O Bom Leitor

04 de novembro de 2019

O Senhor Tavares

Nasceu em Luanda, em 1970, Gonçalo M. Tavares. Aos três anos foi morar na cidade de Aveiro, Portugal, e em seguida em Lisboa. Filho de uma mãe matemática e pai engenheiro, recebeu uma educação baseada em problemas e soluções práticos, mas decidiu seguir um caminho um pouco menos exato. Formou-se em Educação Física e chegou a ser jogador júnior de futebol pelo time Beira Mar.

Durante a adolescência e a primeira fase adulta, Gonçalo sentava-se em cafeterias de Lisboa, pedia um café, abria um livro e lia por horas. Muitas vezes pegava seu caderno e fazia anotações. Assim, escreveu todos os dias durante doze anos. Concorreu à uma bolsa de Criação Literária do Ministério da Cultura e passou, tendo que desenvolver um livro de poesia no final do ano. Resultado: em 2001, aos 31 e anos, publicou sua primeira obra, “Livro da dança.”

De lá pra cá, em 18 anos, publicou 39 livros. Como pode? Como conseguiu escrever tanto? Gonçalo parece possuir fôlego de maratonista, mas ao descrever seu processo demonstra que treino é treino e jogo é jogo. Quando publicou seu primeiro livro, já tinha em seus cadernos e arquivos no computador uma porção de esboços e livros quase prontos. Seu singular “método”, como ele mesmo se refere, envolve acumular o máximo de “matéria bruta” em disciplinadas sessões diárias de escrita para, anos depois, recuperado do distanciamento das palavras, dar forma final aos volumes.

Seus livros deram origem a peças de teatro, artes plásticas, vídeos de arte, ópera, etc. Estão em curso cerca de 220 traduções distribuídas por quarenta e cinco países. O romance “Jerusalém” foi incluído na edição europeia de “1001 livros para ler antes de morrer — um guia cronológico dos mais importantes romances de todos os tempos.


A Princesa de Gelo

Nasceu em Fjällbacka, em 1974, Camilla Läckberg. Para te poupar de dar um google, Fjällbacka fica na Suécia, situada na província histórica de Bohuslän. Complicou mais ainda? Bom, para ter uma ideia visual, basta saber que a cidade tem cerca de 859 habitantes. Essa cidade é mais conhecida por outra coisa, graças à Camilla, e isso explico logo mais.

Para cursar o ensino superior, Camilla se mudou para Gotemburgo onde estudou na Universidade de Economia. Após se formar, mudou-se para Estocolmo, empregada como economista por vários anos. Até o dia em que tudo mudou. Noite de Natal de 1999, seu então marido lhe deu de presente um curso de escrita criativa chamado “Como Escrever Um Romance Policial”. Camilla confessa que sempre tinha desejado escrever mas achava que não era possível sobreviver disso. A motivação gerada pelo curso fez com que Camilla começasse a escrever o manuscrito que veio a ser o seu primeiro livro, “A Princesa de Gelo”, publicado em 2003, quando ela tinha 29 anos.

“A Princesa de Gelo” foi considerado o melhor policial publicado na França. Camilla foi considerada a escritora sueca do ano em 2004 e 2005, e os seus quatro primeiros livros atingiram o primeiro lugar no top de vendas da Suécia. Publicou 12 livros dessa série policial. Foi a sexta autora mais lida na Europa em 2009, e a partir daí manteve-se nos tops internacionais. Os seus livros estão publicados em 55 países, com uma tiragem superior a 18 milhões de cópias. Tornou-se conhecida como a Rainha Europeia do Crime e como a nova Agatha Christie.

Ah, claro. Camilla trouxe notoriedade para a pequena cidade onde nasceu. Não apenas por ser uma autora bem sucedida. Os enredos dos seus romances policiais são passados na pequena cidade de Fjällbacka.


A Pergunta

Em2018, Gonçalo e Camilla participaram de um debate na Feira do Livro de Guadalajara. Até o momento eles nunca tinham se conhecido pessoalmente e estavam ambos ali se perguntando que assunto os conectavam. A mesa era sobre Literatura Europeia Contemporânea e, acredito eu, os organizadores quiseram expor a diversidade da produção literária atual em dois dos melhores exemplos atuais.

