A influência do grupo

26 de setembro de 2021
Podcast

Quando eu tinha uns quinze anos, eu frequentei algumas vezes um clube de xadrez na minha cidade, interior da Bahia. Acontecia nos finais de semana, e lá passávamos as tardes estudando e jogando, às vezes aconteciam uns campeonatos internos. Obviamente eu não era o melhor jogador, senão provavelmente não estaria aqui hoje, ou talvez ainda assim estivesse aqui hoje, porque você sabe como é, mas eu era esforçado, jogava relativamente bem, e vencia algumas partidas. Havia um garoto, especificamente, que eu vencia sempre, ou quase sempre. Ele sempre queria jogar comigo, eu gostava de ganhar dele, claro, mas depois de um tempo cansei de jogar com ele porque era fácil. Adolescência. Normal. Até que ele sumiu, deixou de aparecer no clube, não sei o que houve, sumiu sem dizer pra onde nem por que. Os encontros seguiram, novas pessoas entraram, outras foram embora, normal. Até que um dia, meses depois, esse garoto reapareceu no clube. E claro, perguntou se eu não queria jogar com ele. Arrumamos o tabuleiro e começamos uma partida rápida de dez minutos pra cada um. Ali pelo meio do jogo eu percebi que estava indo mal, mas podia me recuperar. Até que enfim vi que estava com uma posição muito trancada, difícil de desenvolver, o garoto tinha conseguido armar uma estratégia que me deixou sem saída. E eu perdi o jogo. Fizemos piadas e decidimos jogar outra. Perdi de novo. Jogamos mais uma e eu perdi outra vez. Daquele dia em diante esse garoto ganhou de mim a maioria das partidas e eu nunca mais tive o mesmo resultado de antigamente contra ele.

Comecei a me perguntar o que teria acontecido. Como poderia aquele garoto, que eu vencia tão facilmente antes, agora me vencer com a mesma facilidade? Quando perguntamos se ele estava tendo aulas com professor, se tinha viajado e aprendido na Rússia, ele respondeu que não tinha feito nada demais, apenas ficou em casa estudando, analisando jogos e treinando. Mas ninguém conseguia acreditar, achávamos que ele estava escondendo algo.

Essa história voltou à minha cabeça esses dias após ler sobre um antigo estudo coordenado pelo psicólogo suíço Anders Ericsson, onde ele, ao lado de seus colegas pesquisadores, resolveram entender o que dava um grau de excelência a um profissional (como vencedores extraordinários conseguem ser tão incríveis no que fazem?). Foi uma pesquisa extensa de muitas etapas, e o que resume bem a conclusão em que chegaram é uma comparação entre três grupos de violinistas da Academia de Música de Berlim.

Os pesquisadores pediram para que os professores da Academia de Música dividissem os estudantes em três grupos: os “melhores violinistas”, os “bons” e os "médios". Em seguida pediram para que todos eles registrassem suas rotinas de prática em diários. O resultado foi que todos treinavam bastante, mas havia uma coisa que diferenciava os melhores dos restantes. Os violonistas considerados melhores passavam mais tempo treinando sozinhos. Pois quando treinavam sozinhos podiam trabalhar suas fraquezas, ou o que gostavam mais de fazer, se tornando melhores nisso.



* * *


Eu conheço pessoas que têm horror de estudar sozinhos. Que dizem render muito mais quando estão em grupo ou na companhia de uma ou duas pessoas. Dizem que quando estão sozinhos acabam procrastinando mais, afinal, porque não ver mais um episódio daquela série ao invés de trabalhar, né? Por outro lado, eu penso que em grupo tem mais conversa, fofoca, brincadeiras, que também podem dispersar. Nada contra o ócio criativo nem em fazer um trabalho mais relaxado e divertido com amigos, claro.

Não sei se você já ouviu falar em Brainstorm. Se você trabalha com entretenimento ou publicidade, com certeza sabe o que é. Brainstorm é um modelo de exercício criativo feito em grupo onde ideias são lançadas sem precisarem estarem prontas, apenas o que vier na cabeça.


O Brainstorm tem quatro regras:

1. Não julgue ou critique ideias.

2. Seja livre. Quanto mais louca a ideia, melhor.

3. Vá pela quantidade. Quanto mais ideias, melhor.

4. Construa em cima de ideias de outros membros do grupo.


A técnica é feita por quem acredita que o trabalho em grupo produz mais e melhor do que o trabalho solitário.

Na teoria ela pode ser muito boa, e até na prática pode servir para iniciar projetos ou resolver problemas específicos, mas se for usada como processo principal de criação, surgem alguns problemas. Vou citar três que costumo perceber quando faço em salas de criação, salas de roteiro, etc.

