Escrever é pensar

04 de agosto de 2021
Literatura

Numa entrevista ao site Asymptote o antropólogo francês Bruno Latour contou que começou a escrever aos 13 anos em cadernos e que isso era um costume dos jovens da sua geração. Que geração é essa? Bem, é a geração da maior parte dos artistas que a gente admira. Latour nasceu em 1947, portanto, sua juventude foi nos anos 60. E você sabe o que aconteceu nos anos 60.

"Ler é um hábito que nem as crianças burguesas de hoje possuem, mas minha geração tinha. Agora é a internet e tudo mais", ele respondeu. "Na minha época, nós, crianças burguesas, escrevíamos em diários. Isso significa que meus trabalhos publicados são 0,01 por cento do que escrevi. Na verdade, eles são derivados de coisas que escrevi a partir dos treze anos de idade."

A entrevistadora pareceu incrédula, "Então você tinha mesmo o hábito de escrever todos os dias?" Latour repetiu "Sim. Desde que eu tinha 13".

"Você ainda tem esses cadernos?", insistiu ela.

"Sim. São 223 cadernos."

Eles riem. Sério, está escrito: (they laugh).

A entrevistadora, que a esse tempo perdeu todo o interesse no assunto que estavam discutindo antes, regozija "Que grande trabalho de edição seria!" se referindo à revisão do conteúdo desses cadernos. Será que ela estava se oferecendo?

Entendendo que o assunto agora era esse, Latour se entrega:

"No começo, aos treze anos, os textos eram bem juvenis. Nunca cheguei a pensar se eu era escritor ou não. Você começa escrevendo coisas estúpidas, na página seguinte algo acontece, e então na próxima... Uma coisa que costumo ensinar aos meus alunos quando dou oficina é: se você não escreve, você não pensa. Escrever faz pensar."

Traduzi esses trechos apressadamente. Em inglês funciona melhor. Ele diz: "If you don’t write, you aren’t thinking." Também diz: "You are thinking because you are writing, and the writing makes you think."

Sacou? Como você traduziria isso?

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Bruno Latour comentou que encontra muitos alunos com dificuldades em desenvolver certos níveis de reflexão porque eles não têm o hábito de escrever. São os tempos em que vivemos, ele disse. Para ele, o ato de pensar não pode ser dissociado da atividade da escrita.

Essa relação entre pensar e escrever me bate profundamente. De fato, é como comecei esse texto aqui. Lendo a entrevista, me prendi neste trecho e sem saber direito o que escrever (o que pensar) resolvi registrar. Se não registrasse acabaria esquecendo, como acontece com a tonelada de informações que consumimos hoje em dia. Enquanto vou anotando esses parágrafos, as palavras vão aparecendo em cascata, conexões vão sendo feitas, ideias vão tomando forma.

Ao reescrever e revisar, um raciocínio vai surgindo. Eu vou chegando em algum lugar.

É possível subir no alto de uma montanha, admirar a paisagem e deixar os pensamentos encandearem ideias. Mas quando estou com um lápis e caderno, vou concretizando esses pensamentos, ou melhor, vou externalizando, tirando-os de mim, podendo olhar para eles e assim trabalhá-los. Uma vez o texto "pronto", leio e releio e assim aquilo que começou como um brilho intenso e sem forma volta para dentro de mim construído e organizado.

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Se escrever é pensar, então ler é pensar junto. É pensar com outra cabeça.

É lugar comum ouvir pessoas dizerem que usam determinadas substâncias psicodélicas pela sensação de "sair de si", de "viajar", de pensar o que não pensariam num estado normal. Sinto que realizo todo esse deslocamento enquanto estou lendo. Como disse David Foster Wallace, há uma coisa que a literatura pode fazer que outras formas de arte não podem: adentrar na experiência interior de outra subjetividade, estabelecer uma conversa íntima entre duas consciências.

O efeito quando bate expande meus recursos. Na maioria dos casos, em tempo estendido. A onda dura mais que o ato da leitura. Às vezes dura a vida toda. Nunca mais voltei a ser o mesmo de antes após ler Crime e Castigo, por exemplo.

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A entrevista é muito mais longa e eles discorrem sobre vários assuntos, mas esse momento foi tão destacado que Latour fez questão de enviar (ou foi a pedidos da entrevistadora, não sei) uma foto dos seus cadernos guardados no armário. Não há nenhuma outra foto na entrevista inteira, apenas essa ali no meio, pontuando o momento.

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Esse papo todo mexe comigo porque eu também comecei a escrever jovem, aos 14 anos, diários, poesia, contos. De lá pra cá mantive o hábito de escrever em cadernos como se minha vida dependesse disso. Guardo-os em uma mala embaixo da minha mesa de trabalho e consulto-os de vez em quando. São cadernos de observação, como o título desta newsletter. Aliás, como isso daqui. Aqui e lá, formam um espaço de aprendizado e conhecimento. Mais do que dinheiro, imóveis ou bens, esses cadernos são meu tesouro.