A farsa nossa de cada dia — Árvores Abatidas de Thomas Bernhard

05 de dezembro de 2020

Literatura

Sentado em um canto escuro da sala durante um jantar na casa de um casal de amigos, o narrador de Árvores Abatidas observa calado os convidados da festa, pessoas que há muitos anos atrás foram sua companhia mais frequente: artistas da cena contemporânea de Viena. Isolado e calado na maior parte do tempo (e do livro), é o seu fluxo de pensamentos que conta a história dos personagens presentes, detonando-os impiedosamente.

Lançado em 1984, o livro escrito pelo Thomas Bernhard ficou marcado como um retrato marcante da burguesia ocidental. Mais especificamente uma classe artística que se diz intelectual.

O narrador (uma espécie de alter ego de Bernhard) lamenta ter aceitado o convite do chamado jantar artístico na casa do casal Auersberger, onde todos aguardam a chegada de um ilustre convidado, o ator que está fazendo sucesso com a peça O pato selvagem de Henrik Ibsen. Ele passa metade da festa sentado numa poltrona sem falar com ninguém, enquanto despreza tudo e todos.

A sua crítica é direcionada à turma de artistas de que um dia ele fez parte e hoje considera vazia em seu esnobismo.

“Todas essas pessoas na sala de música sempre fingiram viver — eles nunca viveram realmente, eles nunca levaram uma vida real. (…) Eles sempre viveram de acordo com a moda, disfarçando-se na moda e se tornando escravos da moda para se exibir.”

Morando há alguns anos em Londres, o narrador retorna à Viena para o velório de Joana, sua melhor amiga, que havia cometido suicídio. Velório que aconteceu no mesmo dia do jantar, e foi onde ele recebeu o convite para a festa de recepção ao ator renomado. Portanto, todos ali presentes na sala estavam horas antes no cemitério.

Bernhard provoca com essa dualidade. É possível dois eventos tão díspares coexistirem? Será que as pessoas fingiam tristeza durante o funeral ou estavam forçando alegria durante o jantar?

“Tudo neles era artificial, enquanto o cemitério parecia o lugar mais natural do mundo.”

A morte é mais real do que a vida?


Real irreal

O narrador julga fazer parte de uma existência simulada, uma vida fingida, que não é real. Para ele, tudo naquela turma, o jeito como andam, como falam, tudo era artificial.

Em certo momento ele observa a vasta estante de livros dos Auersbergers, contendo coleções de livros dos seus antepassados para mostrar erudição e conhecimento. A moda de mostrar livros (que não são lidos) nunca passa, basta ver o plano de fundo das inúmeras lives de hoje em dia, a estante está lá como ostentação do saber. Nunca houve um tempo em que não estivesse na moda fingir ter conhecimento.

“Eles sempre se exibem porque não têm capacidade para a realidade. Tudo sobre eles sempre foi mostrado: suas relações sociais significam nada além de mostrar, e o mesmo vale para suas relações um com o outro, suas relações conjugais: eles sempre deram um show de casamento porque nunca foram capazes de sustentar um real.”

Os artistas têm mesmo uma camada particular de impostura em comparação às outras. A criação é parte intrínseca do artista, e muitas vezes acaba inventando a si mesmo, fazendo da própria vida uma extensão da sua arte. Mas não é a potência de invenção que incomoda o narrador. Sua crítica se refere mais à falsidade, ao cinismo, à hipocrisia, à dissimulação.

Entendo ele. É do mundo fingido que ele não aguenta mais. O mundo das aparências e dos interesses que as movem. Também passeio pela bolha artística contemporânea e sinto o mesmo fastio do teatro de aparências. Em determinado instante da leitura me perguntei se era eu que estava lendo o livro ou o livro que estava me lendo. Eu mesmo estou cansado de usar as máscaras que criei para participar desse baile. Acredito que esse cansaço revela que o momento em que percebemos que estão todos usando máscaras, fingindo ser quem não são, é um momento de adeus.


O lenhador

Para podermos conviver uns com os outros, é preciso existir um acordo tácito onde aceitamos o mundo de fantasias, mesmo que não concordemos com os seus fundamentos, ou melhor, que a ficção que eu acredite não seja a mesma ficção que o outro acredita, mas é preciso fingir acreditá-las, ou acreditar que são reais, para que haja qualquer convivência possível.

É assim que se dá a vida na civilização. Mas há uma saída? Ou apenas a despedida?

Durante o jantar, o renomado ator diz estar cansado da cidade e que a felicidade está em “entrar na floresta, nas profundezas da floresta, render-se à floresta, a floresta virgem, a vida de um lenhador.” (Holzfällen é o título original, significa o ato de cortar madeiras, o trabalho do lenhador. A tradução americana adotou Woodcutter que é lenhador). A natureza selvagem é o único lugar onde não existe artificialidade, pois, afinal de contas, não há humanos. Longe das pessoas, o ator, um especialista na arte de performar, de fingir ser o que não se é, diz ser o único lugar onde se pode descansar. Descansar de quê? Da farsa.

“Toda a minha vida tem sido uma farsa. A vida que vivo não é real, é uma vida simulada”, percebe o narrador ao final.

Mas o que é real?

Toda experiência de vida é formada em grande parte, em grandessíssima parte, por ficção. O amálgama do real com as coisas imaginadas é tão forte que nem questionamos mais a natureza das coisas. Dinheiro, por exemplo, não passa de um pedaço de papel impresso onde eu e você concordamos que carrega um valor. E é a força da crença compartilhada que dá poder para esse pedaço de papel. Nem vou falar sobre acreditar em mensagens das estrelas ou em um criador do universo, da vida e tudo mais.

A boa é estar de bem com as nossas criações. É bacana quando as coisas que inventamos pra gente nos potencializa, nos torna melhores e, vou dizer hein, nos deixa mais felizes. Durante um tempo esse mesmo baile de máscaras que o narrador agora despreza foi o seu universo, foi com quem ele compartilhou desejos e planos. Pode acontecer de um dia deixarmos de acreditar naquilo que por um tempo acreditamos com todas as forças. Mas tudo bem. Criaremos outras. Toda bolha tem seus códigos e todo mundo tem suas máscaras. Talvez a vida real não seja tão real assim. Vestimos a farsa que combina melhor com a cor dos nossos sonhos.