Lincoln no Limbo de George Saunders

15 de dezembro de 2020

Literatura

Levei quatro anos para começar, mas quando abri as primeiras páginas de “Lincoln no Limbo” tive que me segurar para não terminar a leitura em um só dia.

Eu disse quatro anos porque tô com esse livro na lista desde quando foi lançado, em 2017.

Embora considerado difícil, “Lincoln no Limbo” foi bastante saudado pela crítica e levou o prêmio Man Booker Prize, o mais importante da literatura deles lá. E esse foi um fator a mais para o meu interesse. Naquele ano a relação dos finalistas ao prêmio era de altíssimo nível. Escritores consagrados como Paul Auster, Arundhati Roy, Ali Smith, Zadie Smith e Colson Whitehead, fizeram de 2017 um dos mais difíceis na história da premiação, desde 1968. Havia um consenso na imprensa e na internet de que Auster levaria o prêmio com facilidade, após sete anos sem publicar, seu livro estava sendo muito bem comentado. Portanto, quando foi anunciado o vencedor, todos ficaram surpresos. Apesar de George Saunders ser reconhecido como um grande autor, inclusive com outros prêmios, “Lincoln no Limbo” era o primeiro romance da sua carreira, ele tinha até então publicado quatro livros de histórias (não gosto da palavra contos, parece diminutivo), um estilo que não é visto com o mesmo apreço da narrativa longa, mas que é o meu favorito como leitor. Por isso, fiquei curioso para conhecer a obra.

Penso que toda leitura é uma espécie de encontro, e o fato de ter levado quatro anos para esse encontro acontecer é determinante, pois se tivesse lido antes com certeza teria tido um efeito diferente em mim.

Vamos começar pelo início.

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Saunders teve a ideia para esse livro durante uma visita a Washington, quando conheceu a cripta onde Willie Lincoln, filho do presidente Abraham Lincoln, foi sepultado. Nesta ocasião ele ouviu uma história que o marcou profundamente: por mais de uma vez, Lincoln pai foi ao túmulo abrir o caixão para ver e abraçar o corpo do filho.

Ele ruminou esta ideia por 20 anos, pois não se sentia pronto ou maduro o suficiente para lidar com um assunto tão pesado. Um livro cujo tema é a morte, portanto, a vida, e brinca com perguntas como O que acontece quando a gente morre? A gente sabe que morreu? E o que é morrer?

Vinte anos! Após esse tempo ele finalmente concebeu uma trama que começa justamente com o falecimento precoce de Willie, aos 11 anos de idade, provavelmente de febre tifóide, e seu pai deprimido invadindo o cemitério para tirá-lo do caixão e abraçá-lo. A narrativa é em grande parte contada por “fantasmas” que habitam o cemitério, ou melhor, o “bardo”, um local que é uma espécie de limbo, onde os mortos ficam presos, incapazes de “seguir em frente”.

Dois deles se destacam. Hans Vollmar, senhor que morreu em um acidente ridículo, e o jovem Roger Bevins III, que cortou os pulsos. São estes dois os protagonistas que vivem no bardo juntos de outras criaturas, todas elas acreditando que não estão mortas e esperam a visita de seus parentes para poder retornar. O tempo que cada um passa neste espaço é diferente, depende do apego que ainda sentem em relação às suas vidas passadas, podendo levar alguns dias ou muito anos até que ocorra o fenômeno da conversão matéria-luz, um evento temido por todos.

Com o passar da história vamos descobrindo um pouco sobre como esses fantasmas morreram, quem foram em vida, por que se encontram ali, até que enfim cruzam o caminho do jovem Willie e se impressionam com o carinho despendido pelo seu pai: é possível haver um amor tão grande assim?

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Durante um desses talk shows americanos, o apresentador pergunta para o ator Keanu Reeves o que ele acha que acontece depois que morremos. Keanu respira fundo, reconhecendo o potencial de piada contido na resposta, mas topa com um caminho mais sincero e bonito, por isso antológico. “O que eu sei é que as pessoas que nos amam, sentirão a nossa falta.”

Esta questão é um dos primeiros dos pontos emotivos do livro. Lincoln também está em seu bardo particular. Não no pós-morte, mas no fato de ter de enfrentar a própria continuidade da vida sem o seu filho mais querido. Sentimos a tristeza da perda profunda de Lincoln e, tendo a oportunidade de acompanhar o que o fantasma do pequeno Willie pensa, graças à ficção, sentimos a saudade que o filho sente de uma relação que nunca mais terá.

A morte de Willie torna-se uma revolução entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos. Abraham Lincoln vira a ponte que os mortos têm com o mundo real. Os fantasmas percebem que o mundo caminhou sem eles. O país está atravessando um dos momentos mais violentos da história, quando morreram mais americanos do que em qualquer outra guerra que o país tenha participado, a escravidão divide a nação e os negros estão finalmente conquistando espaço social, e que aquele homem triste e querido tem responsabilidade nisso tudo.

A estadia da criança no bardo desencadeia um problema, que não vou contar para evitar spoilers, e os fantasmas têm que agir rápido para conseguir resolver uma missão de salvamento (a morte na morte).

O limbo criado por Saunders se parece com o pátio de um hospício, múltiplo e desordenado, cheio de personagens absurdos e alucinados, e falta a todos a capacidade de decifrar precisamente seu sentido e propósito.

Por muitas vezes é possível nos vermos como os fantasmas, sozinhos em um mundo cujo sentido e funcionamento não é possível de ser simplesmente decifrado; e medrosos, querendo ajudar os outros mas não sabendo muito bem como podem ajudar a si mesmos.

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Não acredito que um livro provoque o mesmo efeito em todo mundo, mas este comentário estaria incompleto se eu não dissesse o quanto essa leitura me comoveu e me emocionou. Li com o peito apertado, chorando, rindo, torcendo, me sentindo aflito dentro de uma narrativa de intenso magnetismo.

O coração do livro é propor que a vida é cheia de dor, prazer, sofrimento, desejo, e é a única coisa que temos ao mesmo tempo que podemos perdê-la num piscar de olhos.

Uma queda de bicicleta durante um passeio numa bela manhã pode ser fatal; um jarro de barro que cai do décimo andar e acerta a cabeça de quem caminha na calçada; um elevador que não está lá quando se entra; uma janela aberta; uma bala perdida; a vida está sempre por um fio e todo minuto pode ser o último, Bum!, estávamos lá, não estamos mais, acabou, fim.

Há um belo monólogo em que um dos fantasmas enumera as coisas que lembra da vida. São fotografias de instantes banais, coisas que acontecem ou passam pela gente e jamais diríamos que fariam tanta falta assim. A gente vive coisas tão intensas e acreditamos que são esses momentos que serão lembrados. Mas a vida é mais. O gosto do café pela manhã; o som da chuva no jardim; o frio na barriga quando vemos a pessoa por quem estamos apaixonados; chorar no cinema; chegar ao fim de um livro que nos fez companhia por horas e dias.

Eu disse que os quatros anos que levei adiando a leitura foram cruciais para meu envolvimento com o livro, certo? É que durante este tempo passei por temas tratados na história, doença, perda, morte, balanceamento da vida. Se tivesse lido antes, talvez não tivesse me acertado em cheio como me acertou. Literatura tem disso. Todo leitor é co-criador da história. O livro que li/criei é sobre a coragem, seja de viver ou de morrer, é a coragem de seguir em frente. O contrário disso é pior que a morte.