A voz da escrita: você sabe com quem está falando?

10 de março de 2021

Arte

Quando eu era mais novo eu pensava que o escritor sentava para escrever e de repente tudo escorria direto pro papel, o texto pronto do jeito que a gente lê nos livros. Eu achava que a tal voz narrativa vinha como que naturalmente, que o Saramago sentava pra escrever e aquele texto já vinha pronto, pois ele era aquilo, aquilo era ele.

Só fui desmistificar essa ideia quando comecei a escrever profissionalmente e percebi o quanto de trabalho e de exercício é necessário pra escrever um texto, tenha ele 100 páginas ou 1 parágrafo.

O trabalho do escritor se parece mais com o de um escultor que lapida na pedra um desenho.

Nossa forma de escrever pode ser afetada por inúmeras referências, técnicas e demandas. A forma como nos expressamos varia de acordo com o momento em que vivemos e com a natureza do trabalho.

Por exemplo: um texto ensaístico possui uma liberdade mais ampla do que um texto informativo de jornal, que precisa de objetividade e esclarecimento de fatos. Uma monografia exige cuidados pontuais com citações e referências diferentemente de uma crônica que não se compromete com a exatidão dos acontecimentos.

Na internet, um texto focado em otimização para buscadores demanda a observação de inúmeros detalhes – como a repetição de determinadas palavras-chaves e a criação de subtítulos. Um post escrito para uma rede social, por sua vez, pode incluir emojis e deve cativar mais do que informar, porque o objetivo é gerar engajamento.

Outra técnica muito utilizada em livros, filmes, séries e na internet é a do Storytelling, que pode se desenvolver de inúmeras formas como a clássica “jornada do herói” que trata-se da trajetória de um personagem que tem um trauma e que passa por desafios e, no fim da história, encontra uma solução e as supera.

O que quero dizer com tudo isso? Que, se falarmos em formatos de escrita, a lista é praticamente interminável. E, ao longo da vida escrevendo, a gente passeia por muitos desses formatos, nos deparamos com muitos deles e acho ótimo ter um repertório, conhecer técnicas diferentes, dominar habilidades variadas.

Estudei todas as que citei acima. Jamais direi que foi desnecessário ou perda de tempo. Gosto de mergulhar nos mais distintos caminhos de escrita e estilos literários. Tudo acaba se misturando, influenciando, e sendo usado. Ter uma noção mais ampla me faz produzir um texto para um cartum, outro para a legenda do post do cartum, outro texto para a newsletter, outro para um livro.

O mais importante nisso tudo é a prática. Cada formato possui características tão profundas que a gente pode passar anos estudando, mas não adianta nada fazer mil cursos diferentes e nunca colocar nada em prática. Porque é a prática que desenvolve a linguagem e que desmistifica aquilo que eu dizia no início, de que eu achava que o texto ia sair pronto. Me frustrei muitas vezes no início pensando que bastava sentar e escrever, mas o texto não vinha, ou vinha uma coisa horrível, jamais daria aquilo para alguém ler, e eu pensava nossa como sou péssimo, e desistia. Não, o texto não sai pronto. Hoje eu penso que escrever é editar, ou re-escrever.

Além disso, melhoramos muito a partir dos feedbacks que recebemos. Só que para obter esse feedback é preciso começar a mostrar o trabalho.

É na prática que também vamos transcender todas essas técnicas e formas, tornando a escrita menos mecânica, criando o nosso fluxo de criação e assim, a voz narrativa.


* * *


Toda vez que sinto que um texto está travado, não sai do lugar, ou quando estou com bloqueio, tem uma pergunta que me salva: para quem estou escrevendo? Esta pergunta e a sua resposta são o meu truque.

Um texto escrito para sua mãe será diferente do texto para seu antigo colega de escola, ou para o ex-namorado, ou para o pessoal do trabalho novo. Por isso é bom ter essa pergunta colada na primeira página do caderno: Para quem estou escrevendo? Começar qualquer texto com ela.

