Como publiquei meus livros

15 de julho de 2021
Literatura

A partir das experiências que tive posso dizer que os caminhos de publicação de um livro podem ser por três vias: independente; pequena editora; ou grande editora. A terceira opção é a mais desejada, mas não quer dizer que seja a melhor. Vou tentar descrever aqui um pouco das minhas impressões.


Quando publiquei por uma pequena editora

Enviei o manuscrito do meu primeiro livro para a editora Oito e Meio através de um amigo que tinha publicado por eles. Em poucos dias recebi um e-mail para uma reunião. Apresentei minhas ideias e saí de lá com um acordo para publicação. Carnavália foi lançado em tempo recorde, acho que tudo levou no máximo uns 3 meses, do dia que enviei o manuscrito até o dia do lançamento. O ano era 2011 e as editoras pequenas não possuíam um grande volume de originais para ler, então, além do processo correr mais rápido, elas também tinham um cuidado diferenciado com o material. O livro inteiro ficou do jeito que eu pedi, com capa e ilustrações que eu mesmo fiz. Porém a divulgação e distribuição ficaram mais por minha conta. Valeu à pena porque na época eu era um jovem cheio de energia, emocionado em lançar o primeiro trabalho, portanto disparava e-mails e mensagens para escritores e jornalistas, enviava o livro para eles, o que acabou me tornando reconhecido em uma micro bolha e assim sendo chamado para participar de eventos e rodas literárias.


Quando publiquei por uma editora de médio porte

Na verdade esta foi uma publicação coletiva, uma coletânea das melhores edições do Ornitorrinco, que na época era uma newsletter com vários autores, onde em cada edição eu escrevia o editorial e às vezes uma coluna. Esse livro foi feito às pressas após sermos chamados para participar da Festa Literária de Porto Alegre, em 2013. Alguns autores da newsletter tinham publicado livros pela editora 7 Letras e fizeram a ponte com eles para publicarmos por lá. Organizei todos os textos e enviei para eles, que cuidaram da revisão, edição, diagramação, capa, etc. O livro não chegou a ir para as livrarias, pois era uma edição especial de 300 cópias exclusiva para o evento, assim, poucas almas caridosas possuem em suas estantes. Penso em lançar uma versão digital em breve.


Quando publiquei por uma grande editora

O Ornitorrinco tinha chegado ao fim, ou estava próximo disso, quando comecei a publicar meus textos e desenhos no Instagram sob o codinome de Canibal Vegetariano. Surpreendentemente pra mim a página começou a conquistar bastante seguidores, a repercutir em outros sites, portais e revistas, até que chegou por e-mail um convite da Rocco perguntando se eu tinha alguma proposta de publicação e eu respondi que sim. Mas não tinha nada, nem pensava em publicar tudo aquilo em livro. Durante um final de semana selecionei os posts que considerava mais interessantes de serem registrados em livro (aqueles que não se prendiam a um evento ou momento) e mandei para eles. Eles aprovaram o projeto e em poucos meses Canibal Vegetariano foi publicado, em agosto de 2016. Fizemos lançamentos no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Não participei do processo editorial o que me fez sentir uma certa frieza no processo, como se o livro fosse um produto que estivesse colocando no mercado. O resultado em papel ficou mais aquém do que eu esperava, mas não vou ficar falando mal. Também não acompanhei sua divulgação nem distribuição, quero dizer, o livro chegou nas livrarias de todo o país, isso eu sei, mas as pessoas compravam mesmo porque seguiam e gostavam do que era postado nas redes. Mas eu entendo. Uma editora grande tem muitas demandas, lança vários livros toda semana, não consegue dar a mesma atenção que uma pequena editora consegue, apesar de ter um alcance que esta não tem.


Quando publiquei independentemente

A Desobediência do Escritor saiu em 2019, é uma coletânea dos textos escritos na segunda fase do Ornitorrinco, quando deixou de ser uma newsletter e se tornou um site. As editoras não se interessaram em publicar um material não-inédito, então tive como única escolha a auto-publicação. Me sentia seguro para a empreitada pelo que havia conquistado com os livros anteriores e com as vendas de desenhos do Canibal. Criei um selo fantasma chamado Botafogo Livros (nome do bairro onde moro), revisei, editei, diagramei, fiz a capa (contei com a ajuda de um amigo designer), negociei com a gráfica, produzi o lançamento, promovi, divulguei o livro e enviei cada exemplar pelos correios para compradores de todo país. Fiz absolutamente tudo. O título, aliás, é do ensaio que abre o livro, sobre a necessária obstinação em colocar as coisas no mundo para que elas possam existir. Essa experiência me deu a sensação de ter criado uma obra completa, do início ao fim. Foi tão marcante e prazerosa (inclusive pela troca próxima com cada leitor) que não desejava mais publicar de outra forma senão dessa, e quando comecei a pensar no quinto livro, optei por fazer a mesma coisa.


