Acabou chorare

17 de abril de 2020

Os Novos Baianos mudaram a minha vida. A primeira vez que ouvi, eu era um adolescente problemático, morava em Salvador e passava os dias agoniado de vontade de criar algo original, algo que produzisse pensamento ao mesmo tempo que alegria. Quando ouvi “Acabou Chorare” tudo se iluminou. Eu colocava a mão na cabeça e dizia “Meudeus, como alguém conseguiu inventar isso?”

O disco respondia muitas das questões que eu tinha com meus amigos na época. Éramos jovens com pretensões artísticas e nos perguntávamos como produzir algo que fosse moderno e atemporal, que falasse a nossa língua, que tivesse brasilidade e baianidade na receita. O som que saía das caixas de som rodando num CD pirata tinha tudo isso, e atingia não apenas nossas ideias como também nossos corpos. Era uma música que incitava um movimento, e não me refiro unicamente à manifestação cultural, mas ao simples significado da palavra, movimentava nossos corpos e nossas mentes contaminados pela vibração da alegria.

Não é toda obra de arte que consegue provocar esse efeito.

Lançado em 1972, “Acabou Chorare” é o segundo álbum de estúdio dos Novos Baianos, e trouxe para a cena musical uma sensualidade envolvente que transcende preconceitos ao radiar liberdade. Tendo o apadrinhamento de ninguém menos que João Gilberto, que serviu de mentor do grupo na época da realização do disco, compuseram uma obra que apresenta grande versatilidade de gêneros musicais, misturando Beatles, Assis Valente, Tropicalistas, Bossa Novistas, Hendrix, num desbunde sem grilos.

A formação principal contava com Moraes Moreira injetando swing com seu violão e balanço com seu canto; Pepeu Gomes eletrizando todos os fios de cabelo graças à sua guitarra; Paulinho Boca de Cantor marcando o sotaque no canto; Dadi firme e inventivo do baixo; Jorginho Gomes mandando brasa na bateria sem amolecer; e Baby, baby, com um canto tão doce que é como um carinho, um afago inconfundível. Luiz Galvão escrevia as letras tão irreverentes, cheias de alegria movente como a literatura produzida pela contracultura da época.

O disco começa com Baby cantando “Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor.” E é esse valor que está esparramado por todo o disco como potência criadora. “Brasil Pandeiro”, “Preta Pretinha”, “Swing de Campo Grande”, “Besta é tu”, “Mistério do Planeta”, o disco transcende o formato de coletânea de canções e, embora não tenha sido pensado assim, é um projeto estético coeso, uma obra que se escuta do início ao fim sem tirar o ouvido da caixa.

Em 2007, na eleição da Lista dos 100 maiores discos da música brasileira feita pela revista Rolling Stone, “Acabou Chorare” apareceu em primeiro lugar.

O título do álbum e a faixa homônima foram inspiradas no estilo icônico da bossa nova de João Gilberto e numa história contada por ele sobre sua filha, a então bebê Bebel Gilberto. A canção foi escrita por Luiz Galvão e musicada por Moraes Moreira. Luiz estava em seu apartamento quando viu uma porção de abelhas entrando pela janela e pousando em sua mão. Segundo ele mesmo conta:

“Telefonei para João Gilberto contando que estava fazendo uma letra sobre essa relação com a abelhinha. João me disse: ‘Fenomenal! Eu estava falando com o poeta Capinan, e ele lembrava que a abelha beija a flor e faz o mel, e eu gostei e completei: E ainda faz zum-zum.’ Perguntei a João: 'Posso usar isso?’ E ele aprovou dizendo: 'Deve’”.

A história não parou por aí. Em seguida, João contou que Bebel levara uma pancada e ele acudiu com a aflição de pai nessas horas, mas Bebel reagira corajosamente e, para tranquilizar o pai, falou na sua língua de criança: Acabou chorare.

E aí está a jóia do simbolismo do título. A frase acabou chorare representa a proposta do disco e do grupo. É uma crítica à tristeza que dominava a música popular na época, e também das duras da ditadura militar. É um convite. Aliás, mais do que isso, é um chamado ao prazer, à diversão e alegria. Mas não qualquer alegria. Uma alegria como revolta, como libertação. É das coisas mais maravilhosas criadas pela humanidade. Essas músicas são carne e são espírito. São jogo e são reza. Cantar e dançar vivenciando a força de se estar vivo.