O Náufrago

20 de julho de 2020

O livro que estou lendo no momento é “O Náufrago”, do Thomas Bernhard. É o primeiro que leio deste autor austríaco que deixou uma obra polêmica que inclui dezenove novelas e dezessete obras teatrais entre outros escritos. Sempre foi considerado um escritor “perigoso” em seu país e, mesmo depois de sua morte em 1989, sua obra é vista com controvérsias. Isso porque ele nunca poupou nos adjetivos ao falar mal da Áustria, em textos provocadores sobre sua cultura e sociedade.

“O Náufrago” é uma de suas novelas mais aclamadas. É sobre um gênio. E sobre ser gênio. O pianista Glenn Gould. Na verdade é sobre o encontro entre três pianistas: o narrador do livro, Wertheimer e Gould. Na verdade é sobre a morte, a de Gould e o suicídio de Wertheimer. Os três se conheceram quando jovens em uma escola de música e logo se uniram na obsessão pela música. É justamente essa obsessão que os separa na fase de amadurecimento. Tanto Wertheimer quanto o narrador abandonam o piano ao perceberem a virtuose de Glenn Gould. Os dois caem em uma melancolia que define suas vidas quando compreendem que nunca poderiam se igualar ao amigo genial.

“De fato, não há nada de mais medonho do que ver uma pessoa tão grandiosa que sua grandiosidade nos aniquila, ter que assistir a esse processo, suportá-lo e por fim acabar inclusive por aceitá-lo, ao mesmo tempo em que na verdade não acreditamos num processo desses, não enquanto ele não se torna para nós um fato irrefutável, (…) quando então já é tarde demais.”

O narrador conta sobre o destino dos três, com especial foco no amigo Wertheimer que, ao descobrir-se “sem talento para a música”, impotente diante de Glenn Gould, entrou num processo de naufrágio, até se matar. O livro é um profundo monólogo sobre a arte e a psicologia do artista, sobre a mentira/verdade que é a arte.