Paterson e a inspiração

22 de maio de 2017

O filme “Paterson”, escrito e dirigido por Jim Jarmusch, acompanha uma semana na vida de um motorista de ônibus chamado Paterson que mora em uma cidade chamada Paterson, que admira imensamente o livro “Paterson” do poeta William Carlos William. Todos os dias ele acorda pouco depois das seis horas ao lado da sua companheira Laura; toma o mesmo café da manhã; vai à pé para o trabalho; escuta sempre as mesmas reclamações do seu colega; almoça sempre no mesmo lugar; volta para casa; conversa e janta com Laura; leva o cachorro para passear e no caminho entra no mesmo bar perto de casa para tomar uma cerveja e acaba encontrando as mesmas pessoas fazendo igualmente as mesmas coisas de sempre.

Envolvendo a sua rotina há o fato de que Paterson (Adam Driver) é um poeta e por isso pensa na sua poesia enquanto caminha, dirige, escuta a conversa alheia e escreve em seu caderninho durante os limitados intervalos do seu dia.

Vivendo nessa simples e pacata cidade ele acaba encontrando personagens com diversas pretensões artísticas. Laura (Golshifteh Farahani), sua companheira, é artista plástica; Doc, o barman, mantém na parede do bar uma colagem com fotografias de artistas locais; Roy, amigo de infância, é um ator desempregado; e ao longo dos dias Paterson cruza com um estranho ensaiando letras de rap numa lavanderia, uma menininha na rua escrevendo poesias em seu caderno, e um poeta japonês de passagem pela cidade onde viveu os poetas Allen Ginsberg e William Carlos William. Que nenhum destes indivíduos seja especialmente talentoso e conseguirá trabalhar a sua arte é algo que não faz qualquer diferença. O filme é justamente sobre esta tentativa. Ou nem isso, é sobre a necessidade que certas pessoas têm de sentir a criação através de si. É sobre a inspiração.


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A ideia de inspiração é erroneamente citada como um momento único e sagrado, uma encarnação onde um mero porta-voz ou médium emprega a mensagem recebida. Eu prefiro entender a inspiração como uma concentração alcançada através de um estado de prontidão ao que acontece, como define Nietzsche, é “a noção de revelação, no sentido de que subitamente algo se torna visível, audível, algo que comove e transtorna no mais fundo.” A inspiração está no dia a dia, acontece o tempo todo, não é exclusiva dos artistas, e pode estar no ato de escrever, pintar, se vestir, cozinhar, fazer sexo, arrumar o quarto ou passear com o cachorro. Basta estar atento.

Penso na inspiração como tesão. É algo da qual não temos pleno controle e no entanto define totalmente o nosso envolvimento com o que fazemos e até com quem nós somos.

É o que acontece com Paterson. No seu caminho para o trabalho ele está aberto aos acontecimentos. Um pedestre que passa, alguém cantando longe, uma discussão de casal, um acidente, tudo pode lhe afetar e lhe inspirar porque ele está disponível à isso. Ele escreve seus poemas sem a finalidade de publicá-los. Aliás, ele os escreve sem nem cogitar a hipótese de um dia chegar a vê-los impressos em livro. Como o escritor Gonçalo M. Tavares costuma afirmar, o escritor escreve por necessidade, escrever é vital e não tem nada a ver com publicar — publicar um livro não é necessariamente uma razão para se escrever um livro. Assim também, Paterson não publica ou posta seus textos na internet. Ele faz o seu trabalho repetitivo e solitário (um motorista de ônibus não conversa com ninguém e percorre sempre o mesmo caminho) sem se queixar e encontra inspiração e distração nas conversas dos passageiros. Sua poesia é imbuída da substância da sua vida, sua obra reflete sua existência. A simplicidade de seus poemas é a antítese da grandeza e da pretensão características da arte mainstream.

