Você está acordado?

05 de agosto de 2019

Há um debate antigo no mundo da arte sobre a criação de obras engajadas, se são importantes, se resistem ao tempo, se são eficientes em suas proposições. Embora temos casos emblemáticos que comprovam sua relevância — Bob Dylan, Chico Buarque, Nina Simone, só para citar alguns — há quem acredite que a arte engajada é ingênua, e que não é arte, pois se preocupa em entregar respostas ao invés de propor perguntas. Atualmente este debate voltou com força graças aos acontecimentos recentes como o cancelamento da exposição sobre diversidade sexual e a censura ao show que Caetano Veloso faria na ocupação do MTST.

Estamos em novembro de 2017 e um amigo — que considero um ótimo escritor e que tem muito interesse por política e sociedade — me conta que tem pensado em ir embora do Brasil. Não há uma semana sequer que ele não sinta um frio na espinha ao ler as notícias. Não é preciso nem ler os jornais, basta entrar nas redes sociais, conversar com o porteiro, com o colega do trabalho, com um parente, para se ter a medida do desespero. Os tempos estão difíceis e não é raro encontrar as pessoas desanimadas, pessimistas e melancólicas. Ele não é o primeiro amigo a me compartilhar uma vontade de fuga, alguns já se mudaram para outros estados e para fora do país com o intuito de buscarem alternativas para o declínio.

A dramaturga americana Suzan-Lori Parks escreveu uma peça por dia durante os 100 primeiros dias de governo do presidente Donald Trump. Os textos serão publicados no livro com o título “100 Plays for the First Hundred Days.” Com 54 anos, Suzan-Lori Parks é uma das mais inovadoras e ambiciosas dramaturgas contemporâneas dos EUA. Integrante da Signature Theatre — uma companhia teatral formada apenas por dramaturgos — Suzan-Lori recebeu inúmeros prêmios e indicações por suas peças, ganhou em 2004 o Prêmio Pulitzer, publicou um romance, é vocalista e guitarrista da banda Sule and The Noise, e já escreveu roteiros para Spike Lee, Denzel Washington, Jodie Foster, Brad Pitt e Oprah Winfrey. Em 2008 ela assumiu a cadeira de Master Writer no Public Theater. Vez ou outra dá aulas de dramaturgia na Tisch School of the Arts, em Nova York, onde mora.

Mesmo que você nunca tenha ouvido falar de Suzan-Lori Parks, o parágrafo acima pode pelo menos lhe dar a correta impressão de que ela escreve muito e escreve rápido. Em 2002 ela escreveu uma peça por dia ao longo de um ano. Publicados no livro “365 Days/365 Plays”, os textos foram encenados em mais de 700 lugares em 2006.

Recentemente, provocada pela política republicana de Trump, Suzan-Lori encarou o clima de incertezas, confusão e caos e, retomando o processo, escreveu uma peça por dia como resposta aos eventos polêmicos ocorridos nos cem primeiros dias de governo do presidente. Embora desta vez ela tenha escrito por um tempo muito menor, não quer dizer que o desafio tenha sido mais fácil.

“Foi difícil escrever. Era muito difícil acordar todas as manhãs e ver as notícias e dizer para mim mesma que eu tinha que digerir tudo aquilo para o projeto. Foi difícil. Mas é o que fazemos como artistas”, ela disse em uma entrevista para a revista American Theatre. “O que eu quero dizer é que nós temos um trabalho a fazer. Nós podemos apontar o dedo para Trump para sempre, mas se não fizermos nosso trabalho, continuaremos perdidos. E é aí que o trabalho precisa ser feito.”

Quando solicitada para ser mais precisa sobre que tipo trabalho precisa ser feito, Suzan respondeu “Tanto faz. O trabalho de estar acordada. Eu não sabia o que poderia fazer então eu fiz o que eu sei fazer: eu escrevi. Para dar testemunho. Você pode ranger os dentes, discursar, protestar, gritar… Eu fiz um monte de coisas — fui à marchas, protestos, manifestações, todo tipo de coisas. Mas eu também queria escrever algo.”

Ela não acordava com as ideias prontas para serem escritas no papel. Todo dia se colocava no desafio de ter que inventar algo completamente novo com o material que assistia ou lia nas mídias. Foram dias árduos de escrita e revisão, cujo processo catártico foi também de cura, e no final, quando pôde ler tudo o que tinha escrito, teve a sensação de que havia escrito uma tragédia. “É realmente interessante, eu escrevi essa tragédia e de algum jeito me senti bem por poder experienciar tudo isso através da literatura.”

Isso me lembrou uma história que li certa vez em um livro budista. A história se passa em um desses retiros onde pessoas vão para meditar e de repente chega um cara que todo mundo detesta, todo mundo odeia. Aquele tipo de gente chata. E todas as pessoas se perguntam “Oh, quando que ele vai embora?” Então um dia ele acaba discutindo com uma outra pessoa, rola um confusão e finalmente ele vai embora. Acontece que o líder desse retiro vai atrás dele e o traz de volta, e todos os outros acham um absurdo e reclamam “Por que você trouxe esse cara de volta?”, “Estávamos esperando o dia em que ele iria embora”, “Nós detestamos ele”, etc. Então o líder responde “Na verdade eu pago para ele ficar aqui. Porque ele ajuda vocês despertarem para os seus problemas.”

Se Trump não existisse e não tivesse chegado à presidência — por pior que isso seja — esse livro não existiria. Óbvio que, se fosse possível, qualquer artista trocaria sua obra, fruto de uma tragédia, pela possibilidade da tragédia nunca ter acontecido. Mas a vida não é assim. Coisas acontecem e é importante estarmos acordados para enfrentá-las do modo que nos seja possível, ao invés de fingirmos que elas não existem. A forma como atravessamos as coisas ruins é o que nos torna pessoas melhores.