Chegando ao final da conversa, o mediador perguntou o que eles recomendariam como leitura para os jovens estudantes da rede pública que formavam a maioria da plateia. A escritora sueca respondeu que desde pequena lia de tudo, da Ilíada a Sidney Sheldon, e que um bom leitor não deve ter preconceitos e ler desde os clássicos até os livros mais descartáveis. A resposta foi aplaudida efusivamente pelo auditório. O escritor português respondeu que sempre se espanta quando encontra alguém que lê livros ruins, já que um dia todos vamos morrer, por que gastar tempo lendo livros ruins? Assim, se há tantos livros bons para ler e uma pessoa escolhe ler livros ruins, ela se comporta como se fosse imortal. “Então, quando conheço uma pessoa que lê livros ruins, tenho vontade de dizer: muito prazer, é a primeira vez que encontro um imortal”, disse ele ao concluir sua fala, produzindo um silêncio perplexo na plateia.


Livro bom é aquele que você gosta de ler

Gosto muito da literatura do Gonçalo, e nunca li nenhum livro da Camilla. Não sou um grande fã de romances policiais e admito que me dá certa preguiça pensar que um livro se desenvolve em uma série de outros tantos. Mas não julgo literatura de gênero como uma literatura menor. O pouco que consumi de literatura policial, me diverti demais e tenho lembranças afetivas e alegres de quando os lia. O prazer que extraio da leitura está na descoberta de novas ideias, nas proposições de pensamentos, em adquirir conhecimento. Alguns textos do Gonçalo me oferecem isso. Inclusive, gosto de suas entrevistas, especialmente quando fala sobre o ofício do escritor.

Admiro Gonçalo mas discordo dele na resposta sobre livros bons e livros ruins.

Embora seja bonita e impactante, há um problema na frase do escritor português. O que é um livro ruim? O que é um livro bom? Quem define isso? O senso comum tocará na oposição entre os livros clássicos e best-sellers, sendo o primeiro considerado com um valor de prestígio em detrimento do segundo. Seria como comparar Lolita e Cinquenta Tons de Cinza, por exemplo. Mas seria uma tolice fazer isso. Porque, com a exceção de terem uma ligeira semelhança no assunto, são obras bastante diferentes. Foram escritos em épocas diferentes, por autores de regiões diferentes e têm propósitos diferentes. Por isso, sim, é provável que, para algumas pessoas, o segundo livro agrade mais do que o primeiro.

A qualidade dos autores clássicos pode ser inquestionável, o que não determina que suas obras agradem todos os leitores. Há vários tipos de livros que podem ser interessantes para cada um. O livro bom é aquele que pega o leitor e estabelece uma relação com ele, o prende na trama, e sem que ele perceba, já está abduzido, vai para o trabalho e fica ansioso para saber o que vai acontecer, e gruda no livro até dormir — ou não dormir. O livro bom está nos olhos de quem lê.

Desconfiarei sempre de quem acredita ter um gosto apurado e por isso se acha capaz de dizer aos outros aquilo que eles realmente devem gostar. Sobretudo em arte. A apreciação de arte depende muito de questões subjetivas. Quando se trata de leitura, principalmente. Pois ler é um ato solitário, que toma tempo, concentração e bagagem intelectual — coisas raras hoje em dia. Nem todo leitor enxerga os mesmos “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” de Capitu.


***


Amigos costumam me pedir indicações de livros. Jamais indicaria Ulisses para todo mundo. Não acho que todos devam ler um livro só porque ele é considerado um clássico. Eu não consegui terminar a leitura de Ulisses e não sei se o farei — não me importo, não me sinto perdendo. Porque sei o que quero e quando quero ler, o que devo considerar fundamental para mim. Não se deve ter pena de deixar um livro de lado. Um amigo começou a ler “On The Road” depois que indiquei para ele com euforia. Semanas depois me devolveu o livro. Perguntei se ele tinha gostado, ele disse que sim. Perguntei o que ele tinha achado do final, ele respondeu que não chegou ao final do livro. “Parei ali pelo meio. Achei que ali já era o bastante para mim, já tinha me servido e determinei que era assim que o livro terminava.” Sua resposta brilhou meus olhos. Me encantei pelo seu desprendimento e não pude deixar de concordar. Mas é claro, afinal, é o leitor também um co-autor do livro, e ele pode ter autonomia para decidir como quer ler.

