Largue a arte e vire influencer

26 de março de 2021

Arte

Quando o Facebook começou a se tornar popular, Mark Zuckerberg disse que havia criado seu brinquedo para "tornar o mundo mais aberto e conectado". O que ele quis dizer, nas entrelinhas, é que o Facebook seria uma espécie de alfândega de todas as interações interpessoais.

Nesta pandemia e quarentena que já se arrastam por mais tempo que imaginávamos, nos prendemos dentro de casa e de repente toda a nossa vida social passou a ser intermediada pelas redes sociais.

Em um artigo recente, um desenvolvedor web afirma que as redes sociais são uma abstração perversa com a qual o nosso cérebro não reage bem. Ele, que conhece bem os mecanismos e os processos da interface, explicou alguns dos hábitos que passaram a dominar a maior parte dos nossos dias:

Usar medidas de tempo como "postado há 2h" ao invés de "11:30" cria uma sensação de imediatismo.

Scroll infinito ao invés de um botão "leia mais" cria uma sensação de que você ainda não viu tudo.

Botões clicáveis como Curtir, Retweet, Compartilhar, Salvar, com ícones animados e números, cria uma mecânica de mania e compulsão.

Ou seja, não é engajamento, é vício.


Largue a arte e vire influencer

Em uma entrevista que dei lá na segunda era da internet (Facebook e Twitter tinham acabado de surgir e nem havia Instagram ainda), eu era editor chefe de um site de textos, artigos e crônicas, e disse que "a internet é o nosso Woodstock". O que eu tava querendo dizer é que havia uma sensação de liberdade criativa e emancipação dos artistas e autores que enfim não precisavam mais de empresas mediadoras (editoras, gravadoras, galerias) para lançar seus trabalhos.

Quem nasceu antes da internet e do celular lembra das primeiras fases. Era só mato. Nós montamos nossas barracas, fizemos fogueiras, trocamos zines, os que tinham banda chegavam e faziam seu som... Aí depois chegaram os prédios, construíram lojas, meteram um shopping no meio, igrejas também, e mais prédios, mais lojas e a gente começou a pedir emprego para essas lojas que tomaram nosso parque.

Ninguém mais faz arte. Hoje a gente cria conteúdo. Não é artista, é criador de conteúdo. Publicitário de si mesmo. Influencer. E por trás estão essas mega empresas estadunidenses dizendo o quê e como devemos postar. Nos tornamos mini-micro-empresários suando por likes.

Hoje tá mais pra Las Vegas.