Sobre encontrar inspiração em qualquer lugar

17 de março de 2021

Arte

Olhando e observando com atenção, a artista Hedda Sterne acreditava que a inspiração poderia ser encontrada em todos os lugares. Ela costumava contar a história de um jovem poeta que vivia em uma situação de pobreza extrema e, ao contrário da classe artística da qual ela fazia parte, esse poeta nunca tinha visto as belezas das cidades e do mundo. Vivia na miséria. E era um poeta. Seus poemas eram sobre vegetais pulando numa panela de sopa. Isso era uma prova, para Hedda, de que para encontrar algo interessante não é preciso olhar para longe, você só precisa saber ver.


Hedda Sterne foi uma pintora romena cujo trabalho foi associado ao Expressionismo Abstrato e Surrealismo. Desde cedo teve uma educação inclinada para a arte. Seu pai queria que ela estudasse piano, mas ela preferiu pintura. Passou a infância desenhando e lendo. Aprendeu a ler aos cinco anos e aos oito já tinha lido Dostoiévski.


Começou sua trajetória como artista na Romênia, tendo aulas, pintando e viajando pela Europa para vernissages e exposições. Mas foi aos 31 anos, em 1941, quando se mudou para Nova York, que sua arte se profissionalizou.


Hedda acreditava que o seu trabalho era apontar coisas. Quero dizer, a gente sabe que um dos processos artísticos é expressar nossos pensamentos e sentimentos, no entanto, Hedda não concebia sua arte de dentro pra fora, mas sim de fora pra dentro.


"Eu me vejo como uma observadora de algo que existe independentemente de mim. Minha arte diz: não olhe para mim, olhe para o que eu encontrei."


Certa noite, em Nova York, durante um lançamento de livro de um amigo, Hedda conheceu um escritor francês de nome Antoine. A sintonia foi imediata e se tornaram bons amigos. Ele ligava para ela às duas da manhã para ler capítulos de um livro no qual estava trabalhando e pedia conselhos sobre o enredo. Certa noite perguntou se ela conhecia algum ilustrador para fazer as ilustrações. Hedda respondeu que ele mesmo deveria fazer suas próprias ilustrações. Ele disse que não sabia desenhar e ela, que nessa época era uma pintora que estava começando a ser reconhecida, respondeu "Ninguém sabe." Antoine fez os desenhos e publicou o livro. O título: O Pequeno Príncipe.


Nesta mesma época Hedda conheceu o também artista romeno Saul Steinberg. Se apaixonaram e se casaram em outubro de 1944. Juntos formavam um casal invejável, dois artistas admirados e influentes na cidade mais efervescente do mundo. Viveram juntos até 1960, quando se separaram. No entanto, mantiveram uma amizade próxima e permaneceram casados até a morte de Steinberg em 1999.


Aos 96 anos deu uma entrevista para uma revista de arte americana que estava fazendo uma retrospectiva sobre sua obra. Hedde voltou a afirmar que sua arte não era sobre ego, mas sobre compartilhar o que ela tinha visto:


"Meu trabalho nunca foi autoexpressão ou autoficção. Meu trabalho era dizer 'Ei, olhe!' A intenção, o propósito, não era mostrar meu talento, mas mostrar algo. Isto é muito importante. Porque eu cresci e vivi em um período de ego, ego, ego. E eu sempre fui anti-ego. Eu estava sempre tentando reduzir o ego. Eu tinha uma urgência muito grande de mostrar, de compartilhar. Simples assim, eu descobria coisas e queria compartilhá-las."


No fim da sua vida sofreu um derrame que comprometeu a visão e lhe obrigou a passar os dias em uma cadeira de rodas. Ela não conseguia enxergar, não conseguia observar as coisas, não conseguia mais pintar. Pouco antes de morrer, em 2011, Hedda disse algo que me lembrou a história do poeta pobre e seus poemas sobre verduras, que ela gostava de contar:


"Eu continuo pintando. Faço o meu melhor. Só que agora, com a minha imaginação."