Como retribuir um trabalho criativo

22 de junho de 2022
Arte

Enquanto você lê um livro, um artigo, um post, assiste um filme, uma série, um vídeo no youtube, ouve uma música, um podcast, o que passa despercebido é que essa coisa que você está lendo, assistindo, ouvindo, foi criada antes de você estar lendo, assistindo, ouvindo, essa coisa nasceu como uma ideia abstrata na cabeça de alguém — algumas vezes nas cabeças de muitas pessoas —, e através de uma transformação brutal essa ideia foi se transformando, dia após dia numa dissolução de trabalhos, sacrifícios, tempos cheios, tempos vazios, solidões, colaborações que, enfim, fez essa ideia se tornar no que você está lendo, assistindo, ouvindo sem a menor dificuldade, digo, acessando facilmente aí onde você está, seja lá onde esteja, na cama, no sofá, no metrô, na esteira da academia, você está aí lendo, assistindo, ouvindo e sendo informada, entretida, quem sabe até se emocionando, sem que nada disso tivesse antes passado pelas suas mãos, pelos seus olhos, pela sua cabeça, tudo surgiu assim como mágica, da cabeça de alguém até a sua cabeça e bum.

Uma constelação de pessoas doam seu tempo e talento — seus recursos — para oferecer esses presentes. E você, eu, nós, a gente consome essas coisas e não nos custa nada, ou praticamente nada, quase nada, nadica de nada perto do que custou ser feito.

E então chega o pessoal do Vale do Silício e resolve chamar de "conteúdo". E daí surgem os "criadores de conteúdo", que são as pessoas que colocam os dias, as horas, a vida pra criar isso que recebemos num clique e arrastamos pro lado e esquecemos. "Conteúdo" é o que preenche a tela vazia, a vida vazia.


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De que forma podemos retribuir um trabalho criativo?

Retribuir não apenas como forma de agradecimento. Mas também como patrocínio para que se continue produzindo. O que não se fala muito é que o artista precisa disso, por mais que ele não diga, até pelo contrário, se posicione blasé como se não precisasse do público, como se agisse apenas pela sua própria conta e fizesse isso pelo seu prazer, necessidade, etc. Haverá esses artistas e até podemos ter sido esse artista em algum momento mas a relação com o público se faz necessária para o desenvolvimento e para a finalização do trabalho. O que seria desse texto sem você que o lê?

É no contato com o público que o trabalho começa sua viagem. E é na retribuição desse público, no retorno (seja em palmas, comentários, críticas, divulgação ou pagamento) que o trabalho fecha seu ciclo. Uma vez esse ciclo fechado, o trabalho cresce e o artista segue para o próximo.

O cuidado que o artista precisa ter com essa relação é fundamental. Uma obra de arte não é um serviço. A arte servil é a arte comercial, e o público dessa arte não é espectador mas sim público alvo.

Aí está um dos problemas comuns para o "criador de conteúdo". Através de ferramentas disponíveis em plataformas de publicação online, se tem informações sobre público, alcance, engajamento, divulgação, e sem perceber o artista passa a exercer funções de empresário, colocando sua energia criativa não apenas para atender e servir como também para receber retornos e recompensas.

Enquanto artista, isso é bastante atraente pois é possível perceber que o que está sendo criado está sendo bem recebido, e onde e como. Mas a médio e longo prazo o artista se vê obrigado a repetir e repetir e repetir a mesma criação para satisfazer e impulsionar cada vez mais este retorno.

Enquanto espectador, a princípio é conveniente receber exatamente aquilo que procuramos. Mas também, a médio e longo prazo, nos fechamos, nos isolamos no que nos agrada, e nosso mundo se restringe e deixamos de ver coisas que não conhecíamos.

Este é um dos problemas da criação e do consumo de conteúdo que segue a lógica das mídias sociais na internet.

O criador de conteúdo precisa atender o seu público.

O artista não necessariamente precisa atender o seu público.


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Mas então, para driblar essa lógica, de que forma podemos retribuir o trabalho criativo?

Pagando: porque estamos no capitalismo e todos precisamos pagar os boletos. Na maioria das vezes a arte não dá dinheiro, portanto o artista precisa de um trabalho pra pagar as contas e usa o tempo que sobra pra fazer sua arte. Pode ser comprando alguma obra, assinando ou se inscrevendo em financiamentos ou fazendo um Pix, tanto faz, pagar pela criação faz o artista ter mais tempo e mais ferramentas para se dedicar a isso.

Compartilhando: assim espalhamos e divulgamos os trabalhos que gostamos para pessoas da nossa rede que podem divulgar para outras e outras e outras e assim fazem o alcance se multiplicar.

Comentando: trocar com o autor sobre a sua criação incentiva bastante na produção, lhe faz ter uma noção dos efeitos que pode causar, e entender melhor esses efeitos e assim fazê-lo evoluir mais como artista.

Apresentando para pessoas influentes: pessoas influentes que têm acesso às instituições ou outras pessoas influentes que podem um dia pagar pelo trabalho ou colocá-lo numa rede que possibilite a evolução e continuação do trabalho.

Eu penso nisso tudo enquanto espectador e artista. Apoio o trabalho de artistas que admiro executando os quatro tipos de retornos que listei acima. E como artista, aprecio e agradeço imensamente quando fazem o mesmo pra mim.

E para fechar, um pensamento do escritor espanhol Enrique Vila-Matas:

"A literatura é como uma mensagem em uma garrafa porque a literatura também precisa de um destinatário, e assim como sabemos que alguém, algum desconhecido, um dia vai ler a mensagem de nosso marinheiro naufragado, também sabemos que alguém um dia vai ler nossos escritos, alguém que será não apenas um destinatário mas principalmente um cúmplice, na medida em que ele ou ela é quem dará sentido à nossa escrita. É isso que permite que toda mensagem seja acrescida, adquira novos significados, cresça em ressonância. E isso é precisamente o que há de tão estranho e fascinante na literatura, o fato de não ser um organismo estático, mas algo que muda a cada leitura, algo que muda constantemente."