Um exemplo da sua disponibilidade à inspiração diária está logo no início do filme. Ao acordar ao lado da sua namorada, Laura diz que sonhou que eles tinham filhos gêmeos. Nas cenas seguintes Paterson passa a encontrar diversos gêmeos pela cidade. Não foram os gêmeos que simplesmente apareceram depois que Laura disse isso, mas a sua percepção se abriu e ele passou a notá-los na sua rotina.

Nota: muitas mulheres grávidas relatam se esbarrarem cotidianamente com outras mulheres grávidas no seus bairros. Não é que simplesmente surgiram várias mulheres grávidas de uma só vez, mas, com as atenções absorvidas pelo assunto elas passam a distinguir esse acontecimento.

Laura passa seus dias em casa pintando as paredes, cortinas, lençóis, as criações seguem sua obsessão visual por um mesmo padrão: imagens circulares em preto e branco. Suas roupas são em preto e branco, usa acessórios em preto e branco e quer comprar um violão preto e branco. Todo dia tem uma ideia para um novo projeto. Dessa vez ela sonha em se tornar uma cantora de música country (embora não haja nela nada que remeta ao estilo country), e por isso pede dinheiro ao Paterson para comprar um violão. Concomitantemente planeja começar um negócio de vendas de cupcakes para ficar rica e poder pagar suas empreitadas artísticas.

Paterson e Laura lidam de formas diferentes com suas inspirações. Paterson é reservado e Laura é impulsiva. Laura não sai de casa e todo dia quer fazer algo diferente para preencher o mundo com suas criações, e nada do que ela cria deixa de ter um toque original — por exemplo, ela cozinha uma quiche de queijo cheddar com couve de bruxelas. Diferentemente de Laura, para Paterson, viver não se trata de deixar a sua marca, ele segue imperturbável em uma rotina imutável e banal, preenchendo o seu mundo interno com poesia. Laura é extrovertida, e por nunca sair de casa acaba criando tudo à partir de suas obsessões. Paterson é introvertido, e por passar mais tempo fora de casa acaba se deixando influenciar pelo que acontece ao seu redor.

Vale dizer que ser uma artista plástica não é uma profissão de fácil sucesso financeiro, mas ser poeta é mais difícil ainda, mesmo em uma cultura de forte produção literária como a norte americana.


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Contrariando as regras dos manuais de roteiro ensinadas em inúmeros cursos e livros do gênero, neste filme não existe um conflito definido, o personagem principal não tem um objetivo, não passa por uma transformação e não luta contra um antagonista. A ausência de fórmulas tem feito o público avaliar o filme como monótono, tedioso e chato. Bom, claro, se o espectador estiver atrás de uma história de superação ou de um herói que salvará o mundo, então este não é o filme recomendado.

Em “Paterson” os momentos de comédia não tem graça, os de romance não emocionam, e até onde se principia um conflito tudo é resolvido rapidamente — como na cena em que o ônibus quebra mas ninguém sai ferido.

Se esse filme fosse feito por um jovem cineasta recém saído da faculdade, os professores, críticos e produtores possivelmente não veriam suas idiossincrasias como qualidade.

Mas o filme é escrito e dirigido por Jim Jarmusch, um dos cineastas mais cultuados da geração que transformou o cinema independente norte-americano em fonte de algumas das maiores preciosidades produzidas entre as décadas de 1970 e 1990. Jarmusch é talentoso em criar um mundo em si mesmo, como fez anos atrás com “Down by Law” (1986), “Dead Man” (1995) e “Amantes Eternos” (2013). Aqui ele constrói a trama como um poema, cada dia da semana é uma estrofe, uma ode à imaginação na banalidade da vida cotidiana.

Um espectador mais afeito ao lado prático da vida pode afirmar que os poemas de Paterson não servem para nada, mas eu defendo que eles podem ser úteis para uma coisa. Paterson passa seus dias escrevendo poemas cuja inspiração vem daquilo que ele observa no seu dia a dia, colocando uma lente nos acontecimentos mais mundanos, destacando-os, refletindo sobre eles (desde uma caixa de fósforos até os cabelos de uma mulher), Paterson mostra que a poesia pode estar em qualquer lugar, basta conseguir ver. E para ver é preciso estar inspirado.