Disruptivo x Contemplativo

18 de junho de 2021

Internet

A escritora Catarina Dantas me enviou uma questão por e-mail. Pedi solicitação à ela pra compartilhar a pergunta e a minha resposta, pois tem muita gente que se interessaria pelo assunto. É sobre um dilema de trabalho mas também sobre um aspecto da contemporaneidade. Se bater alguma ideia por aí e quiser comentar, fique à vontade para me mandar um e-mail, vou adorar pensar mais sobre isso.

Pergunta

"Oi Pardal! Estou escrevendo um projeto e gostaria da sua opinião para pensar umas coisas. (...) Na internet há um fetiche com o conteúdo disruptivo. Essa é a palavra da moda e é o que gera mais interesse. Olha só os vídeos mais vistos no youtube, os perfis de memes no instagram, nem preciso falar do tik tok. É comum dizer que as novas gerações não têm interesse na profundidade, que só conseguem pegar as coisas em pedaços e que tudo tem que ser divertido e super carismático. (...) Você tem essa pegada disruptiva no seu trabalho de cartuns, mas não nos outros projetos (ou não tanto). No seu podcast, na newsletter ou em teus livros você vai com atenção a um ponto, dedicando mais tempo e análise. Mas será que essa é uma forma old fashion de criar conteúdo? (desculpa o inglês). Você acha que vale a pena investir em um projeto que não seja a fragmentação da moda? Me desculpa se você já tiver escrito sobre isso, pode me mandar o link que eu vou adorar ler. Abraço."

Resposta

Catarina, esse é o dilema de quem tem mais de 30 anos e trabalha produzindo neste oceano internet, como é o nosso caso.

As crianças da internet, aqueles que nasceram e cresceram já com acesso ao digital, parecem de alguma forma entediados com o pensamento: querem saber tudo instantaneamente. Digo isso sem muita pesquisa, só de olhar os conteúdos mais buscados e lidos em sites e mídias sociais. Como por exemplo as listas, ou games sociais, ou o próprio Instagram onde a atenção que cada post gera é de segundos (como você disse, nem precisamos falar do Tik Tok, que é pura fragmentação). Um story dura 15 segundos e tem gente que passa rápido porque acha que é muito tempo.

Por que passar um tempo observando um quadro do Van Gogh se podemos folhear "As 10 pinturas mais incríveis da história"? Ou "Se você fosse um quadro do Van Gogh, qual seria? Teste aqui."

Sou muito guiado pelo desejo de me opor a isso. Provavelmente porque não sou uma criança da internet, sou da geração que nasceu sem internet e que a viu surgir na adolescência. Somos um bicho estranho porque ao mesmo tempo em que sentimos dificuldade com a cultura da internet também já não nos encontramos no mundo analógico. Mas sou um produto do meu tempo e da minha cultura. E essa impaciência não é só dos jovens, ela está introjetada em todas as gerações expostas à lógica da internet.

A razão pela qual as pessoas não leem livros, são intolerantes com artigos longos e assistem em velocidade 2x um vídeo curto de 5 minutos que resume um livro de 300 páginas é que foram infectados pela impaciência patológica que nos faz querer ter conhecimento, mas não fazer o trabalho de pensar sobre ele.

O verdadeiro material do conhecimento é o pensamento. E pensar é o oposto de ser superficial. A única coisa que a gente consegue aprender em um vídeo de 5 minutos sobre um livro de 300 páginas é a sua superficialidade.

Você lembra do que viu no Instagram há minutos atrás?

A única maneira de colher conhecimento é a contemplação e o caminho para isso é o tempo. Não existe atalho. Não existe aplicativo pra isso.

Somos uma colagem de nossos interesses, nossas influências, nossas inspirações e o que fazemos por elas. Quem somos é simplesmente um catálogo disso tudo batido num liquidificador e organizado com cuidado se tivermos habilidade para pensar e refletir. Esse é o significado que procuro dar à minha vida.

Conclusão

Toda essa longa resposta para dizer uma coisa [e se você pulou tudo até aqui então já está aí a resposta]: eu acredito no conteúdo que tenha inclinação sobre um assunto. Especialmente àqueles que apontam coisas que eu não tinha percebido antes. Não gosto de conversa de elevador, nem de papo de festinha ("E aí, o que tem feito?"). Prefiro sentar e conversar por horas, de preferência com poucas pessoas de cada vez. Então minha opinião é que você avance sobre esse dilema e coloque esse projeto na roda e vamos avante.