Cinco dicas de escrita por Geoff Dyer

30 de setembro de 2020

Há um tempo atrás se me perguntassem qual tipo de escritor vivo eu gostaria de ser eu responderia Geoff Dyer.

Dyer é um escritor inglês muito pouco lido no Brasil. Também, pudera, com as baixíssimas taxas de leitores neste país, não vai ser com livros de Dyer que essa conquista seria alcançada. Não que ele seja um escritor experimental, difícil ou pesado, pelo contrário, suas narrativas são fluídas e leves, coloquiais e cotidianas, como um texto de revista. Sua possível “estranheza” está no fato dele transcender gêneros. Não se pode dizer que ele seja um ficcionista como dizemos de um Saramago, por exemplo. Nem que um escritor de não ficção especialista em um assunto específico como um Oliver Sacks é sobre neurosciência. Ele também não possui UM grande livro, mas sim uma obra tão variada que de um livro pro outro ninguém sabe o que esperar. Mas todos mantém algo em comum. Como uma família de indivíduos diferentes e estranhos e particulares à sua maneira, mas que mantém o mesmo sobrenome, os livros de Dyer têm a sua assinatura, e não digo do seu nome, mas da sua inteligente e bem humorada voz narrativa.

Ele combina ficção, autobiografia, escritos de viagem, crítica cultural, teoria literária e uma espécie de humor inglês, cujo resultado é “uma curtição amalucada e engenhosa”, como definiu o crítico James Wood.

Entre os seus livros mais conhecidos estão “Ioga para quem não está nem aí”, um livro de viagens que às vezes não se sai pra lugar nenhum; “O instante contínuo”, que busca criar uma espécie de história alternativa da fotografia; “Mais um dia magnífico no mar”, onde ele relata a experiência de passar duas semanas num porta-aviões; e principalmente o ensaio autobiográfico sobre D. H. Lawrence, “Out of sheer rage”, que trata de uma investigação divagante sobre a sua vontade de escrever um livro analítico sobre Lawrence, mas toda vez que tentava, fracassou.

Alguns autores que têm um estilo parecido: Nietzsche, Roland Barthes, John Berger, Susan Sontag.

Geoff Dyer foi descrito pela jornalista Kathryn Schulz na revista New York como “um dos nossos maiores críticos vivos, não das artes, mas da própria vida”.

Há um tempo atrás se me perguntassem qual tipo de escritor vivo eu gostaria de ser eu responderia Geoff Dyer. Mas aqui no Brasil isso significaria morrer de fome e não ser lido. Talvez eu morra tentando. E é por isso que trago aqui cinco regras de escrita de Dyer, para inspirar esse caminho diverso:

  1. Nunca se preocupe com as possibilidades comerciais de um projeto. Essas coisas são para os agentes e editores se preocuparem - ou não. Conversa com meu editor americano. Eu: “Estou escrevendo um livro tão chato, de apelo comercial tão limitado que, se você publicá-lo, provavelmente vai custar seu emprego.” Editor: “Isso é exatamente o que me faz querer permanecer no meu trabalho.”

  2. Mantenha um diário.

  3. Escreva todos os dias. Crie o hábito de colocar suas observações em palavras e, gradualmente, isso se tornará instintivo.

  4. Tenha arrependimentos. Eles são como combustíveis. Na página, eles se transformam em realizações.

  5. Escrever tem tudo a ver com perseverança. Você tem que persistir. Quando tinha 30 anos, costumava ir à academia, embora odiasse. O propósito de ir à academia era adiar o dia em que eu pararia de ir. Isso é o que escrever é para mim: uma maneira de adiar o dia em que não o farei mais, o dia em que afundarei em uma depressão tão profunda que será indistinguível da felicidade perfeita.