Quatro histórias, um país

30 de julho de 2017

Um

Ninguém pode esquecer o relato que a professora Diva Guimarães deu durante a conferência de abertura da FLIP 2017. Intitulada ‘A pele que habito’, a mesa reuniu a jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques e o ator Lázaro Ramos, que está lançando o livro “Na minha pele” e falou sobre o racismo no Brasil, dizendo que não se trata de tema de interesse apenas dos negros, mas de pessoas de todas as etnias e elencou aspectos fundamentais para enfrentar situações de desigualdade causadas pelo racismo: uma família estruturada e acesso a educação.

Mas o momento inesquecível aconteceu após a sua fala, quando a professora Diva Guimarães, que estava na platéia, pediu o microfone e contou a sua história. Ela veio do interior do Paraná, foi neta de escravos e saiu muito cedo de sua cidade para estudar em Curitiba, onde começou a trabalhar desde os cinco anos de idade para poder viver. A professora falou sobre situações de preconceitos que enfrentou ao longo da vida por ser pobre e negra. “Eu fiquei muito emocionada que você chamou atenção de que estamos em uma plateia de maioria branca. Sou do Sul do Paraná, lá do interior. Sou uma brasileira que sobreviveu porque tive uma mãe que fez de tudo, passou por todas as humilhações, para que nós estudássemos”, disse. “Sou neta de escravos. Aparentemente a gente teve uma libertação que não existe até hoje. (…) E eu, com todo o preconceito, venci. Estudo até hoje. É porque eu quero, é para a minha cabeça, porque eu quero raciocinar, porque quero saber o que eu tô lendo, o que está acontecendo com o meu país, o que está acontecendo comigo.”

Dois

A passagem de Charles Darwin pelo Brasil pode ter sido muito mais importante para a Teoria da Evolução das Espécies do que é ensinado nos colégios. Muito se fala sobre as observações feitas pelo naturalista britânico nas Ilhas Galápagos e na Patagônia argentina, mas foi em solo brasileiro, há 185 anos, que ele se deparou pela primeira vez com a diversidade da floresta tropical e também se chocou com a escravidão — reforçando suas convicções abolicionistas de que todos os seres humanos compartilham a mesma linhagem sanguínea em razão da ancestralidade comum.

Segundo a Teoria da Evolução, todas as espécies evoluem a partir de mutações aleatórias e da seleção natural dos mais bem adaptados e o homem é ligado a todos os outros animais por descender de um ancestral comum ao dos macacos e, por isso, não poderia haver diferenciação entre raças.

No livro “Viagens de um naturalista ao redor do mundo”, Darwin dedica cerca de dez páginas a sua passagem por Salvador, aonde chegou em 29 de fevereiro de 1832. Foi na Bahia e no Rio que o naturalista se chocou com a escravidão: pontos tidos como cruciais para a elaboração de sua revolucionária teoria. Embora a estadia na capital baiana tenha sido curta, Darwin passeou pela cidade e chegou a observar um pouco da vida cultural e em suas anotações ele ressalta que todo o trabalho braçal era feito por negros, registra relatos de escravos e se refere aos ingleses preconceituosos como “selvagens polidos”.

Três

Na biblioteca municipal de Itápolis, um modesto município no Estado de São Paulo, os funcionários começaram a perceber que toda semana estava desaparecendo vários livros. Os próprios funcionários foram os primeiros suspeitos, mas a hipótese caiu pois os livros continuaram sumindo mesmo após serem obrigados a mostrar o que levavam na mochila na saída do trabalho. Eram tantos livros e com tanta velocidade que a direção resolveu instalar câmeras para flagrar os responsáveis pelos furtos. Quando foram ver as gravações ficaram surpresos ao descobrirem que apenas um garoto levava todos os livros. Flávio Fernando de Oliveira, de 18 anos, confessou que pegava dois livros emprestados e levava outros quatro escondidos na mochila. Quando os agentes policiais foram até a sua casa averiguar, encontraram montanhas de livros no quarto do jovem. Centenas de títulos provenientes das cinco bibliotecas da cidade. No total havia 384 livros, todos organizados e muito bem cuidados, um acervo acumulado através de um esquema e tanto dedicado à paixão pela literatura. Flávio disse que gostava mais de ler do que de sair pra rua, “Eu lia todos, sobre tudo”.

Quatro

No livro “Os Meus Romanos — Alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil” a autora Ina Von Binzer conta que veio parar no Brasil na década de 1880, onde se tornou cuidadora dos filhos de uma poderosa família de fazendeiros de café — a família Prado, que hoje batiza diversas ruas em São Paulo. Ela descreveu em seus textos observações curiosas sobre os nossos costumes, manias e rotinas. Ao relatar o pouco gosto dos brasileiros brancos pelo trabalho, ela foi profética: “Todo trabalho é realizado pelos negros, toda a riqueza é adquirida por mãos negras, porque o brasileiro não trabalha (…) gostaria de saber o que fará essa gente, quando for decretada a completa emancipação dos escravos.”

Um país

Essas quatro notícias se complementam e revelam as heranças históricas e as forças cruciais de um Brasil que eu vejo e quero ver crescer ao invés do Brasil tramado nos salões empertigados dos políticos.