Cinco Exercícios de Criação

16 de março de 2021

Literatura

Recebo com frequência perguntas sobre meu processo criativo. Por alguma razão o meu último livro “A Desobediência do Escritor” foi recebido como um guia sobre o processo de se tornar escritor.

Consigo entender a razão disso. Afinal, em resumo, é um livro sobre a formação da confiança criativa de quem, menos por escolha e mais por maldição, adentra o caminho da criação literária. Daí que recebo comentários de pessoas dizendo que queriam escrever mais, pedindo dicas e conselhos de como seguir na carreira artística.

Pra começo de conversa não existe uma carreira artística. Um médico se forma, começa a atender pacientes e até onde sabemos não haverá o dia em que as pessoas deixarão de ficar doentes. Já o artista pode, de um dia pro outro, perder o interesse em continuar criando coisas ou, até pior, ter um bloqueio criativo por bastante tempo.

Eu não tenho apenas um processo criativo. São diferentes os processos de escrever um texto e fazer um cartum. Como acho que já falei bastante sobre escrita no livro, vou me ater à criação artística de modo geral aqui.

Com o tempo fui coletando alguns exercícios que pratico e que passo para alunos em oficinas que dou aqui e ali. Aqui vão cinco:


1. Olhe por mais tempo: Escolha três obras, pode ser pinturas, desenhos, até posts no Instagram. Olhe para cada um deles por dez minutos. O que mais você percebe que escaparia da sua atenção se olhasse rapidamente? Perceba os detalhes. Anote suas novas impressões.

2. Cinco minutos: Uma página em branco e uma caneta. Marque cinco minutos no cronômetro do celular. Escreva, desenhe, invente qualquer coisa por cinco minutos, sem parar. Não pode parar pra pensar, checar o celular, responder alguém. Só termine quando o relógio apitar. Você pode repetir o mesmo com 3 minutos, 2 minutos, ou 10 minutos.

3. A história dos objetos: Escolha três objetos em sua casa, dos mais banais aos mais especiais, o que tiver ao seu alcance, e escreva comentários ao seu respeito. Escova de dentes, chaveiro, caderno. Não é para descrever, mas sim para contar histórias que essas coisas te fazem lembrar.

4. Fazedor de capas: Crie capas de obras que você gosta. Pode ser a capa de um disco, de um livro, de um filme, qualquer coisa, você pode desenhar ou fazer uma colagem digital com as imagens que catar na internet.

5. Veja arte em todo lugar: Simplesmente olhe para uma coisa e declare para você mesmo que aquilo é uma obra de arte. Passe a olhar e observar qualquer objeto como observa uma obra de arte. Duchamp agradece.


Ok, por enquanto está bom, já dá para brincar um monte com essas cinco dicas.

No entanto, a melhor dica que pode se dar é: muito provavelmente um monte de porcaria vai sair como resultado desses experimentos. E tudo bem. É isso mesmo. É importante experimentar sem se preocupar se está fazendo certo. Se dê a chance de fazer. Faça um desenho ruim. Escreva um texto merda. O importante é fazer pois é possível corrigir um texto mal feito, mas não é possível corrigir uma página em branco.