Lovecraft e Houellebecq contra o mundo

04 de setembro de 2020

Terminei ontem de ler o livro ensaio do Houellebecq sobre Lovecraft, “H. P. Lovecraft - Contra o mundo, contra a vida”. Não consegui dormi sem terminar de ler. O desenvolvimento das ideias de Houellebecq são impressionantes. Desde o fim de 2019 que tenho mergulhado no universo do Lovecraft, um autor que conheci tardiamente e que me fez chegar em estados mentais que não têm mais volta.

Lovecraft, o grande mestre do terror, aquele que nas palavras de Stephen King “permanece insuperado como o maior expoente do horror clássico”. O criador do personagem icônico Cthulhu, um nome adorado na cultura pop e uma influência sobre todo mundo: do escritor argentino Jorge Luis Borges ao cineasta Guillermo del Toro, sem falar de um número incontável de bandas de rock e designers de jogos.

Além de ler os principais textos da sua obra, li também os que o influenciaram, uma penca de autores obscuros (outros nem tanto, como Edgar Allan Poe) que escreveram contos de terror de tirar o sono. Li também a biografia escrita pelo S. T. Joshi, excelente para conhecer mais profundamente os motivos que o fizeram criar sua obra. O que Lovecraft criou com sua literatura foi um pensamento filosófico materialista, pessimista e cético, e é nisso que o livro ensaio do Houellebecq se concentra.

Algumas passagens memoráveis:

“Quando amamos a vida, não lemos. Tampouco vamos ao cinema, aliás. Não importa o que se diga, o acesso ao universo artístico está mais ou menos reservado àqueles que estão um pouco fartos dela.”

Como também:

“Evidentemente, a vida não tem sentido. Mas a morte tampouco. E essa é uma das coisas que congelam o sangue quando se descobre o universo de Lovecraft.”

E por último:

“Ninguém jamais pretendeu seriamente continuar a obra de Proust. De Lovecraft, sim. E não se trata somente de uma obra inferior colocada sob o signo de homenagem ou de paródia, mas, verdadeiramente, de uma continuação. O que é um caso único na história da literatura moderna.”

Namore alguém que escreva um livro sobre você como Houellebecq escreveu sobre Lovecraft. Vou reler com certeza. Mas, enfim, não pretendia escrever muito sobre Lovecraft aqui, só queria registrar que ele está no mesmo patamar de Kafka, Tchecov, Dostoiévski, etc.

Antes disso eu tinha lido “O Náufrago” e a primeira coisa que penso em dizer sobre isso é que é um livro crucial para todo e qualquer artista. Falei um pouco disso aqui.

Vi ontem também o David Blaine subindo aos céus em sua performance Ascension, mais uma que ele cria para desafiar a morte. O cara subiu há mais de vinte mil metros pendurados em balões e tudo foi transmitido ao vivo pelo Youtube. A câmera girava ao seu redor e eu passava a mão na cabeça com a respiração presa. Uma coisa que a vida adulta me trouxe foi medo de altura. Quando jovem eu não tinha isso, escalava montanhas, me debruçava sobre precipícios, mas hoje mal posso olhar para baixo do alto do nono andar de um prédio que já me causa vertigem. Acompanhar David Blaine pendurado por nada mais além de cordas, solitário, numa altura que nem um helicóptero poderia alcançar, me provocou calafrios. Intenso, bonito, e “crazy” como ele falou diversas vezes entre as nuvens.

Por que ele fez isso?

A pergunta não está aqui à toa. Ainda estou mentalmente ligado ao livro que acabei de lançar e nele há uma história (mais pro final do livro) chamada “Diálogo Infinito” onde dois escritores conversam e aqui está um trecho do papo:

— Por que você acha que um escritor escreve?

— Pra ganhar dinheiro é que não é.

— Com certeza não.

— Para obter reconhecimento popular, também não.

— Ninguém nunca parou um escritor num shopping para pedir um autógrafo.

— Esse é aquele tipo de pergunta truque.

— Pergunta truque?

— Perguntas que possuem um milhão de respostas. Tipo, qual o sentido da vida?

— Por que um homem escala uma montanha?

— O homem sobe a montanha porque a montanha esta lá.

— O artista faz a obra de arte porque ela não está lá.

Não tenho acompanhado a política e nem mais a saúde do país. Não sei mais quantos mortos, nem o que Bolsonaro e família estão fazendo. Já faz um tempo isso. Nesta quarentena não teve nada que eu me dedicasse mais do que à arte. Enquanto isso nos grupos do whatsapp e nas redes sociais, amigos e conhecidos seguem dia após dia compartilhando e se indignando com o país se acabando. Me refugiei na minha caverna, cheio de livros, filmes e discos e é isso que tenho feito todos os dias para viver. Nem a treta sobre o imposto nos livros eu procurei entender o que era ou ler opiniões sobre. Nada. Ignorante por um lado, porém mais esperto com as coisas que escolho saber, conhecer, estudar. A vida não tem sentido mesmo.

Vai chover.