Sobre Pessoas Extraordinárias

30 de agosto de 2020

No final do ano passado decidi que havia chegado a hora de publicar um livro com minhas narrativas de ficção. Elas existiam por diversos motivos. Alguns foram escritos para teatro, outros para serem lidos em rodas de leitura ou encomedados para fazer parte de coletâneas e publicações. De todo modo, esses textos não foram escritos inicialmente com o objetivo de serem publicados em livro. Eu estava satisfeito trilhando um caminho na escrita de não ficção, com ensaios, crônicas, reportagens, entrevistas, roteiros de documentários, deixando a ficção para… o pessoal da ficção.

Mas esses textos existiam, e eu sempre gostei bastante deles. Então no final do ano passado tive a ideia de juntar tudo em uma publicação.

Inicialmente iria se chamar “Histórias Reais” (uma brincadeira com o fato de até então ter trabalhado majoritariamente com… histórias reais), e quando estava revisando tudo percebi que era um material muito heterogêneo, alguns textos longos, outros textos bem curtos, outros só de diálogos, enfim, juntos poderiam acabar se tornando uma miscelânia de coisas perdidas.

Gosto de imaginar que livros de contos são como discos, cada história como uma faixa de um todo. Não gosto daqueles que são um compilado de tudo o que o autor escreveu durante um tempo. O livro tem que ter um conceito. Por isso fiz um recorte com o que se apresentou como um tema em comum entre todos: eu tinha um porção de histórias com personagens que flutuavam no meio artístico, profissional ou não, diretamente ou indiretamente.

Depois decidi que o livro deveria ser composto por dez histórias. Dez histórias, como um disco com dez músicas (até pensei em separar entre Lado A e Lado B, mas seria cafona demais). Revisei e reescrevi tudo ao longo de meses até que percebi que estava chegando meu aniversário e por que não repetir o que havia feito em 2016, quando lancei o Canibal Vegetariano neste mesmo dia? Seria uma boa ideia, afinal, se tem uma coisa que detesto, além de comemorar aniversário, é fazer lançamento de livro. Fico aflito. Tinha feito um recentemente, lançado “A Desobediência do Escritor” em 2019, foi legal e tal, eu estava feliz, mas por dentro estava agoniado. Não queria repetir isso tão cedo. Aproveitaria o confinamento da quarentena e lançaria logo o livro, assim não teria que fazer lançamento presencial depois.

Portanto hoje é o lançamento de “Pessoas Extraordinárias”.

Todas as dez histórias de “Pessoas Extraordinárias” se passam no mesmo cenário: a bolha artística do Rio de Janeiro. Não existe nenhuma outra cidade no Brasil que emana a aura de glamour e charme do universo artístico como essa. Glamour e charme que não passam de ilusão e romantismo do imaginário da profissão. São histórias sobre personagens que estão às voltas com um dilema constante: qual o limite entre arte e vida? O que a arte tem a dizer ao mundo contemporâneo? E nós ainda queremos ouvir?

Não sei se é correto dizer isso, mas este é um livro de que gosto muito. Ao contrário de tudo o que publiquei antes, lançar histórias que viviam dentro de mim é uma experiência alucinante. Quem escreve ficção conhece a sensação de alienação que se pode chegar ao conviver diariamente, por tanto tempo, com ideias dentro de si. É uma espécie de loucura, não posso pensar diferente. Agora me sinto até aliviado. Chega. Acabou. Agora posso caminhar até a padaria sem pensar em Helena, Alonso, Ramiro. Posso deitar no travesseiro sem tentar pensar como fechar o quebra cabeça de um enredo. Eles estão livres de mim. Eu estou livre deles. Chega. Agora chegou a hora de abrir a porta de casa para ver como eles se comportam por aí, se eles se encaixam em alguém, se fazem sentido, se podem dizer alguma coisa. Criar correspondência. Pois é isso o que os livros fazem.

O livro está sendo lançado primeiramente na versão digital e em breve estará também disponível uma versão impressa. Acho que os livros estão se tornando um pouco o que se tornaram os vinis. Há vantagens e desvantagens nisso. O formato possui características adequadas ao momento quarentena: portátil, mais barato, tiragem ilimitada, disponível para o mundo todo e você começa a ler imediatamente no celular, tablet, computador ou kindle. Só não falo que é ebook porque também não digo que é emusic nem emovie quando ouço música ou vejo filmes nas plataformas digitais. Você ainda pode baixar uma amostra grátis e conferir se vale o rolê.

Comprando agora na Amazon, você começa a ler agora mesmo.