Retrato de Jean-Baptiste Faure no papel de Hamlet pelo pincel de Édouard Manet

10 de setembro de 2019

Nascido em 1830, Jean-Baptiste Faure teve uma brilhante carreira como ator de ópera interpretando magistralmente personagens importantes. Ele ficou marcado pelo papel de Hamlet, que apresentou pelo menos 58 vezes no ano de 1868, e mais de 100 vezes no total. Seu talento como cantor, a forte presença cênica e a qualidade dramática o tornaram famoso e apreciado por toda a França.

Faure era também um grande colecionador de artes e mecenas de artistas como Édouard Manet, Giuseppe Bodini e Claude Monet. Ele possuía em torno de 70 telas de Manet e 62 trabalhos de Monet, além de pinturas de Degas, Sisley, Pissarro, Ingres, que ele guardava em sua casa de veraneio na região de Étreat — cujos famosos penhascos ele pediu para Monet pintar umas 40 vezes.

Para celebrar a sua carreira no ano da sua aposentadoria dos palcos, Faure encomendou à Manet um retrato de corpo inteiro em seu prestigiado papel de Hamlet. Manet escolheu retratar o ator no segundo ato, durante a cena da loucura, quando o fantasma do pai aparece para o protagonista. Para isso foram necessárias 40 sessões.


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Édouard Manet foi um pintor e artista gráfico francês e uma das figuras mais importantes da arte do século XIX, considerado por estudiosos como um dos mais importantes representantes do impressionismo francês.

Nascido em uma família rica com forte presença política na França, seu futuro estava sendo preparado pelo seu pai, Auguste Manet, um famoso juiz que esperava que seu filho seguisse a sua carreira. Mas Édouard não estava interessado nas discussões jurídicas e desde jovem preferia a companhia do seu tio, irmão da mãe, Edmond Fournier, que regularmente o levava para ver as exposições no Louvre e lhe encorajava a ser um artista.

No entanto, ainda jovem, obedeceu às sugestões do pai de que ingressasse na Escola Naval, e aos 16 anos embarcou em um veleiro de treinamento rumo ao Rio de Janeiro. Os historiadores da arte acreditam que as luzes sobre a Baía de Guanabara e as densa floresta nos morros cariocas foram uma revelação imagética para que anos depois Manet criasse uma nova estética de pintura.

A vida como marinheiro não deu certo. Manet perdeu, por duas vezes consecutivas, no teste para entrar na Marinha, e, por fim, seu pai cedeu aos seus desejos de estudar arte. De 1850 até 1856, Manet estudou pintura com o conceituado professor Thomas Couture, e passava a maior parte do seu tempo copiando as grandes telas do Louvre como exercício para se aperfeiçoar.

Em 1856 ele se profissionalizou e montou seu primeiro ateliê, se dedicando a pintar quadros que seguiam os padrões da época. Levou 8 anos para que as luzes do Rio de Janeiro encontrassem um caminho entre a sua cabeça e a tela, e utilizando pinceladas soltas para capturar a luz e o movimento, se concentrou em pintar os pontos que os objetos adquirem ao refletir a luz do corpo, trabalhando nos tons das sombras luminosas e coloridas, tentando congelar a impressão visual que uma cena nos causa quando é vista em todo o seu arrebatamento.

Os quadros surgidos nessa época geraram grande controvérsia. Manet era criticado não apenas pelos temas, mas também por sua técnica, que escapava às convenções acadêmicas. Entretanto, serviram como ponto de partida para um pouco mais tarde jovens pintores romperem com as regras das pinturas vigentes e criarem o impressionismo. A partir de então a descoberta levou Manet a se desinteressar pelas temáticas nobres ou pelo retrato fiel da realidade, e passou a ver o quadro como uma obra em si mesma. Hoje esses quadros são considerados um marco no início da arte moderna.


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No retrato que Manet fez de Jean-Baptiste Faure no papel de Hamlet, ele foi acusado de não ter dado espessura nem vida ao quadro. Manet fez vários estudos se dedicando à relação entre figura e espaço, inclusive do ator em relação ao fundo, do qual o personagem parece surgir como em um sonho.

Faure disse não ter gostado do resultado, estava preocupado com o que os intelectuais iriam dizer de um quadro que não respeitava o sofisticação realista da época, e pagou para que o pintor italiano Giuseppe Boldini pintasse um retrato com a mesma ideia e em seguida, satisfeito, mostrou a nova versão à Manet. Mas Manet se recusou a mudar qualquer traço pois tinha gostado do estilo que tinha encontrado — ele chegou a escrever uma carta para seu amigo Antonin Proust, desabafando “É difícil imaginar o quão árduo é colocar uma única figura numa tela e manter o interesse nesta figura na medida em que essa pessoa ainda está viva e em carne.”

Jean-Baptiste Faure morreu aos 84 anos, de causas naturais, no ano de 1914 em Paris, durante o início da Primeira Guerra Mundial. Ele se recusou a comprar o quadro.

Édouard Manet não chegou a ver seu modelo deixar a carne e a vida, pois morreu anos antes. Ele contraiu sífilis, o que lhe causou muitas dores e paralisia parcial. Em 1883, teve a perna esquerda amputada devido a gangrena e morreu poucos dias depois. Ele tinha 51 anos.

O quadro Jean-Baptiste Faure as Hamlet faz parte do acervo do Museu Folkwang, em Essen, Alemanha.