Viver outras realidades

14 de setembro de 2021
Literatura

Nesta semana concluí mais um curso de escrita, o sétimo que fiz durante esse tempo que estamos mais isolados em nossas casas. Foram quatro cursos online no esquema ao vivo, dois gravados via plataforma de cursos e outro que, bem, na verdade é um livro, mas considero como um curso.

Todos os cursos foram de escrita de ficção, gênero que deixei de lado por muito tempo mas que voltei (como leitor e autor) em 2019. O motivo de ter ficado anos sem ler ficção foi por achar que ela não dava conta da realidade. E o motivo de ter voltado a ler ficção foi por perceber que, na realidade, a realidade (sic) é ficção. E que, além disso, a saída para muitos dos nossos problemas seria revisar as ficções predominantes e se possível criar novas ficções.


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O livro que li e que considero um curso foi A Swim in a Pond in the Rain, do George Saunders. Porque é de fato um compilado de aulas do Saunders sobre os contistas russos "e o que eles nos ensinam sobre escrita, leitura e vida", como diz no subtítulo.

Saunders é um contista norte-americano, autor do melhor livro que li no ano passado, e um apaixonado por histórias, especialmente narrativas breves, como eu. Sua capacidade de análise e ensino é inspiradora.

Ele dedica seu livro às pessoas que colocam a leitura no centro de seus mundos pois sabem que ler lhes tornam mais expansivos, generosos e fazem suas vidas serem mais interessantes.

No prólogo, Saunders explica que estudar a forma como lemos é estudar a forma como a mente funciona: a maneira como avaliamos uma afirmação quanto à verdade e como reagimos em relação à mente de outra pessoa. A parte do cérebro que lê um livro é a mesma parte que lê o mundo. Portanto, através da leitura exercitamos nossas capacidades analíticas e nos tornamos em leitores mais atentos e curiosos da realidade.

Quando lemos uma história entramos na mente de personagens e passamos a enxergar o mundo por outra perspectiva que não a nossa. No final, um personagem que era um estranho, ou que pensava completamente diferente da gente, passa a parecer como um amigo. E para Saunders, esse processo se aproxima de algo como o amor.

O fato da nossa sociedade ser tão anti-literária, de ler tão pouco, é uma das razões mais profundas dos nossos problemas. Porque o problema se revela antes na linguagem. Olha como Bolsonaro e seus minions se expressam, sobre o que falam, como as pessoas não perceberam isso? Estava óbvio, evidente. Só que não. A maioria das pessoas não consegue fazer a mesma leitura que eu ou você fazemos, e é meio que por falta de repertório mesmo. Que fique claro, isso não se restringe a classe, gênero, nada. A leitura é precária e rara em todos os níveis, times e bolhas.


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Existe a coisa que acontece, mas o que fica mesmo são as leituras que fazemos dessa coisa que acontece. É isso que fica com a gente. E seremos mais capazes de ler, ou poderemos ler melhor, ou ler de formas diferentes, se tivermos um repertório maior de leituras.

Ou seja, se vivêssemos em uma sociedade que dedicasse mais tempo e carinho à leitura, especialmente à leitura de ficção, poderíamos estar vivendo em outras condições. Poderíamos estar vivendo em outras realidades.

É o que eu faço enquanto leio. Viver outras realidades.

Pois, além disso tudo, um dos maiores prazeres que a leitura de ficção pode proporcionar (e que acho que a não-ficção não consiga com mesmo efeito) é fazer a gente desaparecer um pouquinho da gente mesmo. E quando a gente gosta dessa experiência, mano, quando colocamos esse lance no centro do nosso mundo, como Saunders disse, ao final da história, reaparecemos de outro jeito. Arrisco a dizer: melhor.