O primeiro é que algumas pessoas acabam relaxando e deixando os outros fazerem o trabalho. O segundo é pouco foco, pois só uma pessoa pode falar de cada vez, algumas vezes a ideia que um deu acaba sendo descartada ou nem prestam atenção porque outro alguém começou a falar depois. Já vi boas ideias serem descartadas porque algum outro integrante começou a falar mais alto, chamando mais atenção. Quem consegue se explicar melhor acaba se destacando. O terceiro problema é o mais clássico, o medo da avaliação, pessoas que suam frio quando têm que falar suas ideias, que travam mesmo, tem medo de parecer burro na frente dos colegas ou do chefe.

Eu sou um pouco assim.

Quem não é?


* * *


Aí estamos falando de uma coisa que acredito que a maioria de nós já passou na experiência de estudar ou trabalhar em grupo.

No início de 1950 um outro psicólogo, Solomon Asch, conduziu uma série de experimentos que ficaram famosos. Já li sobre isso em diversos livros, possivelmente você conhece também, ou soube por algum lugar.

Seu estudo ficou conhecido como Experimentos de conformidade de Asch - tem página no Wikipedia e tudo.

Asch mostrou a um grupo de voluntários, uma imagem com três linhas de tamanhos diferentes. Depois fez perguntas comparando uma linha com a outra "Qual é a mais longa?” Depois mostrou uma quarta linha e perguntou “Qual das 3 linhas combina com essa?" e por aí vai. Suas perguntas eram tão simples que no primeiro dia, 95% dos voluntários responderam a todas as questões corretamente.

No outro dia, Asch fez o mesmo teste, só que dessa vez colocou atores infiltrados entre os voluntários. Os atores tinham que responder, interpretando bastante confiança, as respostas erradas. O resultado final desse dia, do número de pessoas que deram as respostas corretas despencou de 95% para 25%.

O que aconteceu? Será que a percepção dos tamanhos das linhas tinha sido alterada pela pressão dos atores? Ou os voluntários tinham dado respostas erradas propositalmente por medo de parecerem errados?

Esse experimento gerou muitos debates na época e durante décadas vários estudiosos tentaram decifrar essa questão.

Mas só recentemente, no início dos anos 2000, através da tecnologia de escaneamento do cérebro, cientistas conseguiram chegar mais perto de uma conclusão. O experimento de Asch foi repetido, só que dessa vez com um aparelho de ressonância magnética fotografando o cérebro dos voluntários enquanto realizavam o teste.

Os resultados foram ao mesmo tempo desconcertantes e esclarecedores.

A pergunta que tinha ficado no ar naquela época era se as pessoas respondiam errado mesmo sabendo que estavam erradas.

Mas os resultados apontaram que não. A área do cérebro que trabalha essas questões é a relacionada à tomada de decisões, pois havia uma decisão ali a ser feita: escolher ou não escolher a resposta errada mesmo sabendo que ela não é a correta.

Entretanto, a ressonância demonstrou pouca atividade cerebral nesta área, e bem mais atividade cerebral na área associada à percepção.

Bem, esses voluntários que responderam errado (designados como conformistas pelos pesquisadores) demonstraram pouca atividade cerebral na área relacionada à tomada de decisões e mais atividade cerebral nas áreas associadas à percepção.

Ou seja, foi que a pressão dos atores infiltrados que influenciou ou modificou a visão de todos sobre a questão.

Os pesquisadores chegaram à conclusão de que os grupos podem realmente influenciar nossos julgamentos.

Se o grupo pensa que a resposta correta é X, é muito provável que você também acredite nisso. Não é que você pense conscientemente “Não tenho certeza, mas todos eles acham que é X, então vou segui-los”. Você também não está dizendo “Quero que todos eles gostem de mim, então vou fingir que a resposta é X”. Não, você realmente acredita que a resposta correta é X.

Agora pense nisso.

Pense em todas as suas crenças, tudo o que você acredita que por acaso se parece com o que seus amigos ou familiares acreditam.

Muitas das nossas mais importantes instituições públicas, de eleições e tribunais, júris de julgamentos à própria ideia de quem deve ser o líder da maioria, dependem dessa influência sob o coletivo. Como lidar com o fato de que essas escolhas coletivas são na verdade mais vulneráveis do que a gente pensa?

Os brainstorms mais produtivos de que participei aconteceram recentemente, online, pois foi possível que todos colaborassem ao mesmo tempo, até de forma anônima, sem que ninguém julgasse a colaboração de ninguém. Aliás, é assim que desenvolvedores e programadores vêm trabalhando há anos em projetos de código aberto, como Linux ou em plataformas colaborativas como a Wikipedia.

O que estou querendo dizer com tudo isso? Trabalhar em grupo é imprescindível, sem o coletivo nada acontece. Mas é importante que no grupo exista quem pense diferente da maioria e que essas diferenças também sejam ouvidas.