Como sonâmbulos indo para o precipício

26 de junho de 2019

Se você viu o filme, você conhece a cena.

O trem sai da estação final de uma zona rural de Edimburgo deixando os quatro amigos sozinhos na plataforma. Mark, Sick Boy, Spud e Tommy olham para a vegetação rasteira da planície ao seu redor. São quatro jovens garotos urbanos imersos no surgimento da cultura da música eletrônica européia dos anos noventa, moradores do subúrbio de uma cidade cinza de prédios construídos pela ostensivo crescimento em torno do trabalho operário, um mundo de paredes, muros e portas fechadas, onde a maior oportunidade que se pode esperar é conseguir um emprego em uma grande empresa, se casar, ter filhos até chegar numa velhice banal.

Sick Boy olha ao redor a paisagem extremamente verde e vazia e pergunta:

— E agora?

— Vamos caminhar! — Tommy responde.

— Pra onde? — pergunta Spud.

Tommy aponta para uma montanha ao longe:

— Para lá — e sai andando na frente.

Tommy é o único que está resoluto em caminhar. Os outros o seguem rastejantes. O passeio foi ideia de Tommy. Sua namorada acabou de terminar com ele e ele está fazendo de tudo para não sentir a dor, não se entristecer, e seus amigos estão nessa por ele.

Eles caminham pelo campo e param em uma ponte de madeira enquanto Tommy segue na frente decidido, se vira para os amigos, abre os braços e grita:

— Enfim estamos ao ar livre!

Sick Boy grita:

— É muito legal, Tommy, mas podemos voltar para casa agora?

— É ar puro!

— Veja, Tommy, a gente sabe que você está numa situação difícil com a Lizzy, mas não precisa descontar na gente – protesta Sick Boy.

Tommy, ainda de braços abertos no ar, pergunta:

— Olha isso! Isso não te faz sentir orgulho por ser escocês?

Essa é uma cena do filme Trainspotting, dirigido por Danny Boyle, baseado no livro homônimo de Irvine Welsh. Se você viu o filme, você conhece a cena. Essa é apenas uma entre as inúmeras cenas antológicas do filme, mas ela nunca saiu da minha cabeça, desde a primeira vez que vi, há vinte anos atrás.

A parte memorável para mim é a sua sequência final. Após Tommy perguntar sobre o orgulho de ser escocês, Mark Renton, protagonista da história sentado na ponte, dando goles em uma garrafa com alguma bebida incolor (vodka, talvez), responde:

— Eu odeio ser escocês. Nós somos os mais merdas de todos os merdas, a escória da terra, o lixo mais miserável, servil, lamentável, patético que já surgiu no mundo. Algumas pessoas odeiam os ingleses, mas eu não. Eles são apenas idiotas. Nós, por outro lado, fomos colonizados por idiotas. Nós não conseguimos nem escolher uma cultura decente para sermos colonizados. Nós somos governados por imbecis incompetentes. É um país de merda e todo o ar fresco do mundo não fará nenhuma diferença.

Em seguida os quatro tomam o caminho de volta para casa.


* * *


O que me marcou nesta cena é a forma como Mark Renton fala sobre o país onde nasceu. Ele diz como quem cospe na própria mãe e pai, sem por isso se sentir culpado, constrangido, incorreto. Aqui no Brasil somos perseguidos se maldizemos ou diminuímos a nossa cultura. Sempre fui repreendido quando dizia isso, como se eu fosse incapaz de reconhecer as maravilhas do país — as pessoas geralmente citam nossos clichês. Como assim você fala mal do carnaval? Como assim você não gosta de futebol? Como assim você não ouve pagode? Segundo a onda otimista e esperançosa do brasileiro-que-não-desiste-nunca, não é de bom tom falar mal do Brasil, temos que ver nossos problemas como parte de nossas grandezas. Hum, não estou bem certo disso. Talvez essa seja uma espécie de auto alienação, preferir viver numa fantasia que pode tanto estar no patriotismo da direita (presos nos complexos de colonização que fazem com que o atraso do país seja medido por critérios exteriores) como na esteira do primitivismo nostálgico da esquerda (que formula a ideia de que as mazelas da formação do país são onde estão os seus tesouros).

