Kamasi - Harmonia da Diferença

17 de janeiro de 2018

Com o tempo a gente vai se acostumando até com as sensações de se estar vivo, vamos passando por coisas que acontecem uma, duas, três vezes, e então não acontecem mais — não como antes. Para não ir muito longe, eu restrinjo: depois de assistir um punhado de filmes que julgamos excepcionais, o critério aumenta e vai ficando cada vez mais difícil encontrarmos o excepcional novamente. Acontece o mesmo na literatura, na música, teatro, etc.

O momento de espanto com a coisa de fora sendo revelada dentro da gente vai se tornando cada vez mais raro.

Como, por exemplo, o dia em que assisti “O Som ao Redor”, do Kléber Mendonça, e saí do cinema atordoado. No caminho de volta para casa pensei que estava perdido, não sabia para onde estava indo. Outro exemplo: quando eu era adolescente e passava as madrugas ouvindo “Terra” do Caetano Veloso, pensando que essa música estava cavando algo imenso dentro de mim. Ou quando vi uma tela imensa do Pollock na minha frente em um museu em Nova York. Como todo mundo, tinha visto dezenas de pinturas do Pollock em revistas, internet, mas a primeira vez que vi ao vivo em seu tamanho real eu mergulhei num espaço sem definição de tempo. Ou quando terminei de ler “Moby Dick”, do Melville, com a camisa molhada de suor da água do mar. Todas as vezes que escutei “Sinnerman” na voz da Nina Simone e eu pensava que se deus existe, deveria ser aquilo. Quando assisti a adaptação do romance "O Idiota" no teatro, dirigido pela Cibele Forjaz, uma peça de seis horas de duração que me fez sentir viajando em um trem transiberiano. Ou mais recentemente, quando vi, veja só, em um programa de televisão, Gil cantar “Não tenho medo da morte”, batucando no seu violão, e parecia estar simplesmente conversando com os que lhe assistiam, comigo, e até com quem não estava lá, cada frase dessa sua canção é uma sentença.

O que todos esses exemplos acima têm em comum é um certo espírito monumental.

Há um tempo não acontecia. Como eu disse, essas impressões vão ficando marcadas dentro da gente, se tornando pontos essenciais no mapa dos nossos gostos. Mas esses dias aconteceu de novo ao ouvir uma música do disco novo do Kamasi Washington. E não apenas a música mas também o clipe de "Truth".

Em tempos que não param de aparecer músicas que pretendem explicar o contemporâneo, ou desesperadamente revelar a experiência de viver no agora, empurrando clipes em nossa retina, eu sinto uma solidão pois nada disso que têm me oferecido eu quero. Claro, não se trata da qualidade dessas músicas, porque aí entraríamos no campo subjetivo da apreciação artística. Este texto tem, desde o início, a particularidade de quem escreve, portanto aqui falo do que me emociona, o que não garante que é melhor do que uma coisa ou outra, nem que vai emocionar qualquer outra pessoa. Mas é um fato que, na atual busca frenética por representatividade na qual o mundo está vivendo, pipoquem produtos artísticos com a pretensão de dar os caminhos — e, de vez em quando, as respostas. O que eu quis dizer é que nada do que tem me sido oferecido preenche o meu vazio.

O clipe de "Truth" têm 14 minutos, um garoto está em pé sozinho no meio da sala, depois ele joga água no seu rosto e a água escorre pelos seus dedos; uma moça olha para uma mulher mais velha, seus olhos brilham em admiração; dois homens lutam rodeados por pétalas de flores no chão; e assim vai uma sequência de imagens sob o ritmo da música ora suave, ora frenética, e às vezes caótica e cristalina ao mesmo tempo. É impossível dizer mais, pois seria necessário descrever as imagens e isso estragaria a experiência.

O que posso dizer é que passei os 14 minutos ouvindo e assistindo algo que esteticamente não reconheci de imediato, onde minha experiência não significava nada, logo, minhas expectativas não importavam, e fui mergulhando em um desses momentos de absorção típicos de certas artes, quando parecemos não conhecer o que está sendo mostrado até que no final temos uma epifania e pensamos "Claro! É isso!", que faz jus ao verso do Ferreira Gullar, "Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente."

No final do clipe eu estava emocionado, com a boca aberta e a mão na cabeça. Assim que acabou eu fiquei mudo, pois a música ainda ressoava dentro de mim. Em seguida coloquei tudo novamente e eu só pensava "quero colocar isso para assistir com meus amigos", "quero dançar essa música numa festa", "quero deitar no chão e ouvir essa música novamente", etc.

Então sentei no sofá, peguei caneta e papel e escrevo tudo isso há poucos minutos de ter tido esta experiência. Isto não é uma crítica à música e ao clipe, eu precisaria de mais tempo e mais páginas para poder fazer isso. Isto é uma impressão sobre o efeito que a arte pode causar, e que não é algo que se possa buscar, assim como não é possível buscar e encontrar o amor, assim objetivamente, como quem vai ao supermercado. É um fenômeno mais da ordem do acontecimento. Imprevisível e incontornável, estritamente pessoal e individual. Escrevo estas palavras na ineficaz tentativa de capturar o sentimento e transmiti-lo adiante.