Cinco fatos literários sobre mim

29 de janeiro de 2020

Participei de uma dessas correntes (é assim que chama?) do Twitter onde as pessoas listavam cinco fatos literários curiosos que ninguém sabia. Decidi aqui explicar melhor cada um deles.

- Leio muito, sempre, todo dia, é um vício. E prefiro ler a versão digital do que a versão impressa.

Algum dia desses cheguei a contar para meus amigos que estava começando a ficar preocupado comigo porque eu não conseguia passar um dia sem ter um livro pra ler. Será que isso configura algum tipo de problema psicológico? Digo, será que é vício? E será que me prejudica de alguma forma? Por enquanto consegui perceber pelo menos três características problemáticas. 1) Em algum momento do dia eu vou bancar o autista e irei para um lugar onde será possível ficar sozinho lendo um livro. É uma necessidade quase fisiológica. Na última viagem que fiz com amigos percebi isso claramente. Enquanto todos passavam o dia inteiro juntos, conversando, brincando, cuidando das crianças, em algum momento (ou até mais de um) eu entrava no meu quarto e ficava lá deitado sozinho lendo. 2) Passo um bom tempo da minha vida mergulhado em um mundo inventado (por outros ou por mim mesmo). Isso acaba me alienando um tantinho do que chamamos de vida real. Me pego pensando na história que estou lendo (é mais comum acontecer com a história que estou escrevendo) durante vários momentos do dia. Até aí tudo bem enquanto estou lavando a louça, fazendo supermercado, dentro de um ônibus indo pro trabalho, mas fica chato quando é no meio de alguma conversa no bar com amigos. Quem lê muito sabe que às vezes as histórias que lemos nos livros são mais interessantes do que a vida banal, as conversas repetidas, as polêmicas políticas e o trabalho escroto. 3) Após concluir uma leitura que me tira do chão, eu anseio por ler algo que me provoque a mesma reação novamente. E é preciso saber: nem sempre acontece. Não é sempre que um livro vai nos tocar da mesma forma. A leitura é um encontro e como tal depende de muitos fatores. Terminar de ler um livro que mexeu comigo acaba criando um vazio que raramente conseguirei preencher, mas a busca nunca acaba e nessa busca posso me frustrar e largar livros que, se não fosse por isso, eu provavelmente não largaria. Será que realmente tenho que ler tanta coisa assim?

Todos os três tópicos aqui acabam se intensificando pelo hábito de ler no Kindle. Porque para qualquer lugar que eu vou, carrego comigo centenas de livros, então posso me alienar em qualquer lugar, em qualquer momento, e ficar eternamente procurando o livro certo entre tantos que cabem neste micro dispositivo.


- Já baixei livros piratas mas na maior parte das vezes eu compro ebooks, o preço é baratinho.

O primeiro livro que li na versão digital foi o “Ficando longe do fato de que você já está tão longe de tudo”, ensaios do David Foster Wallace. Comecei lendo uma amostra grátis e em poucas semanas concluí a leitura sem sentir cansaço ou dificuldade por estar lendo no celular. A partir daí me apeguei a todas as comodidades que a leitura digital proporciona e não larguei mais. Às vezes autores entram em contato comigo me pedindo para que eu leia o livro deles e a primeira coisa que pergunto é “Tem no formato digital?” No início eu baixava livros piratas, principalmente livros gringos que não foram traduzidos por aqui. Baixava livros que eu tinha a impressão de que não iria gostar. Mas depois comecei a comprá-los porque, óbvio, é importante que o autor receba pelo seu trabalho, que a editora saiba que esse formato têm saída, e porque a diagramação do livro fica mais bonita. Na maior parte das vezes o livro digital é mais barato do que o impresso (e tem que ser, afinal, não se paga com papel, tiragem, distribuição). Muitas vezes custa menos do que um almoço e muito, muito menos do que a conta de um bar.


- Gosto mais de contos do que de romances.

Gosto mais de narrativas curtas de modo geral. O romance é super valorizado. Borges dizia que gostava de contos porque tinha a duração de uma história contada por alguém em volta de uma fogueira. É verdade. Por isso mesmo acho que a narrativa curta é a história por excelência.

Gosto de ir saltando entre contos de autores diferentes, lendo-os como obras independentes das coleções em que estão reunidas. Mas gosto também de ler o livro inteiro, pensando que é como se cada história fosse uma faixa de um disco. Há vários tipos de livros de contos e gosto da experiência que tiro deles. Acho que não consigo definir melhor do que a analogia do Borges citada acima. É como uma história contada durante um passeio, é como um filme que se assiste no cinema, como uma música, é algo que você pode absorver em um ato e aquilo é rearranjado na sua cabeça e faz parte daquele momento único.


- Durante os últimos cinco anos eu só conseguia ler não-ficção. Mas isso mudou, voltei à ficção com toda força.

Não tem como ter estado vivo nestes últimos tempos sem ter sido afetado pela narrativa da história recente do país e do mundo. A realidade se tornou mais pungente do que a ficção. Inclusive, a realidade se parecia mais com um mundo ficcional do que a própria ficção. Parecia que estávamos (estamos) dentro de uma novela do Kafka. Ler um mundo imaginado, com personagens criados por um autor, me parecia, naquele momento, uma perda de tempo. Com tanta coisa para aprender, entender, conhecer, era mais interessante ler ensaios, pesquisas, reportagens, teses filosóficas, estudos científicos. Isso fez muito sentido para mim durante muito tempo até eu me cansar da realidade e precisar escapar de tudo o que estava acontecendo. Redescobri o óbvio: a boa literatura de ficção não está aqui para nos esconder a realidade, mas para nos revelar mais da realidade do que sabíamos.

Em uma entrevista para a Paris Review, Enrique Vila-Matas disse “O que realmente me interessa bem mais que a realidade é a verdade. Acredito que a ficção é a única coisa que me aproxima de uma verdade que a realidade encobre…” Vila-Matas é um buscador de verdades e, como os melhores escritores, ele usa a arte da invenção para encontrar essas verdades. Ele é sábio o suficiente para saber que a literatura não entrega as respostas; a boa escrita é a arte de fazer boas perguntas.


- Eu gosto de ler ouvindo música e em alguns casos preparo uma playlist para o que estou lendo.

Neste mundo disperso e fragmentado em que vivemos, se concentrar em uma atividade como a leitura se tornou um exercício difícil. Se coloco uma música enquanto leio, a minha concentração dobra. Acredite. A música cria uma atmosfera que se mescla com o enredo. Mas tem que ser música instrumental e de preferência que tenha a ver com o tipo do livro. Por isso mesmo passei a montar playlists de acordo com o que estava lendo. Um achado muito bom são as trilhas sonoras de filmes – por exemplo, se estou lendo um livro de terror, seleciono músicas de filmes de terror. O curioso é que só funciona quando ouço no headphone, por ser uma forma mais intimista e intensa de experienciar os efeitos que a música pode provocar. Funciona muito bem da mesma forma quando estou escrevendo. Posso repetir a mesma música centenas de vezes enquanto escrevo uma cena para me manter no clima do que pretendo atingir.


***


Esses são os cinco fatos literários que publiquei no Twitter outro dia. Poderia citar outros tantos, como quando acabei com um clube de leitura ao ler um conto pornográfico, o quanto eu não gosto de lançamentos de livros, como escritores são pessoas estranhas de se conviver, ou o fato de que irei publicar um livro de ficção neste ano, mas essas foram as primeiras que me vieram à cabeça e as que cabiam no espaço da rede. As outras eu conto por aqui em alguma outro momento.