Muitas vezes me policiei para não carregar nas críticas sob o risco de ser comparado àqueles ideólogos que reclamam da preguiça dos nordestinos, da bagunça do trânsito, do lixo deixado pelos mendigos na rua, dos trombadinhas das favelas. Mas não, nunca foram essas as minhas críticas. Essas são as consequências das deformações oriundas do nascimento da nossa civilização, o nosso real problema está nas causas.

Vivemos um período obscuro da história do país (houve algum período que não fosse?). Abrir os braços e dizer que “não é bem assim como parece” ou “não adianta fazer nada”, é viver como sonâmbulos indo em direção ao precipício.

No texto “O transe na América Latina”, publicado em 1969, Glauber Rocha escreveu: “Não podemos ter heróis positivos e definidos, não podemos adotar palavras de beleza, palavras ideais. Temos que afrontar nossa realidade com profunda dor. Não existe nada de positivo na América Latina a não ser a dor, a miséria, isto é, o positivo é justamente o que se considera negativo. Porque é a partir daí que se pode construir uma civilização que tem um caminho enorme a seguir.”

No artigo “Diferentemente dos americanos do norte” Caetano Veloso afirma que “nunca canções disseram tão mal do Brasil quanto as canções tropicalistas.” É claro entender isso visto que o movimento criado por ele trazia imagens distoantes das belezas cantadas pela Bossa Nova. Segundo o próprio Caetano, comentando o filme “Terra em Transe” de Glauber, o que lhe chamara atenção foi justamente “a ostentação barroquizante de nossas falências, de nossas torpezas e de nossos ridículos”.

É preciso reconhecer que somos ridículos, que esse país é um absurdo. Acompanhando o caminhar dos últimos acontecimentos, me perguntei se me sentia orgulhoso por ser brasileiro e me lembrei da resposta dada pelo Mark Renton.

Eu ainda não cheguei nessa fase de alguns pra dizer que “isso não vai dar em nada”. Minha sensação presente é de indignação, com muita vergonha do que acontece neste país. Por tudo, por tudo, este país é um absurdo. É um absurdo histórico. Tenho vergonha de pertencer a um país que foi o último a abolir a escravidão, que extermina seus índios sistematicamente, vergonha de pertencer a um país que tem uma das maiores desigualdades de renda do mundo, que foi construído pela — e vem atualizando — violência social e repressão cultural, o racismo, a misoginia, homofobia, tudo, o descaso com o outro, com o pobre, com os idosos, jovens e crianças, tudo tudo, a indiferença com o diferente nos olhares enviesados da elite, é isso que tem de mais repugnante e que toma conta do poder. Não tem como diminuir nem se distrair da evidente corrupção protagonizada por Moro e Dallagnol, na congregação hedionda com Temer, Cunha, Aécio, todos, as cinco famílias que orquestraram a narrativa da imprensa e transmitiram a naturalidade com que o golpe aconteceu, vem acontecendo, orquestra essa que desemboca no que tem de mais asqueroso neste país e leva o sobrenome Bolsonaro. Não é possível viver neste pesadelo, sentindo-se incapaz de acordar, resignado em dizer que “isso não vai dar em nada”. Se Moro não for punido e sua sentença contra Lula não for revista e ficar tudo por isso mesmo, vai existir em mim um amargor mais amargo do que agora porque é ridículo, é constrangedor, é um vexame, é uma bosta este país, e não tem purpurina que ilumine essa desgraça, não tem samba com cerveja, futebol na praia, não tem praia, não tem sol, se nada acontecer então tudo se tornará parte da mesma merda, o carnaval, o chopp na rua, o gol, estaremos todos, estudantes, professores, operários, médicos, cientistas, artistas, advogados, garçons, economistas, contadores, engenheiros, jornalistas, todos, todo mundo, seremos todos parte deste cenário, deste escárnio, andando nesta bosta de país, nesta merda, nesta vergonha histórica após zilhões de anos de evolução de um planeta flutuante no espaço de onde vai dar pra ver a olho nu o escândalo de país que não dá nem pra chamar pelo nome.