Hamnet e Hamlet

22 de abril de 2022
Arte,
Po

Pouco se sabe sobre a vida de William Shakespeare, são poucas as informações e registros que se tem da sua biografia. Até poucas décadas atrás tinha quem acreditava que Shakespeare foi, na verdade, várias pessoas. Pouco se sabe também sobre o processo criativo de suas peças. Alguns dizem que ele não era um autor muito original, tendo copiado tramas e histórias de outros autores, o que, se for real, pouco importava porque na sua época isso era comum e não havia a mesma noção de propriedade intelectual que existe hoje.

Uma coisa é sabida: Shakespeare foi um autor popular em seu tempo, lotava teatros, agradava público de todas as classes e níveis, nobres, intelectuais, comerciantes, operários, que iam aos teatros em busca de diversão.

Shakespeare escreveu 37 peças que até hoje são encenadas pela força que tem, pois tratam de temas fundamentais em qualquer época. Amor, relacionamento, vingança, morte, política, entre outros assuntos relacionados à condição humana.

Indiscutivelmente, sua peça mais importante é Hamlet. Tema de inúmeras teses, livros e adaptações, é a obra mais interpretada na história do teatro. Hamlet é considerado o personagem fundador da modernidade, por ser dono de seu destino. Antes dele os personagens tinham suas vidas determinadas pela intervenção divina, eram os deuses que decidiam o fracasso ou sucesso dos personagens. Já em Hamlet não, depende dele o rumo que sua vida terá, e ele tem uma consciência brutal, passa o tempo todo na peça se questionando, pensando, planejando, refletindo o que vai fazer.

Hamlet foi provavelmente escrita entre 1599 e 1602, mas não há uma data comprovada e quase nenhum registro sobre o processo de criação.

O que se sabe é que Shakespeare tinha um filho chamado Hamnet. E que Hamlet foi escrita sete anos após a morte desse filho, vítima da peste bubônica quando tinha 11 anos. O que naturalmente faz pensar que a origem da obra deve ter vindo do seu luto.


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Aos 18 anos de idade Shakespeare se casou com Anne e, com ela, teve três filhos, Susanna e os gêmeos Hamnet e Judith. Hamnet e Judith gostavam de brincar um fingindo ser o outro, assim como acontece em algumas cenas escritas por Shakespeare.

Em 1591 Shakespeare foi morar em Londres, em busca de oportunidades na área cultural. Lá começou a escrever seus primeiros poemas e textos e a trabalhar no teatro.

O casamento foi marcado por essa distância imposta por seu trabalho. Anne ficou com todos os cargos da criação dos filhos, enquanto o marido se estabelecia como dramaturgo em Londres. A vida de ambos foi abalada quando Judith e Hamnet caíram em uma febre repentina, numa época assolada por pandemias. Judith sobreviveu, mas Hamnet morreu. Os pais entraram num profundo momento de dor pela perda do filho.


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Poucas semanas após o enterro, Shakespeare, contra a vontade de Anne, voltou para Londres.

É impossível hoje deixar de notar a estrutura cultural do machismo, a atitude egoísta de Shakespeare, enquanto Anne segurava as pontas sozinha, curava a sua dor sozinha. Que força ela tinha para criar seus filhos em seu luto? Mas assim que era, Shakespeare era um homem do seu tempo, do século 16 e não de agora, portanto lhe parecia natural acreditar que só conseguiria seguir em frente se se isolasse para retomar o seu trabalho.

Para ele, as coisas poderiam fazer mais sentido escrevendo e, quando as palavras viessem seria possível escapar de si mesmo e encontrar a calma que causaria a ilusão da solução pra tudo, inclusive pra dor. Curioso que nesta época, nos primeiros anos logo após a morte de Hamnet, Shakespeare produziu mais comédias do que tragédias.

Pois sete anos após a morte de Hamnet, Anne se chocou ao saber que seu marido tinha escrito uma peça chamada Hamlet, abusando do nome de seu filho. Ela viajou para Londres, talvez para impedi-lo ou para entendê-lo, e assim que chegou acabou assistindo a um ensaio.

A peça começa com a morte. Ou melhor, com a pós morte, com a aparição de um fantasma, o fantasma do pai de Hamlet aparece e pede para que o filho vingue o seu assassinato.

Shakespeare interpretava o fantasma do pai. Anne viu que seu marido tinha encontrado um jovem ator, quase um menino, para fazer o papel do príncipe Hamlet, e que ele o tinha dirigido, mostrado como andar, como se mexer, como falar de modo que parecia uma simulação do seu próprio filho. Então Anne percebeu que, longe de abusar da memória do filho, ele tinha feito outra coisa, tinha feito algo mágico. Ele tinha feito uma espécie de alquimia.

Enquanto o fantasma falava, Anne viu que seu marido, ao escrever isso, ao assumir o papel do fantasma, tinha trocado de lugar com o filho. Ele tomou a morte de seu filho e a tornou sua; ele se colocou no lado da morte, ressuscitando o menino em seu lugar. Ele fez o que qualquer pai gostaria de fazer, trocar o sofrimento de seu filho pelo seu próprio, oferecer-se no lugar de seu filho para que o menino pudesse viver. Seu marido havia lhe trazido de volta à vida, da única maneira que ele pôde.


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A imagem de Hamlet vestido de preto, num luto sem fim, imortalizou-se ao longo do tempo. "Ser ou não ser, eis a questão", Hamlet pergunta a uma caveira, maior símbolo da morte.

Da tragédia pessoal de Shakespeare nasceu sua obra prima. Se Hamnet tivesse sobrevivido, provavelmente nós não conheceríamos Hamlet. Imagino que se na época perguntassem, Shakespeare diria que preferiria nunca ter criado sua obra prima em troca de ter seu filho de volta. Mas isso não se trata de “se”, o que aconteceu, aconteceu, e isso me faz pensar no que podemos fazer com as tragédias que nos acontecem.