Portanto, a minha resposta à questão do mediador na Feira de Guadalajara seria uma combinação da resposta do Gonçalo com a da Camilla. Só devemos mesmo ler os livros bons, mas o critério de qualidade é julgado por cada leitor. Temos que ter um leque amplo de leituras, desejar ler de tudo. Assim que a leitura começar, se engatar, se achar bom, que continue, se achar ruim, largue o livro e busque outra coisa. Afinal, a vida é curta.

E essa ideia não é original. “Não deveríamos ler mais do que os livros que nos dão coceira e nos mordem. Se o livro que lemos não nos desperta com um soco no crânio, para que continuar?”. Isso foi dito por Kafka, autor de obras que muitos deixaram pela metade.


Da voz ao silêncio

A forma como lemos hoje é muito diferente de como se lia nos séculos passados. Ler em voz alta era uma forma de sociabilidade comum, lia-se em voz alta nos salões, nas sociedades literárias, em casa, nos saraus e nos cafés. O hábito da leitura introspectiva começou a surgir após a invenção da prensa móvel, que revolucionou as técnicas de impressão e possibilitou um aumento da produção de materiais diversos e mais acessíveis. Houve também um crescimento no número de alfabetizados na Europa, na época da Revolução Industrial. Logo mais surgiram os gêneros literários, como os romances, voltados para o lazer, e mudanças na formatação do próprio texto como o espaçamento entre as palavras e a pontuação. Óbvio que a mudança de uma prática de leitura coletiva para a leitura individual mudou não apenas a forma como as pessoas liam mas também como o texto era escrito e como era absorvido.

“Imagino que, a partir do aburguesamento da sociedade ocidental, fortaleceu-se a tendência à individualização”, disse Marisa Lajolo, professora das universidades Mackenzie e Unicamp, em entrevista ao jornal Nexo. “Talvez se possa estabelecer correspondência entre a individualização da leitura e o (simulado) derramamento confessional do Romantismo.”

Por aqui, no Brasil, o processo de transição da leitura em voz alta e em grupo para a leitura silenciosa e individual é análogo ao europeu, só que temporalmente posterior. Só a partir do século 19, com a chegada da família real portuguesa, fomos ter mais impressos circulando e uma imprensa atuante. Essa transição esbarrou em nosso deficiente processo de alfabetização, restringindo a leitura a um hábito de elite. “Só pode haver leitores onde há alfabetização. E a alfabetização, no Brasil, demorou muito a se universalizar, se é que universalizou-se”, explicou Marisa Lajolo. “José de Alencar lia para as mulheres de sua família, enquanto elas costuravam. Havia também gente na estação de trem de São Paulo esperando a chegada de livros do Visconde de Taunay, mas era sempre gente ‘do andar de cima’”, disse.

Até o século 19, romances eram vistos como um sério perigo para a moral, principalmente das mulheres e moças. “As pessoas copiavam e compartilhavam seus poemas favoritos, liam diálogos de romances populares, fragmentos emocionantes ou cômicos de peças, emprestavam umas para as outras volumes de sermões e os discutiam depois. (…) Investiam em sofás em suas bibliotecas ou colocavam estantes ao redor da lareira para permitir o prazer sociável dos livros.”

Muitas vezes a leitura era considerada uma atividade perigosa. Dizia-se que o leitor poderia recair no pecado do ócio, e supunha-se que os romances levavam ao contato com cenas reprováveis, estimulando a identificação com personagens envolvidos em situações pecaminosas como mentiras, paixões ilícitas e crimes. Nesse sentido, a tendência à leitura coletiva preveniria o teor subversivo de textos críticos às instituições políticas e religiosas, assim como também os desvios eróticos de uma leitora feminina solitária debruçada em livros que passaram a circular mais livremente com a disseminação da leitura individual.


Leitura ativa

Quando lemos, vemos letras pretas numa superfície branca e lisa ou, cada vez mais, pixels escuros sobre uma tela clara. Para transformar esses símbolos em personagens, lugares e cenas, nós precisamos imaginar. Quando imaginamos, damos vida ao livro. É ao ser lido que um livro se torna um livro, e em cada uma das milhões de leituras diferentes, um livro se torna um entre milhões de livros diferentes.

