Em "Ogre" Richard Dawson transmite terror e triunfo

27 de março de 2021

Música

Richard Dawson é conhecido por suas letras narrativas sombrias, por uma voz rasgada e crua e um violão distorcido que oscila entre a beleza serena e a tensão. É comumente relacionado à música folk, mas ele mesmo disse em uma entrevista ao The Guardian que “Não é música folk. Eu chamo de música ritual comunitária e estou mais interessado em música experimental.”


Lançado em 2017, o disco Peasant pode funcionar como um livro de contos com dez histórias (são 11 músicas, mas a primeira é instrumental e serve como epígrafe). O título Peasant significa Camponês. As histórias se passam na Bernícia, um antigo pequeno reino anglo-saxão estabelecido por colonos no século VI onde agora é o nordeste da Inglaterra. Não existe muitos registros históricos sobre aquela época, então Dawson tomou liberdade criativa para criar as letras. O próprio nasceu e vive atualmente em Newcastle, cidade que está localizada na mesma região da Bernícia. Ele criou uma coleção conceitual de personagens medievais que abordam temas de perda, morte, família e comunidade, e as maneiras pelas quais eles se cruzam.


A música Ogre, segunda faixa do disco, conta uma história que não poderia ser mais do que um sinal dos tempos.


A letra começa descrevendo a vida de uma pequena comunidade em um pobre vilarejo. Em seguida vem a descrição do abate de um ganso para ser usado em uma tigela de sopa. O canto de Dawson é tão poderoso que você imediatamente é jogado numa noite escura e fria da Idade Média, iluminado apenas pela fogueira. Ele compõe em uma linguagem arcaica, o que nos transporta mais ainda para a época.


A música segue com a notícia de que uma das crianças da aldeia desapareceu. Todos partem numa busca mas tudo o que encontram é a mão do garoto abandonada em um buraco na terra. Isso faz com que os aldeões acreditem que foi um Ogro que matou o menino, já que em suas crenças os Ogros costumavam comer crianças.


Dawson coloca alguns trechos da letra entre aspas como falas dos seus personagens. Um líder da aldeia dá ordens de segurança, manda prender as cabras, subir paredes, trancar as portas e acender o fogo para afastar o monstro.


Na estrofe seguinte outro personagem acorda no frio da madrugada e vê seu filho ser sequestrado. Ele não consegue enxergar direito, um vulto escuro carrega a criança rapidamente, apenas vê a respiração da criança no escuro. Ninguém faz nada pois estão com muito medo, acreditando que o sequestrador é o Ogro.


Na realidade, é provável que o Ogro seja um dos membros da comunidade que está sequestrando crianças. Mas os aldeões não levantam essa hipótese, preferem acreditar que é algo sobrenatural. "Nenhum de nós seria capaz de tamanha maldade", é o que devem pensar. "Não fazemos esse tipo de coisa."


Em um show de 2017, antes de apresentar a canção, Dawson explicou que a música é sobre quando um povo ou país se utiliza de um bode expiatório como solução para problemas que na realidade são causados pelos próprios. Na música o bode expiatório é o tal Ogro.


Se não dá para enxergar o nosso problema, então a gente coloca a culpa no outro. Se for em um ser que não existe, melhor ainda. Quantas vezes não utilizamos resoluções fantásticas para justificar nossos problemas, defeitos, maldades? É mais fácil apontar o erro do que assumí-lo. Eu? Errar? Não. Nós não erramos. Somos seres perfeitos feitos à imagem de deus. Somos bons por natureza. O culpado é o Ogro.


É então que a música atinge seu ápice.


Após 4 minutos de construção melódica e narrativa a canção explode em um final arrebatador, assumindo de vez o controle da música sem chance de retorno.


Acompanhado pelo coro de vozes da banda (sua aldeia), Richard Dawson, com sua voz cortante carregada de emoção que algumas vezes chega a desafinar cruamente, conclama ao ataque.


E a cruzada tem início: Quando o sol estiver subindo, vamos partir em missão, com a ajuda dos cachorros, enfrentando a tempestade, atravessando o rio, descer correndo pelo Vale das Águas... Quando o sol estiver morrendo, vamos transformar as árvores em dunas, vamos até o penhasco, vamos armar barracas na praia que a maré vazante logo revelará seus segredos.


Com o final da epopéia, Richard Dawson consegue transmitir terror e triunfo em igual medida.


Ele diz que seu disco é sobre “famílias lutando, famílias sendo separadas pelas circunstâncias e como nos mantemos unidos com tudo isso, diante de todos esses horrores que a vida apresenta pra nós.”


Todos os horrores que a vida apresenta pra nós. E quem estamos perseguindo? Quantas vezes na história se formou um levante de pessoas, uma multidão, para linchar e derrubar um alvo, um bode expiatório de um problema que está ou próximo ou dentro de nós.


A última frase da letra diz que a maré vazante revelará seus segredos. Bom, acontece que o Ogro, ou o que quer que seja, não estará lá. A maré baixa não revelará nada pois não há nada para mostrar. O que se quer ver está embaixo do nosso nariz. O Ogro está entre eles. É um deles. É parte de nós.