Um guia para os perplexos

31 de janeiro de 2020

Tive um professor de teatro na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras) que dizia que o maior problema da maioria dos atores do século XXI é que “eles não lêem nada.” Ele julgava que a falta de leitura prejudicava os atores no exercício de empatia necessário para poder interpretar vidas totalmente diferentes das suas. Durante as aulas o professor lia trechos de livros e explicava porque um ator faria um trabalho mais crível ao interpretar um assassino se, por exemplo, tivesse lido Crime e Castigo. Eu olhava para os meus colegas e percebia que eles não davam muita importância, “por que vou perder meu tempo lendo um livro longo desses se nesse mesmo tempo eu posso assistir dezenas de filmes?”, perguntava um. O professor virava os olhos, rosnava e respondia que esses jovens atores deviam se achar sábios da vida para desperdiçar todo o tempo assistindo filmes imbecis e se preocupando demasiadamente com suas aparências.

Lembrei disso ao ler trechos de uma entrevista com o cineasta Werner Herzog em que ele responde qual conselho daria para um jovem cineasta: “Leia, leia, leia, leia, leia. Aqueles que lêem são donos do mundo.”

Não preciso nem dizer o quanto concordo com esses dois ensinamentos. Meu professor sabia que não há aula de interpretação que substitua a imersão psicológica de entrar na cabeça da personagem de A Paixão Segundo G.H. O conselho de Herzog amplia o benefício da leitura aos diretores de cinema e é claro que o mesmo serve para qualquer tipo de artista, qualquer tipo de profissão, qualquer tipo de pessoa.

Alimento com bastante afinco uma lista na Amazon com os livros que ainda não li e gostaria de ler. Costumo acessar essa lista pelo menos uma vez na semana pois com bastante frequência as versões digitais dos livros entram em promoções por tempo limitado. Foi em uma dessas promoções que na semana passada comprei por R$ 27,50 o livro Werner Herzog: A Guide for the Perplexed. O livro impresso importado está custando R$ 113,10 mais o frete (na Travessa não sai por menos de R$ 248,90). Comprei o livro pelo celular e comecei a ler no mesmo instante sentado em um café de Botafogo onde parei para me proteger da chuva repentina. O livro é um daqueles projetos “Fulano por Fulano”, onde o artista do título esmiuça, através de longas entrevistas, os processos e as motivações do seu trabalho. A Guide for the Perplexed apresenta várias entrevistas em que Herzog conta sobre o princípio da sua carreira até suas últimas produções (o livro foi publicado em 2014). As respostas são repletas de histórias interessantes sobre seu processo criativo, me forçando a parar a leitura o tempo todo para destacar trechos.

Não importa se você não viu todos os seus filmes, ou apenas os mais famosos, ou mesmo nenhum. Ler estas entrevistas são como “conversar” com uma das mentes mais fascinantes do nosso tempo e desfrutar cuidadosamente de suas singulares reflexões. Lendo-o expondo seus interesses e obsessões é muito inspirador. Herzog fala de tudo e parece ter entusiasmos ilimitados — arte, música, literatura, ciência, história — possui uma inteligência astuta e uma memória extraordinária ao relatar histórias sobre esses assuntos. Ele é frequentemente citado como rebelde ou louco, mas o que fica claro é que ele possui uma poderosa capacidade de organização aliada a uma criatividade que é tão disciplinada quanto expansiva.

Falando sobre seus anos de formação, Herzog se descreve como um autodidata que nunca se sentiu à vontade numa escola e costumava questionar seus professores:

“Eu sempre tive mais interesse em aprender sozinho. Se eu quero aprender alguma coisa, não penso em fazer uma aula. Faço pesquisas e leituras por conta própria ou procuro conversar com especialistas. Tudo o que nos obrigam a aprender na escola, logo esquecemos, mas as coisas que nos propusemos a aprender — para saciar a nossa curiosidade — nunca são esquecidas e inevitavelmente se tornam uma parte importante da nossa existência.”

