O que eu tenho que rir com isso?

11 de outubro de 2019

Em meados de 2015 Charly Clive começou a se sentir um pouco fraca. Não doente, mas estranha. Com certa frequência sentia-se cansada durante suas atividades rotineiras. Ela estava terminando o curso de teatro e trabalhava como babá nas horas vagas quando percebeu um ponto cego em sua visão periférica. Preocupada, Charly foi ao oftalmologista relatar o problema. O médico pediu um exame de ressonância e o resultado revelou seu diagnóstico. Ela tinha vinte e três anos quando soube que estava com um tumor cerebral do tamanho de uma bola de golfe.

Cientificamente falando, Charly estava com um adenoma na hipófise, glândula localizada na base do cérebro. Era um tumor relativamente grande, porém, benigno. “Eu não me sentia doente”, disse ela em entrevista ao The Guardian. “Eu estava bem. Exceto que durante todo o ano me senti entorpecida. Mais sarcástica do que o habitual. Bastante cínica e pessimista ao invés do meu otimismo irritante de sempre. Acontece que, como o tumor estava na minha glândula pituitária, eu não conseguia regular a emoção. Não contei nenhuma piada em 2015.”

Controlar as emoções já é uma coisa difícil de se fazer, você deve saber, imagina agora com um impedimento químico e concreto. Imagina controlar a emoção ao receber uma notícia de uma doença como essa.

Informada de que seria melhor tirar o tumor o mais rápido possível, marcou a cirurgia para o próximo mês. Assim teve tempo para finalizar seus compromissos e se preparar para o procedimento, seja lá o que for se “preparar” para uma cirurgia no miolo do cérebro.

Charly morava com seus pais em Londres. Sua melhor amiga, a também atriz Ellen Robertson, se mudou para a sua casa para lhe fazer companhia nesses dias nebulosos. As duas passaram o tempo todo tendo ideias de esquetes de teatro. “E se em vez de um tumor, eu tivesse ido ao médico e ele me dissesse que havia uma pequena vila vivendo em minha glândula pituitária?” Charly anotava num caderno. Esse processo foi importante para que ela conseguisse se acalmar. Grande parte da aflição havia sido transmutada em arte. Aliás, está aí algo de que os artistas sabem que são capazes, transformar suas dores em obra.

Mas enfim havia chegado o momento em que os cirurgiões sabem de que são capazes. Charly entrou na sala de operação enquanto seus pais e sua melhor amiga aguardavam o resultado na sala de espera. Após algumas horas, o médico chefe foi ao encontro deles e anunciou que a cirurgia havia sido um sucesso. Quando acordou na UTI após a cirurgia, Charly chamou a enfermeira e perguntou “Cadê Britney?” A enfermeira pensou que ela estivesse se referindo à Ellen. Então ela explicou “Não, Britney é o nome do meu tumor.”


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Durante as semanas que passou internada no hospital em recuperação, Charly e Ellen continuaram escrevendo sobre a experiência pela qual estavam passando. “Escrevemos sobre todos os médicos e enfermeiros, minha família e amigos, escrevemos sobre as coisas que fizemos para passar o tempo evitando falar sobre o elefante branco na sala.”

Tumor. Taí uma palavra que já vem carregada de peso. Há palavras que vêm assim, acompanhadas de prejulgamentos, capazes de provocar silêncio em uma sala, de mudar a temperatura do corpo, arrepiar os pêlos da nuca, fazer as pálpebras se encherem de lágrimas. Às vezes é melhor chamar as coisas pelo nome que elas têm, noutras vezes vale a pena transformá-las em algo mais pessoal, a fim de se relacionar melhor com a coisa em si. Chamar o tumor de Britney foi a forma que as duas encontraram para tornar a experiência mais palatável e se distanciar de sua carga para que pudessem escrever sobre.

Mas é possível transformar um tumor em humor?

“Escrevemos a história de Britney da maneira que gostaríamos que nos contassem: através da comédia.” Segundo Charly, elas nunca tiveram dúvidas sobre o gênero da peça: “Britney desde o início surgiu como comédia. Não tínhamos dúvidas. Uma peça sobre um tumor cerebral que não seja engraçada? Você tá louca?”

Após algumas semanas já tinham uma primeira versão do texto puseram o título de “Britney — uma história com muito coração e… um tumor cerebral.” Quando perguntavam elas respondiam que era uma peça curta para duas atrizes, uma comédia sombria inspirada na experiência de Charly e o seu tumor.

