Discos favoritos de 2020

17 de outubro de 2020

Música

O ano ainda não acabou (mas tá quase, tá quase), então óbvio que essa não é uma lista definitiva de lançamentos preferidos de 2020. Mesmo porque de "definitivo" eu não acredito que exista nada nessa vida.

Ainda sou uma pessoa dos tempos antigos. Tenho costume de ouvir um disco inteiro, de querer conhecer o trabalho completo do início ao fim.

Listei aqui alguns dos álbuns lançados em vinte e vinte que mais tocaram nos meus fones nos últimos meses. Ouvi outros além desses? Ouvi, claro, pois continuo ouvindo mais música velha do que as lançadas agora.

Uma coisa que só fui perceber depois de ter feito essa lista é a dominância de músicas em inglês. Até mesmo a única presença nacional aqui são letras em inglês. É curioso pois não tem isso de que só escuto gringos, eu escuto muita música brasileira, só que são obras lançadas em outros tempos e por isso não entram nesta lista. "Mas quer dizer que no Brasil ninguém lançou nada neste ano?" Mermão, não me encha o saco.

Outra coisa: a ordem apresentada aqui é aleatória, não corresponde a preferência ou músicas mais tocadas.

Escolha o seu tocador de preferência e experimente esses sons.

How I`m Feeling Now — Charli XCX

Quem me conhece sabe que sou ignorante no que está acontecendo no universo do pop. Existem aquelas cinco bandas que gosto e acompanho seus lançamentos e o resto são coisas antigas de bandas mortas. Mas um dia, circulando pela internet acabei seduzido pela capa do novo disco da Charli XCX. Uma capa sincera, desprovida do lugar comum que se tornou o uso carregado de design ou de uma imponente pose sexy. Apenas ela à vontade em uma cama checando imagens em uma câmera como fazemos o dia todo com o celular. E quando fui ouvir fui surpreendido pelas batidas e ritmo. O disco foi composto e gravado enquanto Charli estava trancada em casa durante a quarentena. Daí a capa do álbum representar bem o momento. Vem daí a melancolia dos versos: letras ora intimistas, ora libertadoras, são fruto das inquietações provocadas pelo confinamento. O disco é sexy, e bom para ouvir e criar gatilhos.

Preferidas: Claws, 7 years, Detonate


Mutable Sets — Blake Mills

Sou fã do Blake Mills desde o seu primeiro disco. Este é o seu quarto disco de estúdio, é uma obra marcada pelo minimalismo, uma sequência lógica da quebra musical que foi seu trabalho anterior. Se o disco da Charli é cheio de efeitos e batidas e intensões de te fazer mexer, esse aqui é o oposto, despido de excessos, os arranjos certeiros fazem cada sonzinho ser indispensável. É um disco despretensioso e lindo que ficou no repeat por muitos dias.

Preferidas: May Later, Summer All Over, Mirror Box


Beginners — Christian Lee Hutson

Outro disco que desconhecia o autor mas fui pego pela capa. Aquela coisa cidade do interior americana, estética vintage, com a tipografia do título que lembra as usadas em livros dessa época. Acontece que o som do Christian também me cativou. Beginners soa como algo que você provavelmente já ouviu uma dezena de vezes. Canções baseadas em voz e violão, com uso delicado da voz e letras caprichadas. O que marca para mim nesse disco são os encaminhamentos da melodia, confortável de ouvir e sentir-se relaxado.

Preferidas: Northsiders, Unforgivable


The Fine Line Between Loneliness and Solitude — Gustavo Bertoni

Nunca tinha ouvido falar do Gustavo Bertoni até um amigo me mandar a música Be Here Now do seu disco anterior (Where Lights Pours In) que me fez lembrar imediatamente da música The Bell Tolls Five. Então fui ouvir o disco inteiro desde o início e fui seduzido pelo talento do Gustavo em criar melodias tão bonitas e tristes, ou tristes por serem bonitas ou bonitas por serem tristes. Passei uma semana ouvindo esse disco até passar para o álbum que ele lançou neste ano, The Fine Line Between Loneliness and Solitude. Este trabalho recente dá sequência à beleza do disco anterior, produzindo uma obra muito coesa, com canções e baladas que pegam certo. Gustavo canta em um inglês impecável, mais bem pronunciado do que o de muitos americanos. E sua voz e afinação são de provocar inveja. É moderno, bem produzido, muito bonito.

Preferidas: Waves, White Roses, Midnight Sun, Patience.


