A vida é muito aleatória

10 de fevereiro de 2020

O livro que estou lendo no momento é “Sapiens - Uma Breve História da Humanidade” de Yuval Noah Harari. Por muito tempo me esquivei desse livro pelo bobo preconceito de ter se tornado um best seller insuperável nos últimos anos. Foi o livro mais falado de… sei lá quando, ano passado, talvez antes. Obama leu e recomendou, Mark Zuckerberg também, Bill Gates, meu cunhado, amigos próximos, amigos distantes, a mãe de um coleguinha do meu filho e até aquele primo advogado de direita — e só depois descobri que a maioria desses conhecidos próximos não tinham nem sequer concluído a leitura. O autor veio até o Brasil para fazer uma turnê de palestras sobre o livro, foi entrevistado no Roda Viva, em um teatro lotado no Rio e em São Paulo, deu uma palestra na Câmara dos Deputados e deve até ter curtido uma noite de sarau na casa da Paula Lavigne, procure saber. Eu tinha pego uma birra com o livro, mas era uma birra falsa porque no fundo eu sabia que o assunto me interessava e que havia grandes chances de me interessar pela leitura.

Recentemente um amigo próximo sofreu um acidente bizarro. Ele estava andando pelas ruas do bairro onde mora, indo ao mercado, em uma tarde de sábado qualquer, quando de repente algo caiu em sua cabeça e ele despencou no chão. O sangue começou a escorrer e ele não conseguiu se levantar. Procurou inutilmente pelo que tinha lhe acertado mas não conseguiu achar. Ligou para um outro amigo vir lhe socorrer. O porteiro do prédio em frente também surgiu após vê-lo caído na calçada e tentou ajudar, mas ele não conseguia se levantar, estava tonto, sangrando muito, as pernas fracas. O amigo chegou e o ajudou a ficar em pé. Também vasculhou a área procurando o objeto do crime, mas não encontrou nada com peso suficiente para provocar o acidente. Com urgência, entraram juntos no carro e foram correndo para a emergência.

Meu amigo hoje passa bem. Ele foi muito bem atendido e sua recuperação tem sido bem sucedida.

Fiquei comovido pelo acidente e pelo sofrimento dele. Essa história não saiu da minha cabeça por dias, cheguei até a contar sobre isso na terapia e, antes, durante e depois da sessão uma frase não saía da minha cabeça e eu, como sempre, anotei-a no caderno: a vida é muito aleatória.

Assim que cheguei em casa, por pura intuição, baixei a amostra grátis do livro no kindle e comecei a ler. O início do livro é o início de tudo ou pelo menos de tudo o que conhecemos como início. E foi aí que o livro me pegou. Fazia muito sentido com tudo o que estava acontecendo — porque é sobre o sentido de tudo o que acontece. Assim que terminei a amostra, comprei o livro e segui lendo até sentir os olhos ardendo e fechando. A partir de então minhas noites têm sido de mergulho na história do mundo, ou melhor, na história dos nossos ancestrais, de onde viemos.

Durante o resto do dia, quando não estou lendo, acabo observando tudo o que me acontece — e os acontecimentos do mundo — pelo conhecimento que o livro tem me apresentado. É o que acontece quando um livro nos conquista. Você não sai dele até que conclua a leitura — e muitas vezes, nem depois disso, a experiência do livro se torna parte integrante de quem somos.

Tenho marcado o livro todo e a cada etapa sinto vontade de compartilhar com amigos. Essa seria uma daquelas leituras boas de se fazer em grupo pois sinto que estou aprendendo coisas que tornam difícil qualquer conversa com pessoas que não viveram o que eu vivi.

De modo que, esses dias no Twitter alguém perguntou “Se você só pudesse indicar apenas um livro para uma pessoa, que livro você indicaria?” e eu cometeria o abuso de descartar os clássicos, os cânones, as jóias e dizer: “Sapiens”. Porque é um livro que nos ajuda a entender mais sobre nós mesmos e o que estamos fazendo juntos nessa bola flutuante no universo.

Não por acaso me lembrei de duas peças do Maurice Maeterlinck, um escritor, poeta e dramaturgo belga, imensamente popular no final do século XIX e início do século XX, um dos primeiros ganhadores do Nobel de Literatura (1911) e, hoje, pouco conhecido.

“Os Cegos” e “Interior”, ambas do começo de sua carreira (ele tinha uns trinta anos, na década de 1890), são peças escritas para o teatro de marionetes.

“Os cegos” se passa em uma floresta em uma ilha nórdica. No centro do palco repousa um padre, claramente morto. À sua volta doze pessoas cegas se perguntam “onde estará o padre?”, “já estamos esperando há horas, daqui a pouco escurece, precisamos voltar ao castelo”, etc. O drama se desenrola no diálogo dos cegos, que vão com o passar do tempo ficando mais desesperados, esperando pelo padre que sabemos que não virá.

Já “Interior” se passa no quintal de uma casa. Assim como no texto anterior, aqui o mote é muito simples. Um grupo vem trazer uma terrível notícia para a família: uma de suas filhas está morta. Mas como dizer? Como contar uma notícia trágica? Por onde começar? Como acabar com a calma de um dia comum? Diante da pobre família em paz no quintal, eles param, hesitam, debatem. A história vai se desenrolando enquanto as pessoas vão ficando progressivamente mais desesperadas, esperando por alguma solução milagrosa que sabemos que não virá.

Meu consciente fez uma correlação estranha mas que em seguida me pareceu óbvia. A leitura de “Sapiens” me ajudou a “entender” melhor as peças de Maeterlinck. A questão é que para Maeterlinck, a fonte do drama não é o conflito entre pessoas, mas o conflito entre o ser humano e o universo. O fato das suas peças terem sido escritas para marionetes não é um mero detalhe, é uma solução simbólica muito forte pois revela um significado. O que Maeterlinck quer dizer é que não passamos de marionetes nas mãos do desenrolar da vida, do universo e tudo mais.

É um pouco isso também o que Harari parece explicar em Sapiens.

Chegamos até aqui seguindo um fluxo de acontecimentos incontroláveis, impulsos da natureza, caos, delírios, conflitos, em busca de um sentido que sabemos (?) que não virá.

A vida é muito aleatória.