Um Souvenir para Van Gogh

02 de maio de 2021

Arte

São famosas as cartas que Vincent Van Gogh enviava ao seu irmão mais novo, Theo, com comentários sobre suas motivações para pintar, seus processos, os momentos de produção e de angústia na criação. Às vezes ele também enviava ilustrações, muitas delas esboços de pinturas em andamento. Essas cartas revelam um olhar de cronista com comentários sobre fatos da sua vida, suas experiências emocionais e suas convicções filosóficas. Gosto de pensar nessas cartas como sendo seus cadernos de observação.

Em 7 de agosto de 1883 Van Gogh escreveu para Theo que ele sentia uma obrigação "de deixar um souvenir na forma de desenhos ou pinturas em agradecimento” por ter nascido.

Ele escreveu essa palavra: souvenir. Como sabemos, souvenir é uma lembrança de algo ou alguém, na forma de objeto, geralmente dado como presente para outra pessoa ou para si mesmo.

Não é a memória de um lugar, nem mesmo a fotografia, mas sim um pedaço desse lugar. Tipo amiga guarda com ela um azulejo da casa dos seus avós, onde ela passou grande parte da infância. Guardo até hoje uma camisa que usei durante uma viagem que foi marcante pra mim, uma viagem que, acreditem, não registrei em fotos pois não tinha câmera e na época eu tinha aquele celular da cobrinha. Esta camisa é a única lembrança concreta que tenho da viagem e que me faz lembrar dela. Até pensei em emoldurar num quadro, mas não se preocupem, não chegarei à esse ponto. Enfim. O souvenir de Van Gogh não é apenas "Eu quero ser lembrado" mas sim "Isso daqui, esse pedaço de algo é um pedaço de mim. É a prova concreta da minha existência." Interessante perceber que essa ideia vem de um artista que não era visto, um artista que ninguém enxergava.

A história de Van Gogh é citada sempre que falamos sobre a condição do artista incompreendido em sua época. O que provavelmente seja o caso da maioria dos artistas, não é mesmo?


***


Desde a infância possuía um olhar desconfiado sobre o mundo. Realizava caminhadas solitárias por lugares distantes para se isolar de tudo e de todos. Van Gogh decidiu se dedicar à arte porque acreditava que suas obras poderiam livrá-lo da melancolia que sentia -- provocada em muito pelo sentimento de fracasso em todos os domínios da vida: amorosa, familiar, profissional. Se tornou um pintor "fracassado", quero dizer, sem sucesso. Passou fome e frio, viveu em barracos e conheceu a miséria. Enquanto vivo vendeu apenas uma pintura: "O Vinhedo Vermelho". Seu irmão Theo era quem lhe sustentava.

Na tentativa de remediar/aplacar uma vida tão cheia de infelicidade, procurou a si mesmo na arte e na literatura.

Em 30 de março de 1883, passou sozinho o dia de seu aniversário de trinta anos lendo Os Miseráveis de Victor-Hugo. “Às vezes não consigo acreditar que tenho apenas trinta anos”, escreveu. “Sinto-me muito mais velho quando penso que a maioria das pessoas que me conhece me considera um fracasso, e como isso pode ser verdade.”

Buscava criar na arte o que não encontrava na vida. Com uma produtividade incansável, arriscou a vida no trabalho. “Dedico-me a minhas telas com toda a minha mente”. Pintava freneticamente. Em uma época chegou a pintar, em média, um quadro por dia.

Aos 33 anos Van Gogh escreveu para Theo: “Gostaria de deixar algum souvenir na forma de desenhos e pinturas... Tenho de realizar em poucos anos algo repleto de amor e coração, e tenho de fazê-lo com vontade. Não sei se vou viver muito, tanto faz, (...) mas algo precisa ser realizado nesses próximos anos.”

Não viveu muito mais. Apesar de ter criado/gerado obras geniais, a pintura não deu o resultado que Van Gogh esperava. Os anos seguintes foram muito conturbados e tristes e ele acabou tentando se matar, mas fracassando parcialmente. Eu digo parcialmente porque o que se sabe é que ele deu um tiro no próprio peito, mas ele não morreu até dois dias depois. Antes, Van Gogh foi encontrado sangrando em seu quarto e foi levado para um hospital próximo. Mas os médicos não conseguiram retirar a bala. Seu irmão foi correndo para ficar com ele durante a recuperação e Van Gogh pediu a Theo para levá-lo para casa. Em 29 de julho de 1890, Vincent Van Gogh morreu nos braços de seu irmão, aos 37 anos.


***


O que aconteceu, todos sabemos. O reconhecimento veio anos depois. Em 17 de março de 1901, algumas das pinturas de Van Gogh foram exibidas em Paris, e assim sua fama cresceu enormemente. Vincent Van Gogh pintou mais de 900 telas. 900 souvenires. 900 lembranças. Uma obra imensa e invejável que provocou e influenciou todas as gerações seguintes até hoje.

E eu fico pensando nessa ideia de deixar uma lembrança para as pessoas de agora e as que virão depois. Uma lembrança do que você viu, viveu, pensou, sentiu. Qual a sua experiência? Como você experimentou isso daqui? O que aprendeu? Como pode ajudar a tornar as coisas menos tenebrosas e terríveis? Não precisa construir um templo, nem ter um milhão de seguidores, pode ser uma mensagem num papel, uma canção, um filme no celular, ou até mesmo algo que não seja possível guardar mas é impossível esquecer como um abraço num dia frio, um sorriso no fim da noite, uma mão. Qual a sua contribuição?

Esta é a minha.


Este texto se tornou episódio do podcast.