A mulher, farinha, manteiga e leite

13 de julho de 2022
Literatura

Existe um conto do Tolstói, presente na baita coletânea "Contos Completos", chamado "Três parábolas" onde ele apresenta exatamente o que diz o título. São pequenas histórias que trazem mensagens, ou lições, e me lembram as histórias que contávamos na mesa do jantar ou no quintal de casa enquanto observávamos as estrelas.

O conto é formado por três textos curtos escritos em 1895 e é impressionante a atualidade deles.

O segundo dos três textos conta a história de um vilarejo onde havia um intenso comércio e lá pessoas faziam negócios com farinha, manteiga, leite, todo tipo de alimentos. E, como é a lei do comércio desde sempre, no intuito de faturarem mais e ficarem ricos rapidamente, os produtores passaram a misturar outras substâncias nas mercadorias que vendiam para fazer render. Na farinha misturavam farelo e cal. Na manteiga misturavam margarina. No leite, água e giz. Com essa estratégia, os negociantes prosperaram rapidamente e tudo corria bem: os atacadistas vendiam aos varejistas e os varejistas vendiam aos mascates.

Os consumidores da cidade, que não produziam o próprio alimento e por isso tinham que comprá-lo, não sabiam da mistura realizada pelos produtores e consumiam as mercadorias sem reclamar. Se por acaso achassem o leite mais aguado, devia ser assim mesmo, coisa da época, logo voltaria ao normal. Entretanto, o que acontecia é que eles acabavam se acostumando com o sabor do leite aditivado e esqueciam como era o leite real. Havia mercadoria em abundância nas prateleiras, comida não faltava em casa, então estava tudo certo.

Isso durou muito tempo. Tempo suficiente para que os habitantes do vilarejo começassem a adoecer cada vez mais, mas ninguém relacionava o problema à qualidade do alimento que estavam consumindo.

Foi então que um dia veio morar nesse vilarejo uma mulher que por toda vida havia alimentado a família com o que plantava e produzia na sua própria fazenda. E, embora não fosse uma cozinheira extraordinária, ela sabia fazer um pão gostoso e preparar almoços saborosos.

Visto que agora morava em uma cidade maior, mas numa casa menor, não havia espaço para plantar seus alimentos, ela passou a comprar na mão dos comerciantes. Assim que começou a cozinhar, percebeu que os pães não assavam direito, as panquecas se desmanchavam, o leite não tinha o mesmo sabor. Ela logo entendeu que as mercadorias não eram boas. Examinou os alimentos e sua suspeita se confirmou: encontrou farelo na farinha e giz no leite.

A mulher foi até o mercado e reclamou com os comerciantes. Mas os comerciantes disseram que suas mercadorias eram de primeira qualidade, que a cidade inteira comprava deles e que tinham até ganhado medalhas. Eles apontavam para as belas caixas envernizadas com farinha e para os lindos jarros transparentes e brilhantes com leite. Na semana seguinte ela fez a mesma coisa e os comerciantes disseram que não tinham nada a ver com isso, apenas vendiam as mercadorias. Mas ela não parou, voltou nas outras semanas, cada vez mais revoltada, ficava na frente das barracas gritando sempre a mesma coisa para os comerciantes e compradores que chegavam, exigindo que fossem vendidas mercadorias de qualidade, que comer aquela comida iria deixar todo mundo doente. "É preciso jogar todas essas mercadorias no rio ou então queimar e oferecer mercadorias boas!", gritava ela.

Mas os comerciantes, ocupados com a demanda, não faziam nada.

Por fim, ela voltou um dia exigindo que todos fechassem suas lojas e parassem de vender comidas estragadas e nocivas à saúde.

Os comerciantes se indignaram e disseram aos compradores que haviam ali se reunido curiosos com a discussão: "Vejam só, senhores, como essa mulher está louca! Quer matar todo mundo de fome! Está mandando queimar e jogar no rio todos os alimentos. O que vocês vão comer se obedecermos e não vendermos comida para vocês?"

Então a multidão se voltou contra a mulher e passou a xingá-la. E por mais que ela dissesse que não queria destruir os alimentos, que, ao contrário, queria apenas que os mercadores fornecessem alimentos de qualidade aos seus fregueses e não substâncias adulteradas sob a aparência de comida, as pessoas não davam ouvidos, porque ficou decidido que ela queria privar as pessoas dos alimentos indispensáveis a elas.

Volto a dizer que este conto foi escrito em 1895. Tem mais de um século e continua tão atual. Quando li essa história, fiquei sem palavras, olhando pro teto como se estivesse ao mesmo tempo ali e há cem anos atrás. Será que daqui a cem anos alguém lerá este texto e terá a mesma sensação?

É possível ter esperanças?

Diga-me você.