O tempo das coisas

14 de dezembro de 2021
Arte

Todas as coisas são afetadas pelo tempo.

Uma fralda descartável leva 450 anos para se decompor. Em apenas milisegundos o Hidrogênio-7 se transforma em Hidrogênio comum. Cientistas usam o carbono 14 para determinar a idade de fósseis animais e vegetais ou de qualquer objeto a partir do fato de que o período de meia-vida do carbono 14 é de aproximadamente 5.730 anos.

Ideias também têm um tempo de vida. A grosso modo esse tempo pode ser medido pelo seu impacto cultural.

Einstein escreveu um artigo há 120 anos atrás que ainda está sendo discutido e revisado. Certamente teve mais impacto na época em que escreveu mas sua influência ainda continua presente.

As peças de Shakespeare ganharam mais relevância e importância ao longo do tempo, apesar de na época suas encenações terem alcançado sucesso popular.

Darwin continua sendo comentado até hoje. E Freud. E Nietzsche. E sempre haverá alguém que acabou de descobrir Clarice Lispector.

Hoje em dia, quando influenciadores, apresentadores, comentaristas, artistas, políticos, etc, comunicam alguma ideia, o objetivo imediato é que essa ideia ganhe tração, seja curtida, compartilhada e viralize -- pra usar uma palavra dos tempos. Dos bilhões de tweets que são tuítados todos os dias, talvez algumas dezenas tenham uma sobrevida de um ano ou mais. A maioria desaparece em poucos milisegundos. Por outro lado, um artigo científico, um ensaio, um conto, tem provavelmente mais tempo de vida. É muito possível que um livro publicado este ano só seja lido e comentado por um número razoável de leitores daqui a dez anos, em muitos casos após a morte do autor.

Na época em que vivemos há uma exaltação em favor das ideias de milisegundos. Se tornou mais valioso produzir milhares de ideias que duram segundos do que poucas ideias que duram uma década.

Não tenho certeza se nos beneficiamos disso.