Quando publiquei primeiro no formato digital

A gaveta estava cheia de textos que eu vinha trabalhando desde a publicação do Canibal Vegetariano. Eram histórias escritas para diversos fins: sites, publicações, teatro, cinema, performances. Passei um tempo olhando tudo e colhi dez histórias que possuíam uma unidade temática que me interessava: personagens artistas e seus perrengues e dei o nome de Pessoas Extraordinárias. Como no anterior, fiz tudo, revisão, diagramação, capa, edição, e na hora de fazer contato com a gráfica, recuei. Meados de 2020, estávamos em pandemia, não poderia fazer um lançamento e nem ir ao correio. Portanto o formato de publicação digital se mostrou perfeito, e foi assim como decidi lançá-lo inicialmente (como aliás, é feito com músicas há bastante tempo e com cinema hoje em dia). Não teve a mesma resposta dos outros livros, claro. O formato digital estava começando a vencer o preconceito dos 10 leitores do país. Isso veio mudando e hoje o livro digital conquistou seu lugar, o que acho ótimo porque é incrível para a autonomia e independência dos escritores, assim como foi a internet. No início de 2021, após receber mensagens de pessoas pedindo uma versão física, disponibilizei o livro impresso por um serviço da Amazon de impressão sob demanda. Fácil, de graça e eficiente. Eu não precisava mais investir do meu próprio bolso, nem armazenar um montão de livros na minha casa (ainda tenho caixas do Ornitorrinco e do A Desobediência do Escritor ocupando minha sala), calcular envio de frete, nem ir aos correios, pegar fila, enviar o livro. Bastava subir o documento para o site que eles cuidavam de tudo. De todos que já publiquei este é o que mais gosto. Talvez por ser o último, alguém pode pensar. Talvez. Percebo nele todos os outros que escrevi, tem ali um pouco de tudo o que fiz harmonizado pelas invencionices da ficção. Mas não é só por isso: de todos os que fiz acho que esse é o que mais une emoção e razão, e isso me deixa contente.

Conclusão

Bom, uma coisa é publicar um livro, outra coisa é este livro ser comprado e lido. Tudo depende de inúmeros fatores como divulgação, a projeção do autor na bolha editorial e literária, sua relação com leitores, e, claro, o interesse que a obra gera por si só.

Se você estiver preocupado com sucesso de vendas, então talvez a melhor opção de publicação nem seja via uma editora, nem livro. "50 tons de cinza" começou sendo publicado em um fórum na internet. "A arte de ligar o f*da-se" surgiu como um post no blog do autor. "Perdido em Marte" foi publicado no formato digital na Amazon por um dólar, vendeu 3 milhões de cópias e foi adaptado para o cinema. O formato digital é perfeito para produção e recepção. Falo sobre isso no episódio "Ler e Escrever na Era da Internet" do podcast.

Como vou fazer com meu próximo livro? Bom, visto que com cada um eu fiz diferente, provavelmente farei diferente também. Não sei. Depende do projeto. Tenho um projeto que ficaria perfeito publicado na web, como um site. Tenho outro que acho que ficaria bem em uma grande editora consolidada e tal. Existem editoras independentes que acho super maneiras, que possuem um catálogo bacana e adoraria publicar por lá.

É importante ser lido, ou melhor, é necessário, mas não deve-se encanar muito se vai ser lido por 10, 20 ou 100 pessoas. Acredito que mais cedo ou mais tarde todo livro encontra seus leitores, mesmo que dure 10 ou 100 anos.

Gostei muito de criar meus livros como um todo, como fiz nos dois últimos (e de certa forma no primeiro). E gosto muito da acessibilidade e conveniência do formato digital. Poder estar em qualquer lugar do mundo, na distância de um clique, por um preço baixo, é a melhor coisa. Quero dizer, eu não tenho mais o fetiche ou a vaidade de ser lançado e chancelado por uma instituição ou empresa, o importante pra mim é que meu trabalho esteja ao alcance de quem quiser encontrá-lo.