publicados entre contos e novelas curtas, sua pequena produção contrasta com sua expressiva quantidade de premiações, dentre elas Nebula, Hugo, Locus, Sturgeon, Sidewise e Seiun. O conto que inspirou o filme “A Chegada” ganhou o Prêmio Nebula de Melhor Novela em 2000 assim como o Prêmio Sturgeon em 1999. A história acompanha a vida e o trabalho da doutora Louise Banks, após ter sido recrutada por militares para traduzir os sinais enviados por alienígenas que pousaram na Terra. Os principais temas explorados pela história são a linguagem e a hipótese de Sapir-Whorf.

Sapir-o-quê?

Bom, eu também não fazia ideia do que se tratava a “hipótese Sapir-Whorf”, mas em uma rápida pesquisa descobri que ela também é conhecida como relativismo linguístico, e foi proposta nos anos 1930 por dois linguistas, Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf. Eles criaram uma tese explicando que as pessoas vivem segundo suas culturas em universos mentais muito distintos, e que estão exprimidos (e talvez determinados) pelas diferentes línguas que falam.

O filme é muito bom, mas o conto é melhor ainda. Recentemente publicado aqui no Brasil na coletânea “História da Sua Vida e outros contos”, em uma prosa limpa e desconcertante, Chiang conduz brilhantemente a sua história na qual a ciência funciona como expressão dos questionamentos mais profundos enfrentados pelos personagens.


Inverno de Sangue em Veneza

Produção independente anglo-italiana de 1973, “Inverno de Sangue em Veneza” é um filme de suspense dirigido por Nicolas Roeg, adaptado do conto “Don’t Look Now” do livro “Not After Midnight” de Daphne du Maurier. A obra conta a história de um casal que viaja para Veneza após a morte de sua filha. A trama trata da psicologia do luto, representando os efeitos que a morte de um ente querido causa em uma família.


Lúcia McCartney, uma Garota de Programa

Essa foi a primeira adaptação de um texto do Rubem Fonseca para o cinema, realizado em 1971 e dirigido por David Neves. O filme une dois contos de Fonseca, "Lúcia McCartney" e "O Caso de F.A.".

Em “Lúcia McCartney” narra a história da personagem-título, uma garota de programa que é fã dos Beatles e se apaixona por um cliente. E o “O Caso de F.A.” é a história do diplomata que luta para tirar uma prostituta do bordel onde ela vive. Ambos os contos estão no livro “Lúcia McCartney”, publicado em 1967.

Os contos desta coletânea estão entre os melhores do Rubem Fonseca, que já demonstrava o retrato de um mundo irônico e angustiado onde tudo pode acontecer, onde não há lugar para sentimentos de culpa nem moral redentora.


O Cobrador

Coprodução internacional dirigida pelo mexicano Paul Leduc, "O Cobrador" é um filme de 2006 e foi premiado nos festivais de Gramado e Havana. O longa é baseado em quatro contos do Rubem Fonseca: o próprio O Cobrador (do livro homônimo), Passeio Noturno (de Feliz Ano Novo), Cidade de Deus (de Histórias de Amor) e Placebo (de O Buraco na Parede). Lázaro Ramos interpreta o protagonista neste filme que também conta com Peter Fonda no elenco.


O Vingador do Futuro

Philip K. Dick é um dos autores americanos mais adaptados para o cinema. Seus livros são procurados por muitos produtores de Hollywood interessados em filmar um sucesso de ficção científica. Até agora já foram adaptados 10 de suas histórias, o mais popular deles, Blade Runner (1982), foi baseado no romance Do Androids Dream of Electric Sheep? (1966), publicado no Brasil com o título O Caçador de Androides.

Ele escreveu cerca de 130 contos.

O conto “Podemos Recordar para Você, por um Preço Razoável” (We Can Remember It for You Wholesale) foi primeiramente publicado em 1966 na revista Fantasy & Science Fiction e teve a sua versão traduzida no Brasil publicada na coletânea de contos “Realidades Adaptadas”. Conta a história do operário Douglas Quaid que recorre a um implante de memória para poder simular uma viagem a Marte, já que sua esposa não concordava com uma viagem real.

A primeira adaptação pro cinema chama-se “O Vingador do Futuro”, de 1990, foi dirigida por Paul Verhoeven e estrelada por Arnold Schwarzenegger no papel de Quaid (no filme se chama Quail).

Em 2012 foi filmada uma nova versão com Collin Farrell, Kate Beckinsale, Jessica Biel e Bryan Cranston no elenco. “Total Recall” mantém o título do primeiro filme mas não segue fielmente a adaptação do conto: esta versão não apresenta a viagem ao planeta Marte, e contém um forte conteúdo político mostrando uma rebelião de trabalhadores operários da Colônia (Austrália) contra a elite abastada da União Britânica (Europa).

Francamente? Hollywood coloca esse monte de estrelas para seduzir o espectador médio a comprar pipoca e refrigerante. Leia o conto, é bem mais divertido que as duas adaptações.


Amnésia

Quase ninguém sabe mas o filme “Amnésia” de Christopher Nolan é uma adaptação de um conto escrito pelo seu irmão mais novo, Jonathan Nolan. A história chama-se “Memento Mori” e surgiu durante as aulas de Psicologia na universidade: Leonard está caçando o homem que estuprou e matou sua esposa, mas ele tem dificuldades em encontrar o assassino pois sofre de uma forma intratável de perda de memória. Mesmo que ele possa lembrar detalhes da vida antes do acidente, Leonard não consegue lembrar o que aconteceu quinze minutos atrás, onde está indo ou a razão.

O conto não tinha sido publicado quando Christopher o registrou nos cinemas, mas em 2007 a revista Esquire publicou em seu site. No texto o personagem Leonard (interpretado por Guy Pearce no filme) chama-se Earl e está confinado em um hospital psiquiátrico.