Há duas formas de se relacionar com o saber contido num texto: depende sempre de nós decidirmos se o livro é um guia ou uma tela. O livro como guia é como os crentes lêem a Bíblia. O exemplo pode ser aplicado também à outros possíveis leitores de Olavo de Carvalho à Karl Marx. Talvez essa seja uma condição que defina um leitor obediente, um leitor bonzinho. Ele crê no que está lendo, absorve como está escrito, e se não gosta do que lê, se irrita, deixando o livro de lado e descartando o autor. Do contrário, considerar o livro como tela nos permite ressignificar o conteúdo a partir dos nossos conhecimentos. O livro é um pretexto e um pré-texto, pois o que importa são as discussões presentes na cabeça durante e depois da leitura. Quem é o autor e qual a sua opinião deve importar menos do que o que fazemos com o que está escrito. Afinal, a experiência pessoal associada à leitura de um texto acaba organizando, se não um saber, pelo menos aquilo que constitui o núcleo do que se ignora.

Considerado subversivo na época em que foi publicado (de certo modo ainda é), o ensaio “A Morte do Autor”, de Roland Barthes, propõe a ideia de que uma obra literária é sempre dependente do leitor, pois, para que o texto realize o seu devir é preciso que o nascimento do leitor provoque a morte do autor. “Um texto é feito de escritas múltiplas, saídas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação; mas há um lugar em que essa multiplicidade se reúne, e esse lugar não é o autor, como se tem dito até aqui, é o leitor: o leitor é o espaço exato em que se inscrevem (…) todas as citações de que uma escrita é feita; a unidade de um texto não está na sua origem, mas no seu destino.”

Para desenvolver este ensaio, Barthes partiu da poesia de Stéphane Mallarmé. Mallarmé inscreveu que é a linguagem que fala, não o autor. Para ele, escrever é atingir o ponto em que só a linguagem atua e não um criador. Todo o seu trabalho como poeta consistiu em suprimir o autor em proveito da escrita (que é ceder o seu lugar ao leitor).

Cada texto será sempre lido por um leitor que somará à leitura suas vivências, seu preconceitos, seus traumas, projetando no conteúdo os seus significados e interpretando suas passagens de acordo com as suas experiências. Assim, a potência da leitura acontece em um espaço virtual, uma dimensão fora do texto onde se encontram as intenções do autor e as percepções do leitor. É aí que o texto passa a ser de quem o lê.

Roubo de Georges Bataille a conotação que ele deu para o Mal na sua clássica coletânea crítica “A Literatura e o Mal”. Aqui o Mal é relacionado à vontade humana, uma vez que o mal é condição de possibilidade da ação livre do qual toda a vida regrada pode torna-se possível. O mal insere-se assim como a quebra de uma ordem quase sempre imperfeita. Seguindo este raciocínio, o bom leitor não é um leitor bonzinho, mas sim um leitor mau.

Portanto, o que é um bom leitor senão alguém disposto a lidar com a estranheza e o desconforto e que parte do princípio de que o texto lhe reserva prazeres e sentidos ocultos que se revelarão parcialmente e aos poucos?

Quando você compra um livro, você estabelece uma relação de posse com ele, assim como você faz com roupas ou sapatos ou etc. Entretanto, no caso do livro, o ato de compra é na verdade apenas o prelúdio da posse. A apropriação plena de um livro só vem quando você o torna parte de si mesmo, e a melhor maneira de se fazer parte dele é lendo. O bom leitor se apossa do livro.

A leitura é uma atividade ativa, é pensar com duas cabeças (no mínimo). Ler um livro deve ser uma conversa entre o leitor e o autor. A compreensão é uma operação de mão dupla. O bom leitor se questiona e questiona o autor.

Ler diminui a nossa sensação de isolamento. Livros aprofundam e ampliam e expandem nossas vidas. Quando lemos um texto que nos faz sorrir, ou até mesmo rir de nós mesmos ou da vida, nos sentimos menos sós. O bom leitor nunca está sozinho.