Criação coletiva dos Beatles

22 de dezembro de 2022
Arte

Se tem uma coisa que sinto falta no processo de escrita de um texto é a criação coletiva que experimentei no teatro e na música. Foi por isso que criei o ORNITORRINCO há anos atrás, um bando de escritores juntos escrevendo como numa sala de redação. A gente escrevia separadamente mas depois cada um dava pitaco no texto do outro, contribuindo direta e indiretamente na escrita. Durante os anos em que existiu, esse coletivo era uma escola pra gente, de escrita e de ideias. Ainda hoje gasto minha cabeça pensando em como poderia tornar a escrita num processo menos solitário.

Pensei muito nisso enquanto assistia Get Back, série documental que mostra o processo de composição e gravação do dois últimos discos dos Beatles. É um presente de natal antecipado, o filme, dirigido por Peter Jackson, é um compilado restaurado a partir de mais de 60 horas de imagens inéditas filmadas em janeiro de 1969, além de mais de 150 horas de áudio nunca antes ouvidas. As músicas eram criadas e arranjadas ali na hora, com todos colaborando juntos, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr trabalhavam com muito esmero, camaradagem, carinho e bom humor.

O jornalista Tom Whitwell escreveu um artigo listando dez lições sobre criação coletiva a partir do que percebeu no documentário, e isso revela bastante sobre o processo dos Beatles. 

Vou trazer aqui as três que mais gostei.


A regra do "Sim... e"

A regra de ouro do brainstorm e da improvisação é "Sim... e". Quando alguém sugere uma ideia, uma frase, uma nota, um caminho, você aceita e acrescenta algo que leve a ideia adiante. É assim que funciona a técnica de improviso no teatro. Quando alguém diz "não" o fluxo é quebrado e paralisamos.

No documentário, enquanto John e Paul estavam testando arranjos para Don't Let Me Down, George quebrou o feitiço. Em vez de aceitar a proposta e construir em cima, ele disse "Eu acho isso horrível." Imediatamente, John e Paul respondem: “Bem, você trouxe alguma outra coisa?” “Você tem que inventar algo melhor”.

Às vezes a ideia tá uma merda mesmo, mas ao invés de amassar tudo e jogar fora, pode ser melhor tentar explorá-la mais, avançar com o que se tem. As ideias acabam se transformando.

Abrace acidentes

Na letra de All Things Must Pass, George escreveu numa folha de papel “A wind can blow those clouds away”, mas John entendeu errado a letra do amigo e cantou "A mind can blow those clouds away”... que soa muito mais interessante e foi o que acabou ficando.

Esses acidentes inesperados são parte da mágica da criação. Meu filho de 4 anos chama duas amiguinhas dele de "mandosas". Ele quer dizer que elas são mandonas, mas faz uma junção dessa com maldosas, criando uma palavra original que diz mais do que a gente pensa.

Uma conversa de cada vez

Uma das coisas mais interessantes de perceber durante o processo dos Beatles é como todos respeitam a opinião dos outros. Ninguém fala por cima de ninguém, ninguém interrompe o outro. Todos têm a chance de ser ouvidos, o que significa que as pessoas passam a maior parte do tempo ouvindo, em vez de falando (Paul fala mais que os outros, é verdade).

Essa é uma lição que me fez lembrar dos grupos de teatro e dos grupos de estudo de que fiz parte, em como é produtivo um ambiente onde as pessoas conseguem falar e se escutar ao invés de estarem gritando ideias.

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Se quiser saber as outras lições listas pelo Tom Whitwell, clique aqui.

Sigo pensando aqui em como tornar a criação literária em um processo menos solitário. Estou pensando em propor um coletivo assim, mas ainda não tenho nenhuma ideia definida. Se você tiver alguma ideia por aí, aceito conversar alegremente.