De Olhos Bem Fechados

O último filme de Stanley Kubrick foi dirigido em 1999, mas ele já tinha comprado os direitos de adaptação do texto nos anos 60. “Breve Romance de Sonho” (Dream Story ou Traumnovelle) é um conto longo de 1926 da autoria do poeta, dramaturgo e romancista austríaco Arthur Schnitzler, descrevendo os momentos de alucinação consciente de um jovem médico na Viena do início do século XX que fica perturbado quando sua esposa lhe conta ter tido fantasias sexuais com um outro homem no passado. A história trata dos dilemas do casamento, inseguranças, obsessões, ciúmes e desejos sexuais.

Em sua adaptação, Kubrick optou por atualizar a trama para o final dos anos 90 em Nova York. Segundo Katharina, filha do diretor, ele levou 30 anos para adaptar a história porque quando a leu pela primeira vez percebeu que tratava de temas muito importantes sobre relacionamentos amorosos e ele não se sentia maduro o bastante para lidar com esses assuntos.

Este é o último filme de Kubrick, que morreu apenas 5 dias depois de mostrar seu corte final do filme para o estúdio.


2001: Uma Odisséia no Espaço

Uma das maiores obras primas do cinema, “2001: Uma Odisséia no Espaço” partiu de uma encomenda feita pelo Stanley Kubrick para o autor de ficção científica Arthur C. Clarke. Fascinado pela hipótese de vida alienígena, o diretor convidou Clarke para criarem uma história sobre a evolução humana, existencialismo, tecnologia, inteligência artificial e vida extraterrestre. Clarke sugeriu um de seus contos, “The Sentinel”, como ponto de partida. Durante as longas conversas com Kubrick sobre ideias para o filme, Clarke desenvolveu esse conto e acabou escrevendo um livro que se tornou o roteiro final.


Janela Indiscreta

Janela Indiscreta é um filme de 1954, dirigido por Alfred Hitchcock com base no conto “It Had To Be Murder” de 1942 escrito por Cornell Woolrich. Estrelado por James Stewart e Grace Kelly, o filme é considerado por muitos cinéfilos, críticos e estudiosos como um dos melhores de Hitchcock.

“It Had To Be Murder” conta a história de Jeffries, um fotógrafo profissional que está confinado em seu apartamento em Greenwich Village, Nova York, após ter quebrado a perna enquanto trabalhava. Como não tem muitas opções de lazer, vasculha a vida dos seus vizinhos com um binóculo, quando vê alguns acontecimentos que o fazem suspeitar que um assassinato foi cometido. O conto nunca recebeu uma tradução para o português. Cornell Woolrich não é um autor muito conhecido por aqui. Ele morreu em 1968 e foi um escritor de novelas e contos policiais (na época chamados de crime fiction) que costumava assinar sob o pseudônimo de William Irish e George Hopley.

Quem se interessar, pode ler um PDF do conto aqui.


Stephen King

Nesta lista não poderia faltar Stephen King. Suas obras já foram adaptadas em dezenas de filmes de Hollywood, provavelmente é o escritor americano mais adaptado para os cinemas. Inclusive, o Wikipedia tem uma página exclusiva com a lista dessas adaptações.

Todo mundo sabe que Kubrick adaptou o livro “O Iluminado” para os cinemas, mas como essa é uma lista de adaptações de contos, e não de romances, vou falar de outros filmes.

Um Sonho de Liberdade

O filme “Um Sonho de Liberdade” foi baseado no conto “Rita Hayworth e a redenção de Shawshank” do livro “Quatro Estações” (Different Seasons), e conta a história de Andy Dufresne, um banqueiro acusado à prisão perpétua pelo assassinato de sua esposa e seu amante. Ao contrário das histórias de terror pelas quais ele ficou famoso, neste conto longo — que pode ser lido em um ou dois dias –, ele não usa nenhum elemento sobrenatural, e de forma fluída e sensível faz com o que o leitor crie empatia pelos personagens e seus dilemas. Quem narra a história é Red, também condenado à prisão perpétua, que já cumpria sua pena há dez anos quando Andy chegou à Shawshank. Stephen King explora com maestria tanto os horrores quanto às graças da alma humana: nos deparamos com personagens cruéis e corruptos ao mesmo tempo em que Andy é, praticamente, a personificação da calma, da esperança e de alguém cujos valores estão acima de tudo.

Esse é com certeza meu texto favorito do King. Acho admirável a sua habilidade e aparente simplicidade em contar uma história. A leitura corre fácil como se estivesse sendo contada diretamente pra gente. Li este conto uma par de vezes e volto sempre à ele quando quando preciso me lembrar que não há nada como uma boa história muito bem contada.

Uma curiosidade: Shawshank foi levemente inspirado em outro conto, “God Sees the Truth, But Waits”, do Leon Tolstoi, sobre um homem que foi preso por um crime que não cometeu.


Conta Comigo

“O Corpo” é outra história sublime incluída no livro “Quatro Estações”, adaptada para o cinema em 1986 com o título “Conta Comigo”, sob direção de Rob Reiner. Quatro garotos ficam sabendo que há um corpo de um menino em determinado lugar e, motivados pela possível chance de se tornarem heróis, decidem empreender uma jornada até encontrá-lo . Como diz um amigo meu, “a viagem é o caminho”, essa missão acaba por marcar a passagem deles para a vida adulta.

Como eu disse, Shawshank é o meu texto preferido do Stephen King, e The Body é o segundo. Esse conto me fez refletir sobre a infância, a amizade, o crescimento pessoal e os inevitáveis sentimentos de perda que temos durante o percurso de amadurecimento. É sobre quem somos e aquilo em que nos tornamos.