Bob Dylan - Uma nova manhã

19 de setembro de 2019

No terceiro capitulo das memórias contidas no livro “Crônicas: Volume 1”, Bob Dylan escreve sobre a sua luta, no final da década de 60, para se desvencilhar da imagem de líder da sua geração. Ele tinha em torno de 25 anos e já havia composto canções que eram consideradas hinos de uma juventude que lutava por revoluções sociais quando o jornal britânico Melody Maker publicou uma carta que uma de suas fãs escreveu o intitulando de o “novo messias”, explicando que jovens como ela poderiam aprender mais com Bob Dylan do que com Jesus Cristo. Pouco depois ele foi chamado de Judas e “traidor” durante um festival de música ao trocar o violão acústico por uma guitarra elétrica e tocar acompanhado por uma banda. Esses dois exemplos ilustram bem os perigos da idolatria, que desconsidera as contradições humanas para cultuar a fantasia de um personagem, especialmente no caso dele, considerado ícone das canções de protesto, cujo público tem pouca tolerância com quem pensa diferente das suas convicções políticas.

Veja você, enquanto hoje muitos de nós vivem a famigerada disputa por likes, numa compulsão por reconhecimento, chegando a uma postura servil em relação à opinião dos seus seguidores, Dylan, que provavelmente recebeu a maior coroa de todas (não é todo mundo que é seriamente chamado de “o Jesus Cristo da sua geração”), rejeitou suas condecorações. É uma prova da sua inteligência.

Em uma de suas primeiras apresentações nos festivais de folk de Newport, antes de entrar no palco, Dylan foi introduzido assim: “E aqui está ele, vocês o conhecem, peguem-no, ele é de vocês!” Parece uma frase banal, fácil de ser escutada em shows ou programas de TV, mas leia de novo, repare bem. “Vocês o conhecem. Peguem-no. Ele é de vocês.” Então um garoto de vinte e poucos anos entra sozinho no palco, acompanhado apenas do seu violão e gaita, e canta letras escritas durante madrugadas escuras em seu quartinho na cidade grande. “Ele é de vocês.”

No terceiro capitulo, intitulado “New Morning”, Dylan revela: “Aquelas pestes da imprensa continuavam a me promover como o porta-voz, o representante ou mesmo a consciência de uma geração. (…) Eu tinha muito pouco em comum com a geração da qual supostamente era a voz e a conhecia menos ainda.”

O final dos anos 60 foi recheado por uma energia de fúria que se assemelha muito aos dias de hoje. As cidades caíam em caos, a polícia perseguia minorias, manifestantes arrebentavam vidraças, estudantes tentavam se apoderar das universidades, ativistas lutavam por direitos, novos esquerdistas queriam derrubar a economia enquanto a guerra no Vietnã ia metendo os EUA em depressão. Os testes de ácidos seguiam a todo vapor, os livros sobre o misterioso xamã Don Juan entravam nas listas de mais vendidos, novas ondas espirituais ganhavam adeptos, uma nova visão de mundo tomava a sociedade no embate contra instituições conservadoras, políticos eram assassinados, ideais fascistas ressurgiam nos gabinetes, tudo se movia rápido, em ritmo acelerado, e a grande imprensa incitava tudo numa onda de que a notícia não podia parar. Parecia que a cada dia havia um novo tumulto em alguma cidade, tudo à beira do perigo e da mudança.

“Os fatos do momento, toda a mistificação cultural, estavam aprisionando minha alma, me enojavam”, Dylan escreve em seu livro e enumera “direitos civis e líderes políticos abatidos a tiros, as barricadas nas ruas e os deslizes do governo, estudantes radicais e manifestantes enfrentando os tiras e os sindicatos, as ruas explodindo, a raiva em plena ebulição, os anticomunistas, as vozes mentirosas, ruidosas, o amor livre, o movimento anti-sistema financeiro, o sistema todo… Eu estava decidido a me posicionar além do alcance de tudo aquilo.”

