Beethoven acima de todos

16 de abril de 2021

Música

"A luta é a marca fundamental na vida de Beethoven", explica Thierry Fischer, regente titular e diretor musical da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Catei essas aspas no ensaio escrito pelo também maestro Arthur Nestrovski, diretor artístico da Osesp, pra edição 175 da revista Piauí. Essa frase, dita hoje, durante a pandemia, ganha um significado valioso.

A força desta luta está presente no belo ensaio "Música acima de tudo, Beethoven acima de todos" de Nestrovski. Ele relata como a orquestra se adaptou aos tempos de isolamento social, afirmando que o período serviu para algumas lições, entre elas, a de ter disposição para mudar o que estava planejado. "Nos tornamos mais flexíveis: conosco, com os outros."

Gosto bastante dos textos do Arthur Nestrovski, ele fala sobre música clássica com uma generosidade, uma paixão e um cuidado como se ela não fosse a coisa estranha que é para a imensa maioria de nós. Em 2019 lançou "Tudo Tem a Ver: Literatura e Música", coletânea de ensaios produzidos ao longo de mais de trinta anos de carreira. Sua voz narrativa é sempre clara e é como se contasse as coisas sorrindo.

Eu não conheço nada de música clássica, não faço ideia o que seja o Concerto para Piano Número 2 ou a Oitava de Bruckner, mas a forma como ele explica é de uma força literária maravilhosa que me faz entender sem nem precisar ouvir.

Em 14 de março de 2020 a Sala São Paulo foi fechada por causa da pandemia. Naquela época ninguém podia prever que a situação se deteriorasse tanto. Mas os músicos e a equipe não pararam. Os concertos passaram a ser apresentados online, como tudo.

Ele revela os bastidores das dificuldades do funcionamento da orquestra neste período. Nestrovski conta que um concerto com uma orquestra de mais de 93 integrantes quase foi cancelado porque um (repito: um) pianista estava com suspeita de covid. Numa banda de 4 integrantes, se o baterista se machuca, chama um amigo para substituí-lo e pronto, tá feito.

Para não ter que cancelar o evento, Nestrovski optou por mudar a programação em cima da hora, sugerindo os Quatro Interlúdios Marítimos da ópera Peter Grimes (de 1945) do compositor inglês Benjamin Britten. Seu talento narrativo em contar sobre algo que a maioria de nós desconhece é sedutor:

"É uma peça incrível, cujo percurso nos leva do alvorecer numa praia cheia de pássaros até a noite enluarada, quando, finalmente, irrompe uma das mais extraordinárias cenas de tempestade jamais compostas. Além da poesia da paisagem em forma de sons, os Quatro Interlúdios também retratam uma comunidade litorânea e fazem um mergulho na alma de um pescador violento, injustamente acusado de supostos crimes de natureza veladamente sexual. São dois temas caros à imaginação de Britten: a homossexualidade -- que ele jamais assumiu, mas também não escondeu -- e o que o próprio compositor definiu como 'a luta do indivíduo contra as massas'".

Não sei você, mas depois dessa descrição eu fiquei louco para ouvir esses Quatro Interlúdios.

Eles nunca produziram tantos vídeos como em 2020. E também nunca tiveram tanta audiência. No total seus vídeos foram vistos mais de 10 milhões de vezes. Em fevereiro deste ano a live com a Primeira e Quinta Sinfonias de Beethoven, ambas regidas por Thierry Fischer, foram vistas por mais de 15 mil espectadores, o equivalente a dez vezes a lotação completa da Sala São Paulo.

"Curioso que uma tecnologia dessas, tão nova e cheia de frescor, tão rapidamente se torne instrumento banal, do dia a dia. Muito do que nos encantava há poucos meses agora parece velho e sem charme", escreve Arthur Nestrovski. "Alguém deveria refletir sobre essa veloz preterização do futuro, que parece uma das marcas de um período sem presente."

A pandemia nos fez lidar com coisas que nunca havíamos imaginado. Ou melhor: nunca havíamos tentado. É claro que há o desgaste em atravessar desafios, mas também é algo que nos leva avante.

Para muitos, uma orquestra encarna ideais de vida comunitária. E é sobre isso que temos pensado nos últimos tempos, não é mesmo? Como pensar menos em mim e mais nos outros? Nestrovski conta quando um violonista que jamais teria tocado a Sonata de Kreutzer tendo apenas 48 horas para se preparar teve que fazer isso pelo coletivo, para não deixar a orquestra parar.

Penso na luta da vida de Beethoven. Ficou surdo e isso, por mais trágico, dramático e terrível, não o impediu de continuar compondo e de criar músicas que se tornaram suas obras primas.

"A luta é a marca fundamental na vida de Beethoven", explica Thierry Fischer. "Sua noção de vitória não significa sucesso. Sua noção de vitória é: nunca desistir. São coisas muito diferentes. Isso é arte."


Link para o ensaio completo do Arthur Nestrovski.

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Este texto rendeu um episódio no podcast: Caderno 06 - Beethoven e a luta. Você pode escutar no seu aplicativo preferido ou aqui.