Desobedecer para criar

10 de agosto de 2021
Arte

Quando escrevi o ensaio que dá título ao livro A Desobediência do Escritor, eu tinha uma motivação pessoal. Eu estava pensando nos meus amigos ex-artistas. Existem ex-artistas, até mais do que se imagina. José Saramago disse certa vez que não existia carreira de escritor. Que um médico, por exemplo, tinha carreira, pois sai da faculdade e começa a atender um doente, depois outro, e até onde se sabe, nunca vai deixar de haver doentes no mundo. No entanto, um artista da noite pro dia pode deixar de ter ideias.

Sou de Salvador, Bahia, e foi lá que comecei a estudar e trabalhar com arte. Durante muitos anos eu escrevi, atuei, compus diversos trabalhos, muitas vezes em projetos solo, mas na maioria das vezes como integrante de um coletivo. Desde que me mudei para o Rio de Janeiro, em 2007, minha vida se tornou basicamente estudar e trabalhar com a criação artística.

Toda vez que retorno para a Bahia percebo que meus amigos deixaram de fazer arte e estão trabalhando em outras coisas. Em empresas privadas, como funcionários públicos, montaram seus negócios, desempregados, enfim, deixaram a arte de lado. Provavelmente eles estão certos, mas eu voltava para o Rio me sentindo o sobrevivente de um desastre. Pra ser bem exagerado. Mas principalmente sentindo sozinho naquilo que havia começado a fazer com esses amigos. Por quê eu insistia? São inúmeros os fatores que me fazem resistir trabalhando com arte, falo melhor sobre isso no livro.

Nessa minha fase de formação (se é que a gente sai algum momento dessa fase) eu convivi com artistas, músicos geniais, escritores, pintores, e 99% deles deixaram de fazer essas coisas, de pintar, tocar, escrever. Porque é difícil, não posso condenar. Sinto que perdi parceiros e que o país, o mundo perdeu por não conhecerem essas cabeças. Porque elas tinham muitas coisas para dizer e mostrar.

Eu insisto nisso porque sempre que os perguntava porque tinham deixado de fazer arte, as respostas eram mais por fatores externos do que internos. O problema eram as dificuldades de ganhar dinheiro, fazer sucesso, manter um público, se inserir no mercado, encontrar lugar onde pudessem tocar, expor, escrever, etc. Os boletos acabam chegando, contas pra pagar, filhos, etc.


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Quando publiquei meu primeiro livro, Carnavália, em 2011... bom, publicar o primeiro livro é uma sensação estranha. É um momento muito especial para o autor mas não significa nada para o leitor. No lançamento desse livro, minha família veio de Salvador. Meu pai, mãe, irmãos, meus tios. Então no dia do lançamento minha tia me deu um abraço e disse "Que bom! Agora imagina daqui uns tempos a gente te ver na novela, hein!" E eu pensei "Tia! Eu tô lançando um livro! A novela vai acabar, ninguém vai lembrar. O livro está aí para sempre." Eu era jovem e pretensioso, achava que o livro iria mudar a cena literária do país. Mas claro que nada aconteceu.

Uma das perguntas que faço no ensaio do livro é: Que audácia é essa e que permissão eu tenho para me considerar um escritor?

Tem uma frase famosa que diz que uma pessoa só se torna escritor quando publica o quarto livro. Só assim podemos dizer que é um escritor mesmo.

Até então havia publicado um livro de ficção, poesia, um livro de cartuns, e o grosso de material que tinha escrito eram artigos, crônicas, reportagens, críticas para sites e revistas na internet. Eu me perguntava... posso me considerar um escritor? Posso ser chamado assim? De que importa? O que isso quer dizer?

Naquele ano, mais de 20.000 livros foram publicados no Brasil. Alguns foram considerados geniais. Outros foram superestimados. E outros foram injustiçadamente esquecidos. A maioria deles não foram nem lidos. É mais fácil acreditar que ninguém está minimamente interessado no que tenho a dizer, e, considerando o país onde vivemos, com sua baixíssima taxa de leitores, qual a razão para continuar a escrever e querer ser um escritor?

As razões são muitas e diversas e particulares de cada um. A gente até encontra semelhanças entre elas. Mas acho que o que importa é a equação: as razões que te fazem continuar a escrever são maiores do que as que te fazem parar de escrever?

Essa pergunta vale para todo tipo de arte, claro. E se a resposta for favorável à continuidade do trabalho, então isso quer dizer que você tem que desobedecer, desobedecer todas as coisas que te fazem não trabalhar com isso. E isso quer dizer muitas vezes desobedecer ao pai, mãe, família, ao marido, esposa, ao estado, à sociedade, ao país... o que for.

Não se faz arte da noite para o dia e muito menos em um só ato de inspiração. É preciso esforço, cuidado, trabalho, atenção, insistência.

Por isso... a questão do título "A Desobediência do Escritor" é porque... Em um país com a taxa de leitura que temos, com um sistema de educação ainda precário e em progressiva ruína, o que faz uma pessoa parar tudo o que tem pra fazer e sentar pra escrever? Qual a razão (ou a loucura) para continuar a escrever e querer ser escritor? Com tantos convites, bares, praias, festas, filmes, notícias, trabalhos, namoros, famílias, tretas... Todo artista brasileiro quando está criando algo está sendo desobediente a todas às coisas que lhe impedem de fazer arte – e não são poucas.

Desobedecer é o único jeito que o artista tem para existir, se afirmar e potencializar o seu desejo.

E daí acredito que todo esse enfrentamento, essa posição de desobediência deve ser colocada na criação. Criar arte que apresente possibilidades de outros mundos. Quando eu digo "apresentar" não quero dizer apenas objetivamente, não é para fazer arte panfletária, política, a não ser que queira.

Adorno tem um texto fundamental, na verdade uma palestra, que foi publicado com o título de Palestra sobre lírica e sociedade. Nesse texto ele fala em como é que um poema lírico profundamente subjetivo pode ser mais revelador de contradições sociais do que um modelo de arte engajada que trata mais imediatamente do político. Isso porque o poema lírico, ao se centrar mais livremente nos movimentos internos do eu, acaba por se revelar menos ideologicamente comprometido com uma perspectiva política.

Eu acho que ser um artista desobediente é oferecer ao leitor ideias de outras relações com o mundo, com as pessoas e consigo, permitindo a descoberta de novas razões para viver que não sejam essas que hoje são promovidas como as mais interessantes e desejáveis.

Como disse, escrevi esse ensaio mirando primeiro nos meus amigos, tanto os da Bahia como os do Rio, os de qualquer lugar, e querendo me comunicar também com os leitores que conhecia pela internet e os que não conhecia, numa de agitar, de colocar mais brasa. Há inúmeras razões que me fazem não escrever isso novamente, mas eu organizei tudo, deixei de fazer outras coisas, para poder dizer isso daqui. Espero que essa mensagem te acenda alguma coisa.