The Last Of Us Part 2 — Gustavo Santaolalla

A trilha sonora do The Last of Us exerce um papel essencial, quase como um personagem à parte ao jogo. O responsável pela sonoridade é o compositor argentino Gustavo Santaolalla, que é também autor da trilha da Parte 1 do jogo e de uma porção de filmes como Babel, 21 Gramas, Diários de Motocicleta, entre outros. Se dá para ouvir a trilha sem ter o jogado? Olha, o que te digo é que eu ouvia a trilha do primeiro antes de começar a jogá-lo, e era uma excelente companhia para ler, escrever ou simplesmente não fazer nada. Santaolalla tem um estilo marcante que torna possível reconhecer seu trabalho em qualquer coisa que faça. Isso porque ele carrega consigo sonoridades folclóricas da américa latina, mais especificamente da região sul, que é a sua origem.

Atenção: a trilha sonora conta também com composições de Mac Quayle. É totalmente outra coisa. Quayle ficou responsável pelas músicas das cenas de suspense e ação do jogo, enquanto Santaolalla fez o tema principal e cenas dramáticas.

Preferidas: Unbound, Longing, Beyond Desolation


A Quickening — Orlando Weeks

Segundo disco solo do vocalista do The Maccabees, Orlando Weeks traz músicas escritas sobre sua experiência como pai desde o nascimento do seu filho em 2018. Combinando um lirismo sincero com musicalidade espacial, criou um disco tocante, calmo e profundo. A produção eletrônica lembra o Radiohead do A Moon Shaped Pool e The King of Limbs. Não sei quantas vezes repeti a música Moon's Opera.

Preferidas: Moon's Opera, Summer Clothes


Empty — Nils Frahm

Não existe nada como Nils Frahm. Sua música me transporta para uma outra dimensão. Empty é seu oitavo disco e foi lançado no dia mundial do piano (28 de março). As faixas foram originalmente compostas para um curta-metragem que ele fez junto com o amigo Benoit Toulemonde. Assim como os trabalhos anteriores, suas composições são feitas de texturas e paisagens sonoras, climões transcendentes, que faz muito sentido com o recado que ele mandou junto com o disco: "Achei que seria um bom momento de compartilhar essas canções de ninar com vocês. Espero que lhes dêem força e calma nestes dias de solidão — apesar das adversidades, podemos descobrir a introspecção e a reflexão inesperadamente. Quem sabe para que serve a música?"

Preferidas: A Shine, A Shimmer


The New Abnormal — The Strokes

De todos os discos dessa lista esse foi definitivamente o que eu mais ouvi em 2020. Dei o primeiro play no dia do lançamento, ouvi tudo do início ao fim, embasbacado, e quando acabou voltei pro início e dei play de novo.

Sete anos sem vir com um trabalho novo e quase vinte anos após aquele primeiro disco que todos nós lembramos, os "salvadores do rock" voltaram com tudo. Finalmente. Um disco que faz ressignificar, inclusive, os três anteriores. Sim, porque esse álbum me fez voltar a ouvir a discografia da banda e dar uma nova chance para aqueles que eu não gostei de jeito nenhum e quer saber?, agora penso diferente. Todos são uma parte do caminho, do processo, do percurso de uma banda que foi lançada como uma das mais importantes do mundo, formada por garotos de vinte e poucos anos que tiveram que se virar com essa pressão dia após dia, show após show, disco após disco.

Quando os Strokes surgiram, eu estava lá. Quero dizer, eu estava aqui, mas estava ligado lá. Na época ainda existia a MTV e foi assim que vimos centenas de vezes o clipe de Last Nite. E foi assim que esperamos os próximos. Room On Fire era um disco tão bom quanto o primeiro; First Impressions of Earth tinha seus momentos mas trazia novidades que soavam estranhas; Angles não parecia mais os Strokes, pelo menos não aquele que a gente conhecia; Comedown Machine manteve essa impressão; e então anos depois eles mandam The New Abnormal, uma evolução com um som diferente mas conectado ao estilo que fez a gente se apaixonar. Todos da banda estão tocando o seu melhor, com destaque para Julian e seu talento como vocalista que facilmente o coloca como uma das melhores vozes do rock.

Com The New Abnormal eles oferecem algo melhor do que os jovens que os seguiam poderiam esperar. Estrelas de rock finalmente velhas o suficiente para poder refletir sobre aqueles bons velhos tempos — e sábios o suficiente para nos dar a trilha sonora que esses novos tempos merecem. Enfim o amadurecimento. Por isso que os trabalhos anteriores acabam ressignificados, porque fica evidente que fazem parte do processo de chegar onde eles agora estão.

Preferidas: Todas.