Na boa companhia

26 de dezembro de 2020

Literatura

Além de passar álcool e lavar bem as mãos, ler foi uma das coisas que mais fiz em dois mil e vinte.. Um ano atípico, difícil, mas que trouxe reflexões que não surgiriam do nada.

Nos últimos meses os livros me fizeram companhia e me mantiveram no prumo em meio ao isolamento, me salvando da angústia e da solidão que foi comum a todos.

Não só os livros, é verdade. A música também foi uma parceira constante. E cursos — de desenho, de escrita, sobre o universo dos livros e da arte. Até publiquei um. No final de agosto, lancei “Pessoas Extraordinárias”, um álbum com dez histórias, e me alegra muito receber mensagens de leitores que também se sentiram acompanhados com elas.

Porque para mim um dos aspectos mais fascinantes da literatura é permitir o acesso à mente dos outros, inclusive daqueles mortos há muito tempo.

Os livros que li esse ano foram como amigos que estiveram aqui comigo em casa.

Com eles fui para muitos lugares, para o passado e para o futuro. Fechado em casa eu fui longe. Li certa vez que livros são como cartas que recebemos de amigos. Cartas que podem ser lidas por séculos e amigos que podem ser qualquer um.

No livro “A Desobediência do Escritor”, que publiquei em 2017, coloquei uma frase dita por Laurence Durrell na epígrafe. Foi assim: “Eu não acredito que alguém lê para escapar da realidade. Uma pessoa lê para confirmar a realidade que ela sabe que está ali, mas que ainda não experimentou”

O chavão de que a literatura é uma fuga da realidade pode até ser verdade, no entanto, quando lemos um bom livro, esse livro volta e nos faz olhar pro mundo e investir no mundo de maneira completamente nova. As leituras que fiz neste ano me deram coisas, influenciaram minhas ideias.

No “Desobediência…” tem um ensaio chamado “Ler e Escrever na Era da Internet” e nele contei da minha relação com a leitura:

Passei a adolescência carregando livros para todos os lugares. Muitas vezes era visto com mais de um, alterando um título mais denso com um mais leve, uma ficção com uma não ficção, lendo em praias, restaurantes, lanchonetes e bares. Acompanhado pelos livros eu não reconhecia a solidão, embora passasse muito tempo sozinho.

Ainda neste ensaio, escrevi:

Logo depois da Primeira Guerra Mundial, Freud começou a usar a literatura durante suas sessões de psicanálise, prescrevendo livros para soldados que voltavam traumatizados da guerra. O ensaísta Tzvetan Todorov, autor do A literatura em perigo, explica que a literatura lhe ajuda a viver:

“Ao invés de excluir as experiências vividas, ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com estas experiências e me permite melhor compreendê-las. (…) a literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo. Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e mais belo. Longe de ser um simples entretenimento, uma distração reservada às pessoas educadas, ela permite que cada um responda à sua vocação de ser humano”.

Lembro-me dos livros que me marcaram e do momento em que os li. Sei quais foram importantes para a minha formação intelectual e emocional, quais me ajudaram a questionar e refletir o mundo, a entender as pessoas e a me entender.

Ler é uma das minhas atividades favoritas. Além de ser muito divertida, a leitura me ajuda a entender a existência. Não estou sozinho nessa, quem já experimentou o prazer de ler um bom texto reconhece a sensação. Os antigos gregos colocaram na entrada de uma livraria em Tebas a inscrição “espaço de cura da alma.”


***


A literatura ajudou a inspirar conquistadores, a fundar religiões e sociedades, a registrar e difundir o conhecimento de várias épocas, de diferentes lugares. E também ajudou a denunciar os horrores do mundo, como no livro do Primo Levi, Anne Frank e outros autores que vivenciaram os horrores da guerra e da opressão.

Essas histórias moldaram, sim, nosso mundo, sociedade e política.

Mas e hoje? Com índices tão baixos de leitura, os livros continuam influenciando mudanças?

Acho que os livros têm potencial de continuar operando influências significativas sim. Não mais a produção literária de antes sobre homens em crise, a potência está nas histórias não contadas, ou que foram pouco exploradas, ou colocadas à margem. Existem muitos leitores e profissionais empenhados em fazer da literatura algo transformador. Se o nome de Conceição Evaristo tem circulado, e também do Itamar Vieira Júnior, Angélica Freitas, Jarid Arraes, Geovani Martins, Carlos Eduardo Pereira, é sinal de que essa força continua viva. Essa é a literatura que ainda pode ensinar muito e transformar a sociedade atual.

Ler não te faz melhor do que ninguém. Mas ler te faz ser melhor do que você mesmo. Ler dá perspectiva, vocabulário, ideias e companhia. Um bom texto aumenta o nosso mundo e nos faz sair do senso comum. Mergulhar em histórias é viver de forma ampla.

Em 2020, esse ano bizarro, os livros me encheram de alegria.

Me inspiraram.

Aprendi muito com eles.

Me fizeram viver mais.