Modus Operandi da Escrita

24 de outubro de 2019

Esses dias me caiu na retina o vídeo de 26 minutos do cartunista Saul Steinberg falando sobre sua rotina de trabalho:

“De manhã eu me levanto e vou trabalhar. É necessário trabalhar por algumas horas. Desenhar é meu jeito de explicar à mim mesmo o que está acontecendo na minha mente. Geralmente começo com uma ideia, depois é que vem a vontade, tenho tudo olhando para mim — papel, tinta, pincel — e algumas vezes começo desenhando no papel uma mão com uma caneta fazendo um desenho. Isso me dá tempo para pensar que desenho essa caneta está fazendo”.

O comentário de Steinberg me fez pensar que quando um artista explica o seu processo. parece sempre fácil e fascinante — inclusive para ele –, e quando ele explica o seu trabalho, parece complicado e tortuoso.

“Nesse momento estou tirando de mim a responsabilidade sobre o desenho. Eu penso que não sou eu que quero fazer esse desenho mas sim a mão que estou desenhando que quer. Dessa forma me dou a liberdade — eu posso sempre pôr a culpa na mão desenhada.”

O que acontece é que escrever é uma atividade física e não apenas mental. A forma como se executa a tarefa altera o produto realizado. Optar entre escrever à mão ou no computador acaba produzindo resultados diferentes. No computador você pode apagar a frase que foi digitada no exato momento do erro, enquanto que as palavras rabiscadas com caneta permanecem no papel e o escritor tem que avançar mesmo achando que não está bom.

Segundo uma pesquisa realizada na Noruega, a escrita manual “demanda mais esforço e concentração do cérebro, favorecendo o processo de aprendizagem.” Como os tempos atuais exigem agilidade e dinamismo, é muito raro encontrar alguém que não escreva no teclado. Geralmente as pessoas usam cadernos para anotações e o computador para textos mais longos. O termo transcription fluency quer dizer que “quando seus dedos não podem se mover tão rápido quanto seus pensamentos, suas ideias sofrem”, ou seja, quanto mais rápido se escreve, melhor o texto fica.

Discordo um pouco dessa afirmação. A escrita manual demanda mais esforço e concentração do cérebro, favorecendo o processo de aprendizagem. Escrever devagar pode ser ótimo à medida em que forçar o cérebro a pensar mais lentamente pode gerar ótimos resultados. Truman Capote escrevia sempre à mão e deitado no sofá. J. K. Rowling também escreve à mão (e de preferência em viagens de trem). E a escritora Lynda Barry escreve os primeiros rascunhos de seus livros muito lentamente com um pincel.

Eu gosto de alternar os processos. Ter um computador com internet às vezes atrapalha, por isso gosto de começar uma ideia escrevendo em cadernos. Posso passar horas rabiscando páginas e páginas sem me distrair com e-mails ou tweets. Uma folha em branco e uma caneta. Aproveito para revisar o texto na hora de transcrevê-lo para o computador. Desde os meus 14 anos, quando tomei gosto por escrever, carrego sempre comigo um caderno para qualquer lugar que vou. Já me acostumei tanto que quando esqueço e saio sem o caderno, é como se não estivesse levando a chave de casa. Posso não escrever nem desenhar uma linha, mas preciso saber que ele está comigo para qualquer necessidade. Hoje em dia existem vários aplicativos para celular que permitem salvar as notas na nuvem facilitando a sincronização, mas um caderno não serve apenas para esboçar ideias, anotar pensamentos. Para o escritor, um caderno é como a sala de ensaio do ator, ou o estúdio do músico. Ou seja, o caderno é a materialização do processo criativo, e, quando preenchido, se torna um livro único e revelador da cabeça do artista.

Mais importante que isso é, seja qual for o meio, é preciso acordar e trabalhar todos os dias. Mesmo que não saia bom, que não seja o imaginado, pode-se sempre jogar a responsabilidade em outra coisa, como a mão de Steinberg.