Como manter e alimentar a inspiração

11 de junho de 2022
Arte

Como manter e alimentar a inspiração? Não é fácil. Quero dizer, muita gente tenta e espera a inspiração chegar, mas ela nem sempre chega quando a gente quer. Se ficarmos esperando a inspiração pra poder trabalhar, talvez esperaremos tempo demais. E é possível que com o tempo ela demore cada vez mais pra voltar. Certa vez li uma coisa do Chico Buarque, acho que foi no livro Estorvo, onde ele diz que a inspiração é como o sono que chega. Quando você está deitado para dormir, você vai perdendo a consciência devagarinho, acontece que de repente você dorme. Se ficar prestando atenção se o sono vai chegar, você nunca dorme. A inspiração é como o sono, você não deve dar muita atenção, não deve ficar procurando-a em tudo que é canto porque talvez não vá encontrar.

Mas sim, existem alguns métodos, ou melhor, jeitos que funcionam como gatilhos pra que a inspiração aconteça.

A inspiração precisa de alimento.

Quando a gente come, a gente cresce, fica mais forte, a gente fica vivo, certo? Precisamos de comida pra crescer. Esse processo é imperceptível, mas sabemos que está acontecendo. Pois bem, a inspiração se alimenta também. Ela se alimenta de música, livros, filmes, peças de teatro e, mais além, de cheiros, visões, sons, texturas, conversas, encontros, perigos, paixões, eventos grandes ou pequenos que alimentam nossas impressões e experiências. No nosso inconsciente não estão apenas informações factuais mas também informações reativas (que são nossos movimentos de aproximação e afastamento dos eventos vividos). Essas são as coisas, os gatilhos de onde a inspiração surge.

Com o tempo esses eventos vão se tornando um arquivo pessoal ao qual podemos voltar quando quisermos.

Nenhuma pessoa vê as mesmas coisas do mesmo modo. Duas pessoas que vêem o mesmo acidente fazem interpretações diferentes com base em suas referências. Algo acontece quando a gente acessa as coisas que nos tocam. Me lembro do meu pai contando histórias da juventude dele, coisas banais como quando entrou numa briga na escola. Ele não tinha essa história ensaiada dentro dele, mas quando acessava sua memória, ele contava tocado por uma inspiração que é o que artistas procuram na hora de compor uma música.

Do jeito que acontece com todo mundo quando conta algo que lhe comoveu, quando contam sobre algo que amaram ou odiaram, e não precisa nem ser um grande acontecimento, só perguntar pra alguém aí “Aconteceu alguma coisa que te deixou irritado hoje?”

*

Durante muito tempo artistas creditavam suas obras às musas. Mas veja, a musa não é alguém de carne e osso para quem o artista dedica um poema ou alguém que se quer conquistar, não é a musa do Vinícius de Moraes, não é a Garota de Ipanema que vem e que passa. A musa do e da artista não é uma pessoa, pois não é necessariamente concreta, mas sim uma entidade que coloca o artista em um estado de espírito capaz de criar.

A concepção da musa veio, como muitas das coisas, da mitologia grega. Eram nove musas, nove filhas de Zeus e Mnemósine (que significa Memória). Havia uma Musa para cada área da criação artística e científica… Musa da Poesia, da Música, da Dança, da História, da Astronomia, etc. O templo das Musas era o Museion, termo que deu origem à palavra Museu, local de cultivo, preservação e exposição de artes. Segundo a mitologia, as musas eram jovens alegres e festivas, vieram à terra para sussurrar ideias criativas nos ouvidos dos mortais. Se esses mortais conseguissem ouvi-las, produziriam obras maravilhosas que despertavam admiração. Quem não era visitado pelas musas acabava não criando nada.

Em um dos contos que Neil Gaiman escreveu nos quadrinhos Sandman, tem a história de um escritor em crise criativa que “compra” a musa Calíope, que é a musa da Poesia Épica. Ele a mantém refém em sua casa para conseguir inspiração para escrever um romance de sucesso atrás do outro. O problema é que a musa inspiradora desperta os mais abomináveis instintos no romancista. Além de mantê-la enclausurada, ele a estupra. Ao final da história, o escritor acaba pagando caro por seus atos.

Muitos escritores já disseram que não se deve contar com a inspiração para escrever. Escrever é um trabalho como qualquer outro. Exige dedicação, prática, rotina e disciplina. Deve-se duvidar daquilo que é posto no papel como um jorro inspirado, é necessário que esse jorro de palavras descanse e seja retrabalhado para evoluir.

*

As pessoas acham que as ideias vêm de fora, mas na verdade vem de dentro. Uma vez essas coisas estiveram fora, sim, claro, mas não na hora em que se senta pra escrever.

Assim como você deve escolher bem o que comer, para ficar bem nutrido, crescido, você também deveria alimentar seu inconsciente com um menu bem escolhido.

Ler poesia todos os dias da sua vida. Poesia é bom porque exercita músculos que não são utilizados sempre. Poesia expande os sentidos. Ouça música e somente isso. Não é ouvir música enquanto faz outra coisa, é colocar uma música, um disco e fechar os olhos e se deixar levar. Esteja sempre lendo um livro. Não precisa ser um clássico, não precisa ler 100 páginas por dia, mas tenha um livro como companhia, que você caminhe com ele, um livro aumenta as formas e o tamanho do mundo.

Tem mais, muito mais coisas que você pode fazer para manter e nutrir o estado de inspiração acordado e vivo. Você vai descobrindo isso, cada um tem o seu.

E isso, não é musa, não é entidade, não é uma inspiração mágica que vem, é mais como um velejador que está em alto mar observando o vento e sabe como se utilizar dele para chegar aonde quer.

Ao viver e ao observar enquanto se está vivendo, ao ler e observar enquanto lê e escreve, você alimenta seu inconsciente. A inspiração vem.