Hoje em dia existem recursos tecnológicos que mapeiam os seus seguidores nas redes sociais, ou seja, seus leitores. E eles podem variar dependendo do meio ou da plataforma. Por exemplo, os leitores da minha newsletter são diferentes dos do instagram, que são diferentes dos seguidores do Twitter. Por isso o conteúdo que publico em um lugar é diferente do outro.

É claro que, apesar dessas ferramentas darem uma análise do perfil de seguidores, é preciso muitas vezes imaginar esse leitor ideal, que é como se chama.

Principalmente quanto mais seguidores tivermos. Se já é diferente escrever para 10 de escrever para 50, imagina para 100 mil! É muito mais difícil. O que facilita é justamente sintetizar esse público em Um imaginado.

Essa técnica é muito usada no mercado mas pouco se fala disso no meio literário. Um roteirista de série do Netflix, por exemplo, não começa a escrever uma linha sem saber para qual público ele está se dirigindo.

É claro que a gente não precisa dos recursos de análises de seguidores ou a gente pode optar por não ter essas informações na hora de escrever um romance, por exemplo — às vezes nem dá para ter. Qual o leitor ideal do meu romance autobiográfico? Ou da minha newsletter pessoal? Não é preciso seguir esse modelo de mercado, quero dizer, tratar uma criação artística pensando no seu público alvo. Não é disso que estou falando, pois não estou falando do texto como um produto, mas como processo. Enquanto processo, pensar no leitor ideal pode direcionar a escrita até mesmo quando for escrever um poema. Aí é que está. Às vezes, ou na maior parte dos casos, esse leitor ideal é uma versão da gente mesmo.

Alguém vai dizer “Mas tem autores que conseguem imprimir uma única voz narrativa em todos os seus livros”. No início eu falei do Saramago e ele é um autor que tem um estilo que está presente na maior parte da sua obra. Assim como ele tem muitos. Rubem Fonseca. Jorge Amado. Clarice Lispector. Lygia Fagundes Telles. Julio Cortázar, Susan Sontag, Lydia Davis, meu deus, tantos.

E se estipulou que ter esta voz única e marcante é sinal de que é a pessoa é uma autora. A sua autoria está nesta voz.

E eu entendo isso e em muitos exemplos acho isso impressionante. Como por exemplo os filmes do Wes Anderson. Mas ele também tem o seu espectador ideal. O Tarantino já disse que faz os seus filmes pensando nele mesmo quando jovem como espectador.

Ou seja, alguns desses autores têm uma referência fixa de leitor ideal e, não importa o meio para onde vão escrever, estarão sempre mandando uma carta para este leitor. Vladimir Nabokov dizia que tudo o que escrevia era para sua esposa, Véra. A gente pode até supor que tudo o que Kafka escreveu ou foi para o seu pai (como está claro em seu texto “Carta ao pai”) ou para ele mesmo, já que o destino da maioria dos seus textos era a gaveta ou o fogo.

Os ensaios do David Foster Wallace tem semelhanças com suas ficções, claro, mas são bem diferentes. Enquanto sua ficção é experimental, difícil, sua não ficção é direta e mais afetuosa. A verborragia está lá, o excesso de informação também, mas são diferentes. Enquanto ele escrevia seus livros para um leitor familiarizado com o pós-modernismo americano, com boa bagagem literária, seus ensaios foram escritos para revistas de cultura e comportamento, com leitores bem diferentes dos da sua ficção.

Um escritor não precisa ter vozes narrativas diferentes, ele só precisa saber para quem está escrevendo. Pode ser a mesma voz para uma coluna no jornal, um post no twitter, um roteiro de um filme, um conto num livro, o que importa é para quem, nem que seja para ele mesmo. Eu acredito que é isso que vai determinar o tom do texto.

Isso muda tudo.

Saber para quem vai ser escrito é o que vai definir o DNA da linguagem


* * *


Pois bem, agora faz muito sentido você perguntar... Quem é a leitora ideal que está na minha cabeça quando escrevo este texto?

E a resposta é… você.

Mas sobre isso eu falo em outro momento.