Desi, para onde vai?

02 de outubro de 2020

O documentário Desi, de Maria Augusta Ramos, tem como protagonista uma menina de 11 anos da classe média de Amsterdã. Desi (lê-se deise) vai à escola, acompanha as pequenas exigências da moda de sua tribo, mantém amizade eterna com amigas e se diverte provocando os meninos da sua turma. Mas quando o sinal anuncia o final da aula e todas as outras crianças vão para a casa com os pais, ela se senta na rua em frente a escola, tira seu celular da mochila e telefona para o pai, que, como sempre, se esqueceu de aparecer. Ela então lhe pergunta onde deve dormir naquela noite.

A cena se repete ao longo do filme. Fica-se sabendo que a mãe da menina cometeu suicídio quando Desi era bebê, que o pai beberrão mora num barco com uma namorada, e que a menina nunca sabe onde vai dormir - com o pai, a avó paterna, o avô materno ou com a melhor amiga.

Desi leva uma vida errante, sem saber onde pôr a sua âncora. E é com o olhar vazio de quem já viu demais que a protagonista atravessa Amsterdã de ônibus, em busca de onde vai ficar naquele dia.

Quando fez este filme, a diretora Maria Augusta Ramos morava e trabalhava na Holanda. Ela não integrava nenhum dos nichos do métier do cinema nacional. Um clássico da profissão é fazer parte de grupinhos que de uma forma ou de outra acabam direcionando a vida profissional. Fazer parte de um grupo, parte da galera, é um grande passo de sucesso. Quem é trovador solitário, pode acabar sendo excluído de lances que o nicho potencializa, seja a própria realização de trabalhos como também convites para festivais, coletâneas, antologias, eventos, etc. Guta Ramos não fazia parte da turma carioca, paulista, pernambucana, gaúcha… trafegava pelas patotas à deriva, com o estranhamento de quem sabe não fazer parte.

Em entrevista para a revista piauí, ela disse “Desde pequena tenho a sensação de não pertencer. Isto está no âmago da minha situação de dor atual. Onde estou?

Desi é um filme de 2001. De lá pra cá Guta realizou documentários que não apenas ganharam prêmios importantes como também se tornaram conhecidos de espectadores não tão acostumados ao formato, como o filme “O Processo”, sobre o impeachment da Dilma. E também os filmes “Juízo” e “Justiça”. Todos filmados no Brasil.

Não saber onde é o seu lugar. Onde pertencer. Não fazer parte da turma – seja porque não consegue ou porque não quer. Eu sou dessa turma.