“Seria mais fácil escrever algo melodramático sobre tudo isso, contando como enfrentar e superar tudo”, Charly explica, “mas sou inglesa, por isso foi mais natural criar algumas piadas sombrias sobre o assunto e a partir daí decidimos que o melhor caminho a seguir seria rir.”

Pegar um assunto sério e transformá-lo em uma comédia não é uma tarefa fácil, mas é exatamente isso que Charly Clive e Ellen Robertson fizeram. Talvez elas estejam certas, o riso pode não ser o melhor remédio, medicinalmente falando, mas certamente é uma parte importante em um processo de cura. A gargalhada pode ser a afirmação da vida.

Esse é o sentido alegre da dor sobre o que Nietzsche escreveu. A dor, para Nietzsche, não é uma experiência necessariamente ruim. Pelo contrário, a dor pode ser libertadora e uma via de transformação para a alegria. A dor e alegria não podem ser separadas uma da outra. Logo, se o riso é o desfecho de toda dor, então rir na dor é ter consciência deste desfecho, é antecipá-lo. A gargalhada é o reconhecimento da condição trágica da vida. Já o melodrama está mais para a neurose de Freud. O drama é resultado da vontade de não sentir e de não passar pela dor — que é como não querer passar pela vida. Sentimos dor porque estamos vivos.


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No Hospital Memorial São José em Recife, Flávio José, paciente em tratamento de câncer, recebeu de surpresa a visita do seu cachorro. O encontro foi um desejo expressado por ele dias antes, quando disse que estava com saudades do animal. O seu médico, Danilo Tancredi, afirmou que Flávio apresentou progressiva melhora após a visita do cachorro. “A gente notou visivelmente no outro dia a melhora de Flávio, e ele vem melhorando a cada dia”, disse o médico, afirmando que estava avaliando a possibilidade de dar alta a Flávio. A visita é parte do projeto chamado “O que importa para você?”, destinado a pacientes internados por longos períodos. Segundo o hospital, até casamento já foi realizado por lá como forma de atender os desejos dos pacientes.

A alegria, o riso, o sorriso, a felicidade têm propriedades curativas.

Quando Charly e Ellen começaram a ensaiar o texto (“Fazíamos todos os personagens, inclusive o tumor”), seu pai sugeriu que o levassem ao famoso festival de esquetes de Edimburgo. A intuição paterna deu certo e a peça foi aprovada e selecionada. “Britney” estreou em 2016 no Festival Fringe de Edimburgo e recebeu muitas críticas positivas:

“Eu nunca fiquei tão emocionada com uma performance do Fringe antes. ‘Britney’ me tocou como nenhuma comédia me tocou antes”, escreveu o crítico Edin Braw.

“O que parece ser uma ideia muito arriscada é realizado com níveis incríveis de inteligência e genialidade “, publicou o Young Theater.

“Eu amei ‘Britney’. Comovente, engraçado, maravilhosamente realizado e tremendamente bem escrito. Elas são honestamente brilhantes e devem ter sua própria série de TV”, escreveu o dramaturgo Mike Bartlett.

O espetáculo seguiu seu rumo, participou de outros festivais na Inglaterra e em seguida as garotas cruzaram o oceano e entraram em cartaz em teatros dos Estados Unidos.


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De um momento turbulento, trágico e difícil da sua vida, Charly Clive concebeu um produto admirável.

Toda essa história traz dentro dela uma perguntinha. Será que estamos fazendo bom uso das dores que nos acontecem, será que estamos à altura das nossas tristezas? A verdade é que nos tornamos todos muito melindrosos, qualquer dor partimos logo para a anestesia. É assim que somos educados. Queremos fugir da dor, mandar a tristeza embora e para isso usamos antidepressivos, bebidas, redes sociais, festas, remédios para dormir, uma cartilha variada de entorpecentes. Nos tornamos especialistas em produzir entorpecentes de todos os tipos. Mas o que essa história propõe é que no fundo toda dor é também uma oportunidade. A dor está nos dizendo algo, enquanto não a olharmos com outros olhos, nada será produzido de diferente.

Por pior que seja a situação, tem algo que está sempre em nossas mãos: o que podemos fazer com as coisas que nos acontecem. Daí que uma proposta para isso é alcançar o humor, pois chegar ao humor é encontrar o sentido alegre da dor.

Viver a tristeza e não querer somente que a tristeza seja algo que deva ser escondida, varrida, eliminada. Descobrir em toda tristeza, em todo sofrimento, em toda dor, a sua/nossa força.

Parece ser isso que podemos aprender com Charly Clive e Ellen Robertson. E com Britney, que é o motivo disso tudo.


Charly e Ellen no hospital