O que é ser artista nas redes sociais?

18 de março de 2022
Arte

Conheço um escritor que criou um perfil no Instagram para poder compartilhar seu processo de escrita. Ele estava começando a escrever seu primeiro romance e decidiu postar na rede social seu processo, compartilhando quase que diariamente pequenas pílulas sobre a prática e a rotina de escrever. A cada dia ele foi ganhando mais e mais seguidores, pessoas interessadas no conteúdo de instrução da escrita de um romance de ficção.

Aí então eu pergunto: Seguidores são leitores? Se você escreve nas redes sociais e alguém te lê ali, esse alguém é um leitor?

Até quantos seguidores um escritor consegue alcançar em uma rede social? E quantos seguidores têm um professor de escrita? Duzentos? Quinhetos? Mil? Chuta. Especialmente no Instagram que dá mais evidência à imagem ao invés do texto.

Motivado pelo crescimento do seu perfil e pelo engajamento que gerava entre curtidas e comentários, ele depois criou um blog no seu site, onde começou a escrever textos mais densos, explicar mais, entrar em detalhes sobre as mesmas coisas que ele postava no Instagram.

E enfim, meses depois de tudo isso, de esmiuçar todo o processo de escrita, ele publicou seu romance.

Eu perguntei quantos seguidores no Instagram tem um escritor, e agora pergunto quantos leitores ele tem? Quantos livros ele vende? Se ele tem 100 seguidores no Instagram, então ele conseguiria vender o quê? Oitenta livros? Parece lógico, não é?

É claro que estou falando aqui desse caso específico, mas serve o mesmo para músicos, artistas plásticos, performers, ilustradores, qualquer tipo de artista que segue esse tipo de usabilidade nas redes sociais, onde o conteúdo é uma exposição sobre o processo de criação e não a criação em si. Acontece que nos últimos anos isso se tornou num modelo de produção porque as pessoas demonstraram interesse em aprender com o que consumiam na internet.


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Voltando ao escritor da história, o que aconteceu foi o seguinte: seus seguidores/leitores não clicavam no link que levava ao blog para ler seus artigos e ensaios mais trabalhados. Eles não queriam saber mais do que já estavam captando naquelas poucas linhas na legenda do post no instagram. Era isso o que eles queriam, aquelas pequenas doses de conselhos e incentivo. Ponto importante é que o aplicativo do Instagram também não facilita, afinal ele não quer que você saia dele, então não é um fluxo muito orgânico entrar em outro site a partir do instagram.

A maior ironia é que seus seguidores também não se converteram em leitores do romance que ele publicou. Ele vendeu muito pouco. Seus seguidores não queriam ler a sua ficção. Ele tinha se tornado num escritor de textos sobre escrita criativa, teoria literária, por mais que ele não quisesse se tornar isso, nem tivesse planejado nada disso, ele só queria escrever suas histórias e que essas histórias fossem lidas e pensou que se falasse sobre o processo de escrevê-las, isso lhe traria leitores. Isso aconteceu, mas esses leitores estavam interessados no que ele publicava no Instagram e pronto.

E nisso ele era um sucesso. Ele tinha alcançado uma marca de 40 mil seguidores no Instagram. 40 mil seguidores. Difícil de acreditar, né? E você nunca ouviu falar dele, ele não é um autor conhecido. E no entanto ele tem mais seguidores do que os maiores escritores do país. Mas isso quer dizer alguma coisa?


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O que é ser artista nas redes sociais?

Se você tem menos de 30 anos talvez não se pergunte isso porque cresceu em uma sociedade onde ser artista é ter redes sociais e participar delas. Provavelmente você não conheça nenhum artista que não esteja nas redes sociais. Mas existem. Vários. Louco, não? Como eles fazem?

Se você tem mais de 30, cê acompanhou esse rolê, talvez tenha se angustiado com isso, até se perguntado se era obrigatório ser artista e estar nas redes sociais.

Rede social ou mídia social são plataformas que facilitam o compartilhamento de ideias, pensamentos e informações por meio da construção de redes e comunidades.

“Facilitar”... tornar algo fácil ou mais fácil. Ou seja, um lugar onde é fácil compartilhar ideias, pensamentos e informações. Muito mais fácil do que em um blog.

Nas mídias sociais você alcança mais pessoas, pois as comunidades estão bem estabelecidas. Não precisamos fazer muito para fazer parte delas. Um blog ou um site parece uma ilha deserta em que você tem que trabalhar na divulgação para que se seja visitada. Já numa rede social não, está todo mundo lá, só precisamos escolher um nicho, um grupo e começar a postar coisas que interessam a esse grupo. No momento em que você começa a compartilhar suas coisas e as pessoas veem que seu conteúdo é bom e consistente, pronto, você é notado e querido.

Entretanto, o problema das mídias sociais é a gamificação da coisa toda. Todo aplicativo tem elementos que incentivam um jogo de engajamento. É isso que mantém as pessoas ali, grudadas na tela, se preocupando com visualizações, likes, comentários e métricas.

Compartilhamos nossas coisas, mas isso não basta, a gente também se preocupa se estão curtindo, comentando, compartilhando, salvando, seguindo, como se fossem pontuações em um jogo. E são. Quanto mais altas nossas pontuações, melhor somos “vistos” e mostrados. Nós vamos para “níveis” mais altos do jogo. Alguns de nós até se sentem melhor, porque é fácil confundir essas métricas com aprovação, admiração e sucesso.

Mas bem... acontece que estamos nas redes sociais não para fazer parte de um jogo, mas pra fazer parte da comunidade na qual nosso trabalho está inserido. Um dentista que usa seu perfil para postar coisas relacionadas ao seu trabalho, busca falar com seus clientes e com outros profissionais da sua área.

Um artista quer expor suas criações para seu público. E pode usar estas plataformas como uma saída criativa. Mas a gente não quer ser quem a gente não é.

Por isso é difícil. O escritor do início dessa história tinha uma boa intenção quando montou seu perfil para divulgar o processo de escrita do seu romance, mas acabou juntando um público que não era os leitores do seu romance. Não conheço ele pessoalmente pra dizer mas pelo tom de alguns de seus posts ele pareceu frustrado dos seguidores não se interessarem pelo que ele escrevia no blog e pelo livro.

Daí fica essa pergunta: você que é artista, tem que estar nas redes sociais? Sim. Não. Fica mais fácil das pessoas conhecerem seu trabalho se você participar da sua comunidade virtual. Contanto que você queira isso e não precise se angustiar e perder a alma por isso.

O problema é que o jogo das redes sociais é da competitividade. Gera gatilhos que podem acabar gerando frustração, angústia, vergonha, depressão.

Pra concluir, tenho claro pra mim cinco pontos que na minha experiência são importantes pra nossa saúde mental nesse universo.

1. Esqueça o jogo - poste o que tiver que postar e não se importe com as métricas.

2. Seja você mesmo - se você postar coisas que não tem a ver com você, isso não vai durar muito, vai te cansar e pode gerar retornos não desejáveis.

3. Faça parte da comunidade - tem muita gente na mesma situação que você e a gente precisa trocar, dialogar, seguir junto.

4. Compartilhe o que você gosta e admira - isso cria um repertório do seu gosto e das suas criações.

5. E por último: Vamos valorizar a arte pela sua sinceridade e pelo que ela entrega, e não pelos seus resultados.