Zuithitsu

17 de setembro de 2020

Zuithitsu é um gênero literário japonês que consiste em uma mistura de ensaio pessoal, aforismos e ideias fragmentadas relacionadas com a vida de quem as escreve. A palavra vem da junção de duas outras: “à vontade” e “caneta”. Assim, os textos derivados disso devem ser considerados não exatamente como textos literários, quero dizer, planejados, estruturados, coerentes para expressar uma ideia, mas sim como pensamentos casuais registrados aleatoriamente.

Nenhum desses textos que escrevo e lanço na newsletter ou por aqui são feitos para ganhar cliques. O que mais gosto das newsletters é que elas não obedecem aos parâmetros das redes sociais. Não é que eu esteja escrevendo para mim mesmo — se estivesse, guardaria isso numa gaveta e não enviaria por aqui — mas se trata de uma busca por comunicação destacada do rush do algoritmo de engajamento (curtidas, visualizações, comentários).

Prefiro e-mail ao instagram. Prefiro e-mail ao twitter. Prefiro e-mail ao facebook. A satisfação que tenho em escrever a newsletter e os posts no meu site (uma coisa acaba dando na outra) é maior do que de todas as outras coisas que faço. Mais até do que se eu tivesse uma coluna num jornal. Talvez mais até do que publicar um livro. É melhor me expressar por aqui do que por tweets ou posts no facebook ou instagram.

Não sou da geração que nasceu com internet, portanto ainda sinto um certo desconforto ao gravar uns stories. Não é algo natural para mim. Mesmo que não pareça, no fundo tenho um certo constrangimento em ficar falando para a câmera do celular. Além disso, o que são àquelas coisas que gravamos por lá? Qual o objetivo? Se conectar com as pessoas? Pois me sinto mil vezes mais conectado com o autor de um livro do que com a pessoa que gravou um story.

Sinto que as coisas que escrevo por aqui são como um desenvolvimento do meu trabalho. Um pequeno texto lançado pode não ser nada por si só, mas publique dez, vinte e logo isso terá um tamanho suficiente para ser um projeto. Esse é o meu caderno de esboços, meu estúdio e minha vitrine. É o mesmo que faço quando anoto pensamentos nos meus cadernos, só que aqui no computador e com outras pessoas lendo. Nem sempre começo um texto sabendo exatamente o que quero dizer. Escrevo para descobrir, para pensar melhor. E, sobretudo, pelo prazer.

Essa é uma das características de se trabalhar com a escrita. Cada vez que acho que descobri como escrever, descubro que, na verdade, acabei de descobrir como escrever o que acabei de escrever e não tenho ideia de como escrever a próxima cena, a próxima história ou o próximo livro.

E isso tem a ver com desenho também. Como não sou um desenhista profissional, acabo desenhando simplesmente pelo prazer.

Um dia desses estava me sentindo ansioso e angustiado e então peguei meu lápis e caderno e comecei a desenhar. Passei vinte minutos desenhando livremente, sem nenhuma ideia preconcebida, apenas fazendo o que me viesse à mente (ou o que o lápis quisesse desenhar) e após esses vinte minutinhos eu já estava me sentindo melhor.

Escreva ou desenhe como parte do processo de tirar algo que está dentro de você e colocar para fora. Mesmo que isso pareça com uma daquelas dicas de autoajuda, descobri isso por experiência própria. Se estiver angustiado, ao invés de ficar rolando o dedo no instagram ou no twitter, pegue um caderno e comece a escrever, desenhar, rabiscar qualquer coisa. Até desenhar o Bozolixo serve.

Tem um ensaio no novo livro da Zadie Smith, “Intimations”, chamado “Something To Do”, no qual ela reflete sobre o por quê ela escreve. Zadie chega a uma conclusão muito simples: É algo para fazer. Pode não parecer mas esse “algo para fazer” é muita coisa. Durante a quarentena ela percebeu que não podia “não” escrever. Era preciso fazer isso quase que todos os dias. Se não escrevesse, algo permaneceria crescendo dentro dela que ia dia após dia lhe tornando numa pessoa pior. Então ela entendeu: “Escrever me ajuda a lidar com a realidade”.

Não estou dizendo que agora todo mundo deve ser escritor ou desenhista ou sei lá o quê, mas que ache aquilo que pode ser feito, seja fazer um bolo, lavar a louça, recortar imagens numa revista, mas algo que possa ser feito com as mãos e que não seja nem uma obrigação e nem esteja ligado à um objetivo ou propósito maior. Simplesmente algo pra fazer que possa ser feito.