Fazer arte pra quê?

18 de março de 2021
Arte

Depois de ter feito dois episódios que conectavam ideias atuais com pensamentos de dois grandes artistas, o primeiro foi Beethoven e o segundo foi Van Gogh, fiquei me perguntando o que falar depois, como dar seguimento às grandes ideias? Difícil.

Daí veio uma pergunta que sempre está aqui comigo, que por motivos óbvios nunca sai da minha cabeça que é "Quais motivos fazem o artista fazer arte?" Essa pergunta possui respostas infinitas, afinal cada artista tem seus próprios motivos, e depende do dia, da época, por isso o que podemos fazer é tentar agrupar essas respostas em cinco ou dez ítens. Porque o artista pode fazer arte para ser reconhecido, para conquistar alguém, para preencher um vazio, e até para ganhar dinheiro — acho meio louco, mas pode. Além disso há também uma resistência por parte de alguns artistas, geralmente àqueles que se acham mais intelectuais, uma resistência em responder essa pergunta porque para eles sua resposta deve pertencer ao enigma.

Uma coisa que tenho há muitos anos são cadernos com citações de artistas falando sobre seus processos, seus trabalhos e claro, há muitas tentativas de explicar os motivos que os levam ou levaram a fazer determinadas obras.

São cadernos que estou sempre abrindo para ler uma coisa ou outra, que serve como pesquisa, ou para me inspirar, me fazer refletir, direcionar alguma ideia, etc.

E se passo os olhos nas anotações desses cadernos em busca de entender os motivos que levam os artistas a fazerem arte, o resumo que posso tirar é que um artista faz arte com tudo o que ele/ela é: suas alegrias e suas tristezas, suas vitórias e suas derrotas.

Muitas vezes o artista é colocado como que à parte da sociedade, como se seu modo de vida e de enxergar as coisas não fossem compatíveis com a rotina maçante, a mesmice do dia a dia.

O artista consegue ver o que a maioria das pessoas não vê, e assim expressar outras observações do que é ser humano e estar vivo (e estar morto também). Muitas artes que consumi ao longo do tempo me ajudou, ou diria até mais, criou quem eu sou.

Tiro essas conclusões de uma frase do Bob Dylan que tenho anotado em um desses cadernos: “Life is not about finding yourself. Nor finding anything. Life is about creating yourself.” A vida não é sobre se encontrar. A vida é sobre criar a si mesmo.

E o próprio Dylan se inventou e reinventou diversas vezes, e com suas obras ajudou muita gente a se inventar.


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Neste caderno também tenho anotado a definição que o escritor James Baldwin deu certa vez sobre as tarefas de um artista. Ele afirma que a dupla tarefa do artista é provocar uma força desestabilizadora na sociedade ao mesmo tempo que cria a historiografia emocional desta sociedade. É claro que não dá para imaginar o nosso país sem a contribuição dos artistas. Você consegue imaginar o Brasil sem Caetano Veloso, Tom Jobim, Vinícius, Chico? E num futuro não muito longe vamos poder dizer que não será possível imaginar o país sem a contribuição dada por Anitta, Pabllo Vittar, Laerte.

"Apenas a arte penetra as aparentes realidades deste mundo", tenho anotado essa frase do Saul Bellow, dita em seu discurso no Prêmio Nobel. "Há outra realidade, a genuína, que perdemos de vista. Essa outra realidade está sempre nos enviando dicas, que sem arte não podemos receber."

Essa frase se junta com outra, da escritora Olivia Laing:

“Arte é sobre prestar atenção na realidade. Não me refiro ao realismo, ou que a arte tem que reproduzir a realidade. Quero dizer, arte é uma tecnologia que os humanos desenvolveram ao longo dos séculos para pensar sobre as condições de suas vidas, para lidar com materiais dolorosos e para gerar novas ideias e novas formas de ser.”

Uso essas citações para entender o que penso. Essas citações são arte, por si só. Elas produzem faíscas de ideias, um parágrafo como esse pode salvar uma tarde nublada de sábado.


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Gosto muito de uma coisa que o Domingos Oliveira disse em uma entrevista. O jornalista lhe perguntou “Domingos, o que é arte?” E ele deu uma resposta gigante, tão completa quanto variada, aplicando a arte em diferentes situações. Pra começo de conversa ele responde que a arte é indispensável para a sobrevivência da espécie. Um mendigo canta uma música na calada da noite. Um bandido dança um tango. Multidões lotam (ou lotavam os cinemas), mas assistem episódios de séries um atrás do outro, como se não houvesse nada mais pra fazer. Toda semana novos livros são lançados, o que nos faz perguntar “Quem, afinal, lê tudo isso?”

Em determinado momento Domingos diz:

“Se um amigo seu quer morrer, morrer mesmo, toque para ele uma música de Mozart, ou mostre um quadro de Renoir, um bom filme ou até mesmo simplesmente conte a ele uma história de um livro. Se o seu amigo não ficar alegre, desista. Ele já está morto.”

Consumir arte é estar vivo.


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Mas quais motivos fazem o artista fazer arte?

Vou deixar que Virginia Woolf responda, em tradução livre minha:

"Para mim um choque, por exemplo, é imediatamente seguido pelo desejo de explicá-lo. Sinto que é um acontecimento e esse acontecimento é ou se tornará a revelação de algo, um símbolo de alguma coisa, que eu torno real ao colocar em palavras. Apenas colocando-o em palavras eu torno o acontecimento, o choque, por exemplo, em algo em si. E isso significa que ele perdeu o poder de me machucar."

Esse trecho é de uma anotação encontrada em um de seus diários e publicado em inglês no livro Moments of Being.

Dessas palavras da Virginia Woolf concluo que escrever não é produzir um reflexo de si mesmo, mas sua transmutação. O ato requer externalizar o conteúdo da mente em uma nova forma que pode ser vista e compreendida por outra pessoa. E isso é um caminho para o autoconhecimento — de quem escreve e de quem lê.

Podemos aplicar isso para todas as formas artísticas, cinema, música, pintura, etc.

A pulsão criativa é uma pulsão de vida.

A arte cria um espaço, uma energia que não passa só por quem cria mas passa também pelo coletivo onde essa energia circula.

Criar arte é uma forma de dar sentido. Mesmo que seja efêmero, que não abarque tudo, mas neste momento de construção de sentido, pode tornar a vida mais interessante.