A revelação pessoal e confessional que foi exposta muitos anos depois em seu livro é reveladora do seu amadurecimento precoce, “Agora eu era um homem de família, não queria me vincular àquela imagem de grupo.” Jamais seria possível ele dizer isso na época, primeiro porque talvez ele não tivesse percebido tão claramente assim, segundo porque seria árduo demais que seu público soubesse disso.

Em 1966 Dylan sofreu um acidente de moto na estrada próxima ao seu sítio em Woodstock. A partir daí uma névoa encobriu os meses seguintes, os médicos iam lhe atender em casa, ele não deu nenhuma entrevista, a imprensa não conseguia lhe alcançar, não há nenhum registro, uma foto sequer dele com a perna ou o corpo enfaixado. Neste capítulo ele confessa que se aproveitou da recuperação para se recolher e se desvencilhar da imagem de ídolo que foi construída sobre ele. Seu plano era sair dos holofotes para que o povo se esquecesse dele. Plano que não foi fácil de concretizar. Ele escreve que o mais complicado foi lidar com os fãs que invadiam a sua casa clamando para que ele reassumisse o seu posto de messias.

“A verdade é que eu queria sair daquela corrida de ratos. Ter filhos mudou minha vida e me isolou de todos e de tudo o que estava acontecendo. Fora de minha família, nada possuía real interesse para mim, e eu estava vendo tudo através de lentes diferentes.”

Cinco anos depois dessa reclusão (ele gravou cinco discos nessa época), Dylan retornou aos palcos com a tumultuada turnê Rolling Thunder Revue, que acabou se tornando uma das turnês mais importantes da sua carreira e da história da música pop. As apresentações desta turnê mudaram o conceito do que era um show. Até então, um show era um músico ou uma banda no palco reproduzindo suas canções como nos discos. Em Rolling Thunder Revue, Dylan promovia uma bagunça, dividindo o palco com inúmeros amigos músicos, colocando Allen Ginsberg e Patti Smith recitando poesias, havia trocas constantes de figurinos, uso de máscaras, todo um jogo de cena que foi redefinindo o que era conhecido como show.

Seu plano inicial era fazer apresentações em lugares que não costumavam receber concertos de música deste porte — um salão de jogos de baralho, uma reserva indígena, etc. Se sentindo muito à vontade ao lado dos amigos no palco, em lugares inusitados, os shows muitas vezes chegavam a três ou quatro horas de duração.

Definitivamente ele não queria mais ser associado ao Bob Dylan messias. Se pudesse, teria mudado até de nome (novamente). Nos shows, Dylan começava cantando usando uma máscara, depois tirava a máscara e revelava seu rosto pintado com uma tinta branca, como se estivesse usando a máscara de Bob Dylan. Numa entrevista onde recorda as apresentações desta turnê, ele diz: “Alguém usando uma máscara pode dizer a verdade; já alguém sem uma máscara, é muito menos provável que diga.” Acontece que o rosto pintado era ao mesmo tempo uma máscara e não era, porque o efeito era uma máscara de si mesmo.

Sempre ardiloso, servindo-se da figura do impostor, Dylan no Rolling Thunder Revue era muitas coisas: cantor folk, estrela de rock, líder de banda, poeta, manifestante, ator, mestre de cerimônias, herói, romântico, humorista, coringa. Além das roupas e da sua performance no palco, atrás da máscara de tinta branca, seus olhos estavam bem abertos e viam tudo. Ele era muitas coisas mas sobretudo era uma manifestação do seu tempo.

E fazia uma das coisas mais difíceis de se fazer quando se vive em um mundo tão confuso e caótico como esse: seguir seu próprio coração.

Em uma de suas músicas que mais gosto, “To Ramona” (de 1964), ele crava: “De contratos, poderes e amigos / Sua angústia se origina / Te manipulando / Te fazendo sentir / Que você deve ser exatamente como eles.” E por fim aconselha: “Everything passes / Everything changes / Just do what you think you should do.”

Como ser mais preciso?