O cinema é apenas um veículo para suas ideias e não um fim ou um interesse em si mesmo. As histórias que ele compartilha sobre a criação da sua extensa e variada obra são muito mais sobre disciplina e dedicação, encontrar um caminho na desarmonia, uma companhia no abandono, e sobreviver à relacionamentos malucos do que sobre como filmar uma cena do jeito certo, com a câmera certa, no ângulo certo, ou como fazer seus atores interpretarem do jeito que se estava imaginando. E aí concordo novamente com ele. Os desenhos que faço são apenas um meio onde o que eu escrevo ganha forma. Não sou um desenhista, nem nunca estudei desenho, não me importo se estou fazendo do jeito certo, minha atenção está em outra camada. O mesmo serve para todos os trabalhos que desenvolvo no teatro, no cinema, na internet. O que me importa é o conteúdo — e muitas vezes o próprio conteúdo é a forma.

Por várias vezes, durante o livro, Herzog repete seu famoso conselho

para cineastas: Leia. Ler é primordial para a expansão interna dos nossos sentidos e experiências, fatores que devem ser fundamentais para um artista.

“Leia, leia, leia, leia, leia. Aqueles que lêem são donos do mundo; aqueles que mergulham na internet ou assistem televisão demais, perdem o mundo. Se você não ler, nunca será um cineasta. Nossa civilização está sofrendo feridas profundas por causa do abandono generalizado da leitura na sociedade contemporânea.”

Herzog fala muito sobre escrever seus roteiros com uma sensibilidade literária, muitas vezes abandonando a estrutura de um roteiro tradicional para escrever as cenas em prosa. Ele se diz convencido de que Conquista do Inútil, o diário que escreveu durante as turbulentas filmagens de Fitzcarraldo (publicado no Brasil pela Martins Fontes) é mais importante do que todos os seus filmes. Afirma também que seu trabalho favorito é o livro Caminhando no gelo (publicado pela Paz e Terra), que escreveu também em forma de diário, contando sua jornada andando por dias no frio de Munique à Paris para encontrar uma amiga que estava em estado terminal.

“Eu suspeito que minha verdadeira voz emerge mais claramente através da prosa do que do cinema. Acredito que seria muito melhor como escritor do que sou como cineasta.”

Aqui novamente nos encontramos nas ideias. É na escrita de não ficção onde me sinto mais instigado. Trabalhar com o real é mais fascinante para mim do que conjurar um mundo imaginário. Uma das premissas para este trabalho acontecer é se colocar em movimento para que se possa encontrar materiais sobre o que escrever.

Herzog explica:

“Meu conselho para quem quer trabalhar contando histórias é: dirija-se para onde o mundo real está. Arregace as mangas e trabalhe em um clube de sexo ou em um asilo ou como operador de máquinas em um matadouro, dirija um táxi por seis meses, caminhe a pé, aprenda idiomas e um ofício que não tenha a ver com cinema. A produção cinematográfica — como a grande literatura — deve ter experiência de vida em sua fundação. Leia Conrad ou Hemingway e você pode dizer o quanto a vida real está nesses livros. Muito do que você vê nos meus filmes não é invenção; é muito a própria vida, minha própria vida.”

Uma citação parecida, agora vindo de um grande escritor de ficção, foi o que Jorge Luis Borges respondeu em uma entrevista um ano antes da sua morte:

“Não criei personagens. Tudo o que escrevo é autobiográfico. Porém, não expresso minhas emoções diretamente, mas por meio de fábulas e símbolos. Nunca fiz confissões. Mas cada página que escrevi teve origem em minha emoção.”

Um livro é uma extensão da memória e da imaginação. A matéria prima de toda obra de arte é a vida. Isso não quer dizer que você precisa roubar um banco para que possa escrever sobre isso. Não precisa sair de capa e espada nas ruas cortando as cabeças das pessoas